quarta-feira, 17 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1997 O MELHOR JOGADOR DO MUNDO

                                                                                                      “Ahh, é Edmundo”
                                                                                                      grito da Torcida

1997                    O Melhor Jogador do Mundo

O jornalista Sérgio Cabral sempre foi muito conhecido pelas suas duas paixões: o samba e o futebol. Nas duas manifestações populares ele se tornou um estudioso com seus livros, pesquisas e contato com os principais atores do universo esportivo e carnavalesco. Enfim, Cabral acumulou um conhecimento que garantiu um prestígio muito forte nestas áreas.
 Identificado como “típico carioca”, generoso, bom papo, camarada, ele passou a angariar uma coleção infinita de amigos e admiradores. Por isso não foi surpresa que uma escola de samba fizesse uma homenagem escolhendo-o como figura central do enredo da Escola de Samba Em Cima da Hora, do bairro de Cavalcanti, no subúrbio carioca.
Nascido no mesmo bairro da escola, Cabral levou centenas de amigos para desfilarem para o enredo “Sérgio Cabral a Cara do Rio”, entre eles estavam centenas de torcedores vascaínos, muitos deles das torcidas organizadas, como a Força Jovem.
Passado o carnaval e enquanto o clube disputava o campeonato carioca, a torcida vascaína fez parte das gravações do videoclip da banda de rock mineira Skank[1], com uma música de grande sucesso: “É uma partida de futebol”.
A relação entre o rock e o futebol no Brasil não é tão intensa quanto o samba e a MPB construíram ao longo dos anos. Poucos roqueiros se aventuraram neste universo, até mesmo para os músicos demonstrarem suas paixões clubísticas. Por outro lado, entre os jogadores, são poucos os que declaram ter maior interesse por este estilo. Entretanto, independente de gostos específicos, a música e o clip tiveram grande repercussão graças a qualidade da letra melodia e da produção das imagens que contou com cenas das torcida no Mineirão e no Maracanã. No estádio carioca as imagens se concentraram na Força Jovem. A explicação para a escolha recair sobre a torcida vascaína pode estar ligada a relação entre os membros da banda e o DJ Maurício Valladares, vascaínos fanático.
            A Força Jovem tinha um novo presidente, Marcelo He-Man, uma antiga liderança que assumia a torcida em um momento difícil com o rompimento de relações com os dirigentes do clube e a perda da sala em São Januário. “Em 1997, assumi a Presidência, em um período que a torcida passava grandes dificuldades. Havia um esvaziamento, motivado, principalmente, por campanhas pífias do Vasco a nível nacional”, relembra o ex-presidente.     
            Entre as primeiras medidas inovadoras estava uma reestruturação do marketing da associação e a criação do primeiro site na internet, numa época em que a rede virtual dava seus primeiros passos no país.  
Outra mudança promovida foi a localização no estádio de São Januário: “convenci boa parte dos integrantes para irmos para embaixo da marquise já que existia as vantagens. Muitos queriam ir para lá, só que os mais tradicionalistas não. Existia ou foi colocada a pouco tempo no limite da marquise uma grade. Em um jogo pulamos a grade e deu uma grande confusão com a PM. Naquele jogo conversamos com o Vice de Patrimônio do Vasco e conseguimos convencê-lo a tirar a grade. A partir daí começamos a ficar lá. Por algum tempo ainda ficavam alguns componentes no local antigo”, afirma Marcelo He Man.
            Nem mesmo a derrota para o Botafogo nas finais do campeonato carioca, desanimou a torcida. Na Câmara dos Vereadores, Áureo Ameno, recém-eleito vereador com os votos de milhares de torcedores, presta uma homenagem ao clube, fazendo todos os presentes se emocionarem ao ouvirem os discursos dos políticos vascaínos presentes. Ameno, abriu a sessão proferindo várias partes da história do Vasco da Gama, logo em seguida deu a palavra ao ídolo do Vasco e Deputado Estadual Roberto Dinamite, que agradeceu por tudo que o Vasco fez pela sua vida, sendo aplaudido nas galeria da Câmara que recebeu a presença das torcidas organizadas, Tulipas Vascaínas, TOV, Renovascão, entre outras.
