quinta-feira, 7 de maio de 2026

DEPOIMENTO DA DONA MARGARIDA, FUNDADORA DA TORCIDA UNIFORMIZADA DO VASCO.

 


Depoimento da Dona Margarida Lourenço de Oliveira.
Data da gravação: 29/04/2026
Por Anna Flávia Barreto. 


Gostaria que a senhora se apresentasse, falasse seu nome, onde nasceu e quais são as primeiras lembranças da sua infância.
Eu me chamo Margarida Lourenço de Oliveira. Quando solteira, era Margarida Portugal Lourenço, por isso que, nos jornais, aparecia como Margarida Portugal. Sou viúva, tenho dois filhos e três netos. Nasci em Portugal, vim para o Brasil com cinco anos e não voltei mais. Casei com um brasileiro, tive filhos brasileiros, nora brasileira, genro brasileiro, então sou 50% de cada lado. De Portugal, não tenho lembranças. Lembro da viagem de vinda para o Brasil. Meu pai veio primeiro com meu tio, e eu depois com minha mãe, meu irmão, a esposa do meu tio e seus dois filhos. Minha mãe e minha tia enjoavam muito, e eu não. Então, quando elas se distraíam, eu ia para o convés, pois os marinheiros me davam chocolate à beça. Para a minha mãe, a viagem foi um desespero, pois ela vivia de olho em mim. Chegando ao Rio, fomos morar em Vila Isabel. Meu pai e meu tio tinham alugado uma casa e fomos morar todos juntos: minha mãe, meu pai, eu, meu irmão, meu tio, minha tia e os dois filhos. Depois, meus pais quiseram mudar, e fomos para a Rua 28 de Setembro. Em seguida, mudamos para a Rua Frei Caneca (Centro). Meu pai tinha uma quitanda e um armazém, e a nossa casa ficava nos fundos.

Como começou a frequentar a arquibancada? Seus pais tinham alguma relação com o Vasco?
Eu comecei a frequentar o futebol por meio de um senhor chamado Eduardo, que era muito amigo do meu pai. Ele nos levou para conhecer o clube e a sala de troféus. Chegando lá, era um dia de semana e não tinha muita gente no clube. O Maneca estava lá e alguém pediu para que ele nos mostrasse a sala. Fiquei encantada com os troféus, com o clube e com o Maneca, que era uma graça. A partir daí, começamos a acompanhar e assistir aos jogos na arquibancada com o Eduardo e seu sobrinho. A minha mãe vivia com um radinho de pilha ouvindo os jogos e era apaixonada pelo clube. O meu pai não ligava muito, mas a minha mãe era doente pelo Vasco. Meus pais gostavam de frequentar todas as festas em São Januário, carnaval e festa junina, mas não iam aos jogos. Somente eu e meu irmão Mário é que íamos.

Como surgiu a ideia da Torcida Uniformizada? E como foi a estreia da torcida?         Um dia, o seu Álvaro Ramos, que era diretor social do Vasco, nos chamou e perguntou se a gente não tinha interesse em fundar uma torcida. Naquele tempo, quem comandava a torcida do Vasco era João De Lucca. Mas ele já não se envolvia muito, não ia para a arquibancada, só ficava em São Januário e não acompanhava o time em outros lugares. O seu Álvaro Ramos nos fez o convite e, com a ajuda e o patrocínio dele, foi feita toda a propaganda da torcida, e assim começou. Ele disse: “Vamos marcar um dia para a estreia da Torcida Uniformizada do Vasco (TUV).” A TUV surgiu em 1954. O uniforme era assim: camisa branca, gola preta, um bolsinho com a cruz de malta. Ele forneceu o pano, tinha o modelo, e as pessoas mandavam fazer. Todo mundo ia uniformizado. Estava tudo combinado. O seu Álvaro Ramos acertou com a imprensa para divulgar a estreia da torcida. Eu não me lembro exatamente, faz muito tempo, mas sei que teve uma briga danada no campo, e isso acabou ofuscando a estreia da torcida. O jornal só noticiava a briga, e ninguém falou sobre a torcida. E aí foi crescendo, crescendo. Tinha muitas famílias. Íamos muito a estações de rádio que o seu Álvaro Ramos arrumava para a gente, como a Rádio Vera Cruz. Nós acompanhávamos o time em todos os lugares. Tinha um time chamado Canto do Rio, lá de Niterói. Quando o jogo era lá, a gente ia e passava o dia na praia, fincava as bandeiras na areia, almoçava em um restaurante, tinha uma cabine onde tomávamos banho, trocávamos de roupa e depois seguíamos para o estádio. Íamos a todo lugar que podíamos: na Rua Bariri (Olaria), em Moça Bonita (Bangu). Todos os estádios que estavam ao nosso alcance, a gente frequentava.

