domingo, 5 de fevereiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1970 A FORÇA DOS LEÕES

                 “somente um interesse apaixonado pode levar o sujeito a existir plenamente”
                                                                               Kieerkgaard
1970                       A Força dos Leões
A crise política no clube que culminou com a saída do Presidente Reynaldo Reis no fim de 1969, sendo substituído por Agathyrno da Silva Gomes, demonstrava como a ausência de títulos em todos os anos 1960 (o último carioca foi em 1958) afetou por completo o ambiente da agremiação esportiva. Dentro e fora do campo a tensão permanente gerou inúmeras desconfianças em relação ao início de ano de 1970.
A maior novidade do mercado editorial em 1970 era o lançamento da Revista Placar, pela editora Abril. Embora estivéssemos na Época de Ouro do Futebol Brasileiro não havia nenhuma revista especializada em esportes neste ano. A última revista que fez relativo sucesso era Revista do Esporte (1959-1970) que saía pela última vez ainda em 1970, mas já dava sinais de esgotamento desde 1968.
Apesar de adotar uma linha editorial ao privilegiar o futebol paulista, Placar se tornou referência para os torcedores de todo o pais, graças ao talento da equipe de repórteres que a revista reuniu ao longo dos anos. Apesar da ditadura e da censura imperando na imprensa, havia espaço no periódico para a crítica sobre os poderosos no futebol.
Mas o grande sonho dos torcedores a partir de 1970 era se tornar milionário com a criação da loteria esportiva. Semanalmente os apostadores jogavam e acompanhavam os 13 palpites dos jogos dos campeonatos regionais. Em 1971, o campeonato nacional daria novo incentivo para os apostadores conhecerem o futebol nacional com mais interesse.
Enquanto a seleção brasileira treinada por João Saldanha se estruturava para o campeonato mundial no México, o Vasco iniciava os preparativos para a Taça Guanabara e para o campeonato regional com um novo técnico (Tim) ciente do desafio de encontrar um clube em ebulição e uma torcida carente de títulos.
O clube da Colina procurava reforços e um deles poderia vir da Europa. Antes de ser demitido e substituído por Zagalo, o técnico João Saldanha escreve uma coluna no jornal O Globo declarando o seu apoio na tentativa do presidente do Vasco trazer o maior craque da história de Portugal para o seu clube. O passe de Eusébio estava avaliado em 160 milhões. Dinheiro que o clube carioca tentava arrecadar através de uma “vaquinha”. O próprio Saldanha promete ajudar, mas revela, de forma infeliz como ele vê a torcida cruzmaltina: “agora vocês vão dizer; o que é que você tem com isso? Você não é Vasco, não é português (...) O Vasco tem de levar novamente a colônia portuguesa para dentro do Maracanã. Ela já está fora há algum tempo e, para o Vasco da Gama eu creio que isso é perigossíssimo” (Saldanha, 2006, p. 110). O resultado é que nem o atacante veio para o Vasco, nem Saldanha continuou na seleção.
Desde 1923 quando os cruzmaltinos passaram a disputar o campeonato carioca da primeira divisão aquele era o período de maior jejum de conquistas, como revela a manchete da reportagem: “Torcida perde a paciência após 11 anos sem títulos” (23-02-70). A matéria é sobre a recém-criada torcida organizada Força Jovem do Vasco, que através de uma carta pública pede ao novo presidente uma reunião com o técnico e com um jogador. Uma situação no mínimo paradoxal para os padrões daqueles Anos de Chumbo com a pressão de uma torcida para o presidente já que era o auge de repressão do regime militar (1964-1985) onde qualquer manifestação de protesto era terminantemente proibida após a decretação do AI-5, em  dezembro de 1968. No entanto, no futebol este Ato não teve o efeito devastador que atingiu a sociedade pois desde os fins dos anos 1960 (particularmente a partir de 1967) que as torcidas organizadas cariocas resolveram mudar sua atitude de apoio incondicional ao clube e passaram a se comportar de forma mais crítica e incorporando palavras, atitudes e gestos dos movimentos sociais de contestação ao regime militar. Os protestos nas arquibancadas tinham como alvo não somente os dirigentes, como técnicos e jogadores do clube do coração.
Enquanto a Torcida Organizada do Vasco (TOV) chefiada por Ely Mendes na ausência de Dulce Rosalina (torcedora-símbolo e liderança desde 1956), que se recuperava de um acidente no ônibus da torcida durante uma caravana para São Paulo em 1968, outros torcedores se movimentavam para organizar suas própria torcidas e/ou apoiarem atos de protestos contra os fracassos sucessivos nos últimos anos.
As novas torcidas organizadas do Vasco surgiram ainda em 1968. Se em Paris o mês de maio viu as ruas pegarem fogo nos inúmeros protestos dos estudantes contra o governo francês, em São Januário, o rastilho de pólvora chegava em 14 de maio com a criação da Torcida Disssidente, intitulada Leões Vascaínos, criada no embalo das manifestações de rua na cidade do Rio de Janeiro, no período anterior ao AI-5. Para Zuenir Ventura, autor do livro 1968, o ano que não acabou, é difícil encontrar uma explicação para tantas revoltas ao mesmo tempo: “movida por até hoje uma misteriosa sintonia de inquietação e anseios, a juventude de todo o mundo parecia iniciar uma revolução planetária” (2013, p.75).