            Em novembro durante a eleição para a presidência do clube, novamente a chapa encabeçada por Calçada-Eurico saiu vencedora mas ocorre a mais renhida[2] disputa da década com a oposição formando o MUV (Movimento Unido Vascaíno), liderada por Arthur Sendas, Olavo Monteiro de Carvalho, Luso Soares e Fernandão. O candidato da oposição era Jorge Salgado, economista eleito 1º vice-presidente geral de Calçada em 1988 e ex-diretor de futebol da CBF. Entre as torcidas, a TOV apoiou a situação e a Força Jovem se alinhou com os opositores: “precisamos mudar a imagem do clube. Queremos um Vasco vencedor, mas fiscalizado. Chega de Eurico e Calçada. Acabou-se o que era doce. Agora é Salgado”[3], diz Marcelo He-Man, presidente da Força Jovem.
            Mas as melhores lembranças de 1997 vieram do campeonato brasileiro e com uma série de partidas emocionantes, com Edmundo comandando a festa. A cada semana a torcida promovia um espetáculo diferente e mais empolgante. Como nas semifinais contra o Flamengo quando o atacante vascaíno arrasou com o rival e chegou a marca de impressionantes 29 gols (recorde até então).
            Nesta época a antropóloga Rosana Teixeira acompanhava as torcidas cariocas como trabalho de pesquisa de campo para a pioneira dissertação de mestrado pela UFRJ, investigando o fenômeno das arquibancadas que passavam por um processo de criminalização da imprensa, especialmente após a tragédia em São Paulo 3m 1995. No entanto, a pesquisadora procurou não reforçar os estereótipos veiculados pela mídia, privilegiando um conhecimento mais amplo do tema, sem cair nos “chavões” da violência irracional. No seu trabalho a cientista social reforça as palavras do sociólogo Mauricio Murad (UERJ) que desde a fundação do Núcleo de Sociologia do Futebol em 1990, apontava para a necessidade de não associar torcida com violência, de forma mecânica e apressada.
            Acompanhando e dia-a-dia dos torcedores, freqüentando os estádios e fazendo entrevistas, Rosana pode conhecer melhor  o universo dos torcedores, especialmente as torcidas Força Jovem do Vasco e Torcida Jovem do Flamengo. Entre as várias conclusões ela destaca “que a compreensão da violência dos torcedores deve ser articulada a uma reflexão sobre as diferentes práticas de violência presentes em nossa sociedade” [4].
            A imagem negativa construída tinha efeitos reais. O melhor exemplo se deu na final do campeonato brasileiro disputado entre duas torcidas consideradas aliadas, mas que a reação policial foi tratar como um jogo de alto nível de risco de confusão. Na ocasião foram proibidos pela polícia diversos apetrechos das torcidas e a reação da imprensa diante da aliança das torcidas era de ironia e surpresa: “Imagine um estádio sem foguetes, bandeiras, nem gritos ofensivos ao adversário. Parece até culto religioso, mas teoricamente, este será o cenário da decisão de hoje no Morumbi, entre Palmeiras e Vasco. A proibição dos foguetes, instrumentos e bandeiras fica por conta da Polícia Paulista. Já os cânticos provocativos serão evitados por ambas as Torcidas, que nutrem uma antiga relação de amizade. Vamos festejar, sem gritos ou xingamentos. Acima de tudo está o respeito que temos por eles. Os palmeirenses vão nos receber com um churrasco”, diz Fernando Leal, Vice Presidente da Força Jovem. No Rio de Janeiro, o jornal carioca alertava para as proibições : “a Força Jovem não poderá levar para o Estádio a imensa bandeira que costuma desfraldar no Maracanã e em São Januário, em virtude de a polícia de São Paulo proibir bandeiras com escudos de Torcida Organizada. Para compensar levará cinco mil balões”[5].
            O que leva uma torcida se unir a outra? Como explicar a aliança entre uma torcida carioca com uma paulista, se o bairrismo entre os dois estados é um sentimento muito arraigado? Pode uma torcida trocar de amizade ou virar inimiga de uma torcida amiga? Estas questões permearam o universo de dúvidas que a imprensa lançou sobre os torcedores vascaínos e palmeirenses para explicar algo que parecia insólito.