 Algum torcedor nessa época tinha destaque? Como um líder ou chefe de torcida?
O meu irmão, Mário. Na realidade, todo mundo achava que eu era a chefe da torcida, mas, na verdade, era o meu irmão. Eu o auxiliava no comando. Ele era mais reservado, mas, como eu era mais atirada, todo mundo achava que era eu, e eu deixava achar. Depois, eu e meu irmão saímos e passamos o comando da torcida para Dulce Rosalina. A gente se afastou, mas o pessoal continuou. Continuamos sendo Vasco, mas não frequentamos mais.

De que forma a torcida se organizava e se estruturava nessa época?

O pessoal pedia ajuda para comprar as bandeiras, e todo mundo colaborava. Naquele tempo, já não podia soltar fogos, mas a gente soltava mesmo assim. Para entrar com os fogos, era um desespero. Tinha uns rapazes que tocavam tambor, então abriam os instrumentos, enchiam de fogos, depois fechavam e penduravam para conseguir entrar. Ninguém entendia como a gente conseguia levar os fogos para dentro. Hoje eu sei que era perigoso e que não devia ter feito isso. Tinha um jogador do Vasco, o Coronel. Quando ele saía de campo, ia para a arquibancada ficar com a gente. Ele tremia vendo o jogo, era vascaíno doente. Em 1954, mandamos fazer umas flâmulas, mas infelizmente não fiquei com nenhuma. Tínhamos a sede da torcida na Rua Frei Caneca. Nós morávamos nos fundos, e meu pai tinha uma quitanda e um armazém na frente. Usávamos muito o telefone dele. Vendíamos as camisas, e quem quisesse se associar à torcida podia nos encontrar lá.

Quem fazia parte da Torcida Uniformizada? Havia muitas mulheres na torcida?
Os componentes da torcida eram Aida de Almeida, Dona Idalina Barbosa, suas filhas Hilda e Marlene, eu, meu irmão Mário, o Domingos Ramalho e o Tião, que desmaiava quando o Vasco perdia, quando ganhava, quando fazia gol e quando o adversário fazia gol, ele era apaixonado pelo Vasco. O nosso grupo tinha muitas mulheres. Tinha também uma senhora que era modista, dava aula de corte e costura e era bem famosa, a Madame Bastos. Ela e o marido frequentavam a torcida nessa época, eram de bastante elite. Inclusive, fui aluna dela. Ela me ofereceu o curso de corte e costura, eu me formei e ainda costurei para fora depois que meu pai morreu. Ela e o marido iam assistir aos jogos na arquibancada, mas não vestiam as nossas camisas. Não havia exatamente alguém no comando. Meu irmão tinha um carro, na verdade, era do meu pai, então nós levávamos e trazíamos as bandeiras, além de todo o material para o Maracanã, como bandeiras e as camisas para vender. Por isso, o pessoal considerava que nós éramos os chefes, porque tudo partia da gente, do que a gente determinava.



O João De Lucca participava da torcida nessa época?
Ele nunca foi da nossa torcida. Quando começamos a crescer, o De Lucca parou e não chefiou mais torcida nenhuma. Nós éramos sócios e íamos para a arquibancada, e ele não, ele só queria ficar na social e depois não participou mais de nada. Nós não ficávamos na social, porque muitos que participavam da nossa torcida não eram sócios, então, para ficarmos todos juntos, íamos torcer na arquibancada. Quando começamos com a torcida, com o apoio do seu Álvaro Ramos, o De Lucca se afastou e a Torcida Uniformizada veio depois do De Lucca.

 Quais músicas ou marchinhas eram comuns nessa época? A torcida já tinha muitos instrumentos?
A torcida tinha vários instrumentos musicais: tambor, tarol, todos os instrumentos de barulho. Tinha também o Ramalho da mamona. Era muito legal, às vezes, ele chegava atrasado nos jogos só para conseguir um talo de mamona e fazer aquele barulho durante a partida. Não tínhamos muitas músicas ou marchinhas nessa época. 

Como foi viver a época do Expresso da Vitória? Como era o relacionamento dos jogadores com a torcida?

A maior emoção que eu tive assistindo aos jogos do Vasco foi quando o Chico bateu um escanteio direto para o gol (gol olímpico). Aquilo foi uma explosão na torcida, uma alegria contagiante, uma felicidade imensa. Além disso, eles tinham um ótimo relacionamento com a torcida.  Quando o jogo era em São Januário, pós-jogo, os jogadores tomavam banho e iam para o bar de lá. Eles nos recebiam super bem, principalmente o Chico, o Ely e o Barbosa. A torcida sempre foi muito bem tratada por todos os jogadores.