O português Abílio Machado era o principal líder da torcida Leões Vascaínos que, junto de vários outros torcedores (principalmente da região da Tijuca) e de vários associados do clube, romperam com a ideia de uma torcida por clube. Este movimento já vinha ocorrendo na mesma intensidade nos outros clubes com o surgimento de Torcidas Jovens.
Abílio foi um dos principais articuladores do movimento que provocou a saída do presidente Reynando Reis em 1969. Pouco tempo depois, em fevereiro de 1970, um outro grupo de vascaínos da região do Grande Méier se reúne para fundar sua própria torcida. As primeiras reuniões aconteceram ainda em 1969 e tiveram como base inicial uma casa na rua Cônego Tobias, onde residia um médico conhecido da região e frequentador assíduo do Maracanã.
A Força Jovem e os Leões Vascaínos se colocavam nas arquibancadas atrás do gol, no Maracanã, bem distante da TOV que ficava sempre no início do lado direito das cadeiras especiais e tribuna de honra. Juntas e separadas as duas torcidas tinham momentos em que se uniam e se separavam. Em seção de cartas dos leitores é possível perceber que se travava um duelo amigável de quem teria a hegemonia dos jovens torcedores vascaínos, insatisfeitos com o clube o a torcida oficial.
Seja nas arquibancadas onde o duelo era de quem incentivava ou protestava mais ou nos jornais, ambas se acusavam de não serem totalmente independentes e de ainda viverem de favores dos dirigentes do clube.
Iniciado o campeonato carioca de 1970, o clube tem uma campanha modesta mas depois dá uma arrancada no final e surpreende vencendo seus adversários (mesmo sem ter um time de grandes estrelas, como o goleiro argentino Andrada e o experiente atacante Silva, ambos considerados os craques daquele elenco).
Na semana da conquista, o poeta Carlos Drummond escreve uma carta para seu neto que vivia na Argentina, demonstrando entusiasmo com a campanha do seu time do coração: “este ano estou com uma bruta esperança de ver o meu Vasco campeão carioca. Desde 1958 que nao temos este gostinho” (Drummond, 2002, p.228). O título vem por antecipação, em setembro, após derrotar o Botafogo na penúltima rodada. A festa da torcida vascaína vinha três meses depois da seleção brasileira conquistar de forma brilhante o tricampeonato no México (1958-62-70) com um futebol exuberante que encantou o mundo.
Comemorado intensamente pelo povo brasileiro que saía as ruas a cada vitória, era impossível dos militares não tirarem proveito de tamanha euforia. Foi o que se viu com a chegada dos jogadores ao país e milhares de pessoas acompanhavam os ídolos desfilando em carros abertos.
Transformar 90 milhões de cidadãos em torcedores foi a receita dos propagandistas do governo que souberam tirar proveito do futebol para promoverem suas campanhas como “Ninguém Segura Este País” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
E foi nas ruas que a torcida vascaína mais comemorou o título com direito a passeata do Maracanã até São Januário após o jogo e, pelo Centro, da rua do Acre até a Rio Branco durante a semana e, finalizando, com uma carreata da sede na Lagoa até o Maracanã, no domingo seguinte.
Torcida e torcedores ganham as ruas e o destaque nos jornais. No dia seguinte a conquista é apresentada uma grande reportagem com Dulce Rosalina, já quase que inteiramente recuperada do acidente, ela é a figura principal ocupando uma página entre textos e fotos (aparece ainda com o braço engessado). Aos 38 anos, ela está na TOV liderando os torcedores e toda a tensão do jogo com o Botafogo é descrita. A medida que o clube faz 2 a 0 todos começam a ensaiar o grito de “Campeão”, mas ela resiste, pede para não cantar a vitória antes do tempo. Até o apito final o drama persiste. Eis que a partida termina e todos se confraternizam e choram como crianças.
Com o prestigio recuperado a torcida tem as manchetes dos jornais para varias iniciativas. Dirigentes, torcedores e jogadores esquecem as desavenças. Ely Mendes promete dois mil balões de gás vermelho para o jogo das faixas, os dirigentes (Adriano Lamosa) oferecem barris de chope em São Januário, enfim uma festa completa para tornar aquela conquista como inesquecível. Para apagar da memória os tenebrosos anos 1960.
No dia do último jogo (com o Fluminense) que seria a entrega das faixas, uma outra grande reportagem destaca um outro torcedor-simbolo do Vasco, Cartola. Um humilde senhor que se vestia sempre com roupas de gala para os jogos e tinha nos seus dentes símbolos do Vasco. O próprio torcedor já havia sido homenageado no livro de João Antero de Carvalho em 1968.
Terminava o ano e o clube era eliminado da Taça de Prata, mas a união com o clube e jogadores estava refeita. Mesmo com o fim do tradicional (1 clube = 1 torcida), o ambiente entre os torcedores vascaínos era de confraternização. O azar dos anos 1960 tinha ficado para trás, o pessimismo dos anos anteriores tinha passado. O signo do “milagre econômico” tinha entrado em São Januário, os tempos de protesto tinham ficado para trás. Talvez...
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.

Vasco Revista O Cruzeiro 1970

Vasco Jornal O Globo 1970

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