            Como a decisão foi marcada para dois jogos, sendo o primeiro em São Paulo e o segundo para o Rio de Janeiro e, em ambas as cidades, havia demonstrações explícitas de cordialidade e esportividade, a imprensa buscava respostas. Em princípio buscou-se uma explicação histórica da aliança: “a união começou em 1979, quando 300 Vascaínos foram ao Maracanã apoiar o Palmeiras num jogo contra o Flamengo. Os Paulistas venceram por 4 X 1 e depois os Palmeirenses passaram a freqüentar São Januário sempre que vinham ao Rio”, recorda Amâncio César de 47 anos, membro da TOV, que tem 800 sócios, Amâncio repudia a união com a Mancha Verde.
No Maracanã não foi diferente a repressão desnecessária, com o registro incrédulo dos jornais que antes repudiavam as torcidas diante das inúmeras brigas e confrontos entre as torcidas de Vasco e Flamengo, agora a paz era louvada como um milagre: “Torcedores da Força Jovem do Vasco e da Mancha Verde do Palmeiras voltaram a se confraternizar ontem no Maracanã, momentos antes do início da decisão do Campeonato Brasileiro.Abraços, apertos de mão, beijos no rosto pareciam selar uma inusitada amizade entre os torcedores Vascaínos e Palmeirenses.Uma camaradagem explícita traduzida pelo bordão cantado pelas duas Torcidas, “Vascão, Verdão, Torcida de Irmão.”Vascaínos gritavam refrões contra a Raça Rubro Negra, Torcida Organizada do Flamengo, ajudados pelos Palmeirenses e faziam coro com os torcedores paulistas, quando eles gritavam bordões contra os Gaviões da Fiel (...) Antes de o jogo começar, os 1.2 mil policiais Militares que ocupavam os setores internos e externos praticamente não tiveram trabalho[6]. “Antes do jogo, Vascaínos e Palmeirenses davam provas explícitas de que são mesmos Torcidas irmãs, ainda que a colônia portuguesa em São Paulo esteja mais ligada a Lusa. Em frente a Estátua de Bellini, torcedores da Torcida Uniformizada do Palmeiras (TUP) e da Força Jovem improvisaram um concurso de trovas e gritos de guerra que tinham  invariavelmente o mesmo tema, os rivais Flamengo. A paz estava selada: Porco e Bacalhau era gritos que não tinham o menor tom pejorativo. Entre o Portão 19 e a Estátua de Bellini paulistas e cariocas uniam forças para acabar com o estoque de cerveja dos vendedores ambulantes “ [7].
Mesmo com todas as demonstrações das torcidas a atitude da polícia foi proibir e controlar os torcedores como pessoas “não-confiáveis”: “um busto gigante do Eddie foi criado para incrementar ainda mais as arquibancadas, mas a polícia impediu que ele entrasse no Maracanã, alegando que poderia ter problemas de segurança (...) As Torcidas do Vasco e do Palmeiras foram proibidas ontem de entrar com bandeiras com mastro de bambu no Maracanã. Em reunião com o comando do 6º Batalhão da Polícia Militar do Rio, representantes das duas Torcidas conseguiram a liberação de faixas e instrumentos musicais no Estádio, que também estavam na lista de proibições. Estão vetados também fogos e sinalizadores. As faixas poderão ser usadas desde que não atrapalhem o campo de visão das filmadoras que serão usadas pelos policiais para identificar causadores de tumultos.A Força Jovem já tinha confeccionado 80 bandeiras de 4 X 4 m, com mastros de bambu de 7 m de comprimento cada, segundo o seu Presidente, Marcelo He Man, 31 anos, além de outra de 40 X 60 m, também proibida[8].
       A conquista do tricampeonato brasileiro e a liderança de Edmundo comandando um ótimo elenco davam a torcida vascaína plena confiança de que no ano seguinte quando comemoraríamos o nosso centenário, novas conquistas fossem alcançadas.                           Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal Folha de São Paulo 04 de Março de 1997.
[2] O resultado do pleito foi: Chapa "Azul" de Calçada : 1930 votos e Corrente "Oposição Unida": 1167 Fonte: http//www.wikipedia.com/antoniosoarescalçada.
[3] Fonte: Jornal do Brasil 02 e 09 de Novembro de 1997.
[4] TEIXEIRA, Rosana. Os perigos da paixão. Rio de Janeiro. Annablume, 2003, p.179.
[5] Fonte: Jornal do Comércio 14 de Dezembro de 1997.
[6] Fonte s.d.
[7] Fonte: Jornal do Brasil 22 de Dezembro de 1997.
[8] Fonte: Jornal Folha de São Paulo 19 e 20 de Dezembro de 1997