Como foi ver o Expresso da Vitória jogando pela Seleção? Com o Vasco convocando oito jogadores, como a torcida se preparava para acompanhar seus jogadores na Copa?
Na Copa de 1950, eu já acompanhava futebol, mas ainda não frequentava a torcida. Tenho uma recordação muito triste. Faço aniversário em 14 de julho, então resolvi comemorar no dia do jogo, em 16 de julho, porque achei que ia comemorar o título do Brasil junto com o meu aniversário. Quando o jogo começou, a gente ainda nem tinha cortado o bolo. Quando terminou, todo mundo foi embora. Chorei muito. Meu aniversário nem foi comemorado, e foi todo mundo embora. Mas quem podia imaginar aquilo? Não tinha como perder.

Nessa época já havia muitas brigas entre as torcidas e os rivais? Como a torcida reagia aos clássicos contra os times do Rio nessa época?
Naquele tempo, a gente tinha uma amizade muito boa com o Jaime de Carvalho, que era o chefe da torcida do Flamengo, então nunca havia confusão. Hoje em dia é terrível, tem briga para tudo quanto é lado, mas nós nunca tivemos problemas. Ele era um cara muito bacana e educado. Nós conversamos com ele uma vez para evitar qualquer confusão entre as torcidas e definimos os lados de cada uma. O restante se resolvia depois, mas o nosso já estava acertado, e esse acordo vingou. Nunca tivemos problemas, porque todo mundo sabia que um lado era do Vasco e o outro era do Flamengo, e todos respeitavam. Não havia brigas, só alguns desentendimentos, mas nada como é hoje.

Na década de 1950, o remo era o segundo principal esporte do Brasil. Vocês, como torcida organizada, costumavam acompanhar o Vasco no remo também?
Sim, com certeza. Nós íamos para a lagoa acompanhar o Vasco. Um dia, chegou um fotógrafo e me pediu para fazer gestos como se o barco estivesse chegando e eu estivesse torcendo. Ele disse que aquilo ia sair no cinema. Eu nunca cheguei a ver, mas dezenas de pessoas viram e depois me contavam que tinham me visto no cinema com a camisa do Vasco.


A torcida tinha dois lemas: “Com o Vasco, onde estiver o Vasco”, que era um lema da década de 1930, e “Felicidade, teu nome é Vasco”, uma frase bem presente na Torcida Uniformizada. Qual a origem dela?
Quando começamos a usar essa frase, lemos no jornal que o Mirim tinha dito isso em um jogo que o Vasco ganhou, em um momento de muita alegria depois da partida: “Felicidade, teu nome é Vasco”. Nós assumimos a frase como sendo dele, mas não chegamos a pesquisar para confirmar.

Em uma entrevista da Dulce Rosalina à Revista do Esporte, em 1959, ela comentou que sucedeu a senhora no comando da torcida do Vasco em 1956. Por que escolheram a Dulce?

Trecho da entrevista:
“Dona Margarida era auxiliada pelo seu irmão Mário Portugal. Dona Margarida sucedeu João de Lucca na chefia da Torcida Cruzmaltina. Era uma criatura dedicada, mas limitava-se a percorrer as arquibancadas, recolhendo dinheiro para a compra de fogos. Eu a conhecia, e nos tornamos grandes amigas. Um dia, faleceu o pai de Dona Margarida, e ela achou que não podia mais continuar à frente da nossa torcida. Então, me passou o cargo no programa Vasco em Revista, da Rádio Continental, isso em 1956.”

 Não me lembro de ter ido à Rádio Continental, acho que foi na Rádio Vera Cruz. Eu não saí por causa da morte do meu pai. Na verdade, o meu irmão começou a namorar uma moça, que depois se tornou esposa dele, mas ela não gostava de futebol. Ele acabou deixando de ir aos jogos, e eu só podia ir se ele fosse. Então, na Rádio Vera Cruz, nós passamos o comando da torcida para a Dulce Rosalina. Quando meu pai faleceu, nós já havíamos saído. A Dulce era muito dedicada e podia se dedicar completamente à torcida, porque não tinha marido nem filhos pequenos. Podia viajar acompanhando o time. Então, achamos que era ideal passar o comando para ela.

Para finalizar, um conselho para a nova geração de vascaínos:
Eu acho que, se você é vascaíno, tem que torcer pelo Vasco na derrota, na vitória, no empate, em qualquer hora. Sempre apoiar o clube, como a torcida faz.