Vasco Maracanã 1997

Vasco Jornal do Brasil 1997




domingo, 14 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1996 A VOLTA DO CHORÃO

                                                                                                          “Eurico, 171”
                                                                                                    Grito de protesto

1996                      A Volta do Chorão

Com a continuação da oposição aos principais dirigentes do clube, a Força Jovem amplia suas fontes de renda e consegue fazer  em maio uma grande festa reunindo músicos vascaínos de renome, como Fernanda Abreu, Dicró, Paulinho Mocidade e  Celso Blues Boy. Cada um com seu estilo musical, mas conscientes que aquela reunião serviria para ajudar a principal torcida organizada do Vasco manter sua atitude de independência e de fiscalização diante das arbitrariedades dos cartolas. Neste ano a agremiação trocaria novamente de sede, saindo do subúrbio (Piedade, desde1993) e passando para o centro da cidade, buscando um local de facil acesso para todas as regiões.
Em setembro a Torcida Força Independente que se originou de uma dissidência da Força Jovem no final dos anos 1980, resolveu se unir e extinguir com a antiga dissidência. Foi um passo importante para a Força Jovem se fortalecer diante dos torcedores vascaínos e dirigentes, provando que o caminho escolhido era o melhor. Pouco depois a torcida faz campanha aberta para o empresário José Moraes para a sua reeleição para vereador. O político era um antigo conhecido da torcida e participou financeiramente para a construção do bandeirão em 1992. No material informativo da associação são feitos vários elogios ao empresário e adverte que o apoio tem uma causa nobre pois Moraes “informatizou a nossa Sede, além de ter patrocinado a nossa Festa de 25 anos, em 1995. Durante todo esse tempo temos mantido um diálogo franco e tivemos o seu compromisso de que, a partir de sua reeleição, ele contribuirá de forma muito mais efetiva e prática para com a nossa torcida. Não se trata de uma troca de favores mais de mãos se estendendo em direção a um mesmo ideal, a causa Vascaína. Ele precisa de nosso apoio e nós precisamos de sua voz e do seu poder para estar do nosso lado”. É obvio que a torcida vivia um estrangulamento financeiro com a briga com os dirigentes e a ação de pedir ajuda a um padrinho não era uma prática nova no mundo do futebol, outras torcidas fizeram e esta não seria a primeira nem a última organizada a recorrer destes expedientes. Nessa mesma eleição o radialista Áureo Ameno fez toda a sua campanha pedindo votos para a torcida vascaína e acabou sendo eleito.
Eurico Miranda e a Força Jovem brigaram durante todo o ano de 1996, porém, um fato os uniu: a revolta diante da atitude de Bebeto que volta para o Brasil e escolhe ficar no Flamengo.
Quando deixou o Vasco em 1992 para ir jogar na Espanha, Bebeto saiu como um grande ídolo e nunca teve problemas com a torcida do Vasco, pelo contrário, teve o apoio freqüente ainda mais quando ele revelou que mudar do Flamengo para o Vasco era a oportunidade de realizar o sonho de jogar no clube de seu coração na infância.
Aos 32 anos, Bebeto deixou o clube espanhol, voltando ao Flamengo, para  disputar o Campeonato Brasileiro de 1996. Porém, a relação com a torcida rubro-negra não era a mesma; poucos haviam se esquecido que, em 1989, o atacante declarou-se vascaíno na infância, ao chegar a São Januário. Assim que chegou a Gávea fez questão de afirmar que seu clube do coração era o rubro-negro[1]. O Flamengo fez péssima campanha no brasileirão e Bebeto acabou sendo responsabilizado. Ainda em 1996, desligou-se novamente do Flamengo e voltou à Espanha, agora para jogar no Sevilla, mas não se saiu bem. O mesmo aconteceu nas Olimpíadas nos EUA quando Bebeto estava na seleção que foi derrotada vergonhosamente para a Nigéria por 4 a 3. Praga dos vascaínos.
Bebeto foi hostilizado pela massa vascaína que passou a chamar-lhe de “Chorão” e a própria torcida do Flamengo não lhe deu o apoio necessário.
Outro nome que fracassou nas Olimpíadas em 1996 era Zagalo, que passou a comandar a seleção brasileira desde agosto de 1994 após a saída de Carlos Alberto Parreira. O técnico foi escorraçado pela torcida do Vasco em 1991, inconformada com seu estilo de jogo adotado e de sua maneira arrogante de ser. Em uma carta de despedida um torcedor da Força Jovem escrevia para o treinador: “A Força Jovem do Vasco vem através desta, mostrar toda a sua alegria com a saída do treinador Zagalo, que finalmente caiu na real depois de ter feito o nosso glorioso Machão da Gama passar por maus momentos. Zagalo acusa a Força Jovem de ter sido responsável por sua saída do Clube. A ele gostaríamos de dizer o seguinte: “Caro retranqueiro. Não é a Força Jovem, que escala o time e nem arma táticas de jogo. Por isso a sua saída foi pela própria incompetência. Gostaria de agradecer a Diretoria da Força Jovem, pelo seu mais recente título de “A Correspondente do Ano”. Depois de termos superado grandes facções, esperamos apenas um contato da famosa Máquina Tricolor para recebermos nosso troféu. Aqui me despeço deixando um forte abraço a todos da Força Jovem do Vasco. Rogério Manteiga, Relações Públicas da FJV”[2].
A briga entre torcedores e técnicos já era uma tradição no futebol brasileiro. A novidade vinha da extrema mercantilização das relações entre as grandes empresas que passam a investir fortunas em contratos polêmicos. O melhor exemplo foi o acordo entre CBF e Nike por 10 anos com cifras de US$ 170 milhões. No futebol globalizado, a presença do marketing esportivo cada vez  fala mais alto e a voz dos torcedores nas arquibancadas e gerais vão sendo substituídas pelos desmandos dos dirigentes e empresários que se preocupam em garantir a comercialização do espetáculo em outros níveis.
Esta será uma tendência marcante a partir de meados dos anos 1990 com a “reconfiguração do futebol brasileiro produzida pela alteração na legislação esportiva e pela expansão dos mercados associados a comercialização do espetáculo” (Proni, 1999, p.41). Junto destas mudanças outras iniciativas já apontavam com a mudança do perfil do torcedor nos estádios, com a elitização das praças esportivas em função do aumento do preço dos ingressos, a expansão dos canais por assinatura e do pay-per-view: “o futebol passará a ter tratamento ‘vip’ e empresarial, um grande negócio que vende a seus consumidores o conforto, a comodidade e a tranquilidade” ( Pimenta, 1999, p,138).
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Em entrevista concedida a Léo Batista, no programa Esporte Espetacular, da Rede Globo (dia 28/10/2007), confirmou ser torcedor do Flamengo.
[2] Fonte: Jornal dos Sports 1996.

Vasco Maracanã 1996

Vasco São Januário 1996

sábado, 13 de maio de 2017

TOV 1964: DULCE ROSALINA VAI FAZER UM CURSO DE ARBITRAGEM

Já imaginaram a Dulce Rosalina, Chefe da Torcida do Vasco, como juíza de Futebol?
Pois é, ela vai fazer o curso. Vai ser fogo! (Ela diz que vai discutir com os árbitros, pois não entende como eles erram tanto contra o Vasco) (19/02)
Dulce Rosalina que é Chefe da Torcida do Vasco, vai tirar esse ano o curso de Juiz de Futebol. Diz ela que quer saber porque os juízes erram tanto contra o Vasco. 
Garante ainda a Dulce que em 1965 será comentarista de arbitragem numa emissora carioca (31/03)
Dulce Rosalina, Chefe da Torcida do Vasco, tem promessa de emissora carioca de que será contratada como comentarista de arbitragens assim que ela concluir o curso que está realizando na Escola de Árbitros. (25/04)
Fonte: Revista do Esporte 31 de Março e 25 de Abril de 1964 e Jornal Luta Democrática 31 de Março de 1964

TOV Revista do Esporte 1964

TOV Jornal Luta Democrática 1964

TOV Revista do Esporte 1964

TOV Revista do Esporte 1959



quarta-feira, 10 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1995 O PIOR ATAQUE DO MUNDO

                                                            “São uns marginais, sem vergonhas e safados”
                                                                              opinião de Eurico sobre a FJV

1995                     O Pior Ataque do Mundo

O ano de 1995 teria todos os ingredientes para ser esquecido pela torcida cruzmaltina pois a final do campeonato carioca era decidida entre Fluminense e Flamengo. O clube da Gávea que comemorava os seus 100 anos trazia de volta para o Brasil nosso ex-ídolo, Romário, e o Botafogo seria o campeão brasileiro com Túlio se consagrando artilheiro. No Fluminense, além do título carioca, o atacante Renato Gaúcho seria “eleito” o “Rei do Rio”. E o Vasco via sua caravela afundar... Mas por um motivo o ano não foi um desastre total: eram contratados do Sport de Recife, dois jovens talentos: Leonardo, atacante rápido e um habilidoso meio campista, chamado de Juninho. Os dois chegaram no meio do ano e não conseguiram mostrar todo o potencial, sofrendo com a campanha do time e a dificuldade natural de adaptação. Era apenas o começo de Juninho no clube, em pouco tempo ele se tornaria um ídolo eterno da torcida.
O presidente do Flamengo Kleber Leite, que começou sua carreira como repórter esportivo, se transforma em um dos mais ricos empresários do ramo do marketing esportivo. Ao assumir o clube promete grandes contratações com apoio de empresas que ele tinha relações. Surge a possibilidade de trazer Romário de volta ao Brasil e o desfecho todos conhecem: o atacante deixa o Barcelona fazendo juras de amor ao novo clube. A reação natural dos vascaínos é de revolta e sentimento de traição do jogador e da empresa de bebidas (Brahma) que patrocinou sua compra. Em São Januário, placas da Brahma são pichadas: “não podemos intervir nas contratações do Flamengo, mas se querem ajudar nosso adversário, não podem fazer propaganda na nossa casa”, protesta Alexander Martins, diretor da Força Jovem.
Ao chegar ao Brasil Romário faz uma série de declarações polêmicas sobre os clubes cariocas rivais e a resposta veio de imediato nos novos gritos das torcidas com o inimigo comum (Romário) ofendido nos hinos funkeiros de Vasco, Fluminense e Botafogo. Até mesmo em um jogo entre Vasco e Botafogo o alvo foi o “baixinho”. O repórter da Rádio Tupy, Danilo Bahia, revela sua impressão sobre o comportamento das organizadas cariocas: “fiquei surpreso domingo, porque ao invés dos Botafoguenses gozarem o Eurico ou o Valdir do Vasco, já estavam atacando o Flamengo”.
Até o início dos anos 1990 o funk era um estilo musical pouco ouvido nas arquibancadas cariocas apesar do sucesso que faziam os seus bailes (chegavam a levar mais de 1 milhão de jovens para os embalos nos fins-de-semana).
Os ritmos musicais que mais faziam sucesso nesta época eram o sertanejo, o pagode e o axé baiano. Apenas o último teve alguma entrada nos coros dos torcedores que sempre adotaram vários ritmos com maior ênfase nos sambas-enredos e nas marchinhas. Entretanto, o funk foi penetrando aos poucos pois havia um forte preconceito com um estilo musical considerado de “favelados”. A medida que a classe média foi aderindo a este ritmo musical o estigma foi se esvaindo e a cada ano ela seria mais e mais incorporado no Rio e nos demais estados do país.
Entre 1992,93,94 e 95 surgem os primeiros cânticos funkeiros entoados não só pelas torcidas organizadas mas por toda a extensão da arquibancada. Entretanto não houve uma substituição total das antigas formas de cantar e dos ritmos tradicionais, predominando a mistura de sons.
Junto com a música vinham as coreografias, os gestos, atitudes e palavras de uma origem diferente do habitual universo de classe média,  o que provocou uma reação inicial de espanto e saudosismo da imprensa que reagiu de forma negativa com as mudanças que se operavam no interior dos agrupamentos juvenis: o uso constante de letras provenientes do imaginário funkeiro.
O estigma do funk como um fenômeno de massa que produz violência gratuita e manifestações irracionais logo se colaram as torcidas que “perderam suas características originais” e se tornavam cada vez mais agressivas e anti-sociais.
Neste sentido se encaixa a reação da imprensa aos vascaínos com o seu próprio time  que fazia uma campanha pífia no campeonato carioca. Os protestos dos torcedores começariam pacíficos com vaias e xingamentos, mas terminariam com a invasão de São Januario e o quebra-quebra sobre o carro dos jogadores, o bar a a boutique do clube. A imprensa divulga a opinião exclusiva do clube: “os 15 seguranças do clube que vigiam a sede, afirmam que a maioria dos 120 torcedores estavam com a camisa da Força, que chegaram em 3 ônibus e mais de 10 carros”[1].
No mesmo período a imprensa mantendo o estilo de defender e atacar os movimentos sociais de acordo com seus interesses, exalta a torcida com uma grande matéria dando um enfoque positivo com o título: “ A GRANDEZA DA FORÇA JOVEM”:
“Fundada em Fevereiro de 1970, a Força Jovem é a maior torcida Independente do Brasil, independente porque é a única facção organizada que não precisa de ajuda do Clube para crescer. E a sua grandeza impressiona. Composta por 45 mil torcedores, 25 mil só no Rio, ela organiza sempre uma grande festa. Material para isso não é problema, são 12 faixas, dezenas de bandeiras, 90 peças de bateria, 120 latas de fumaça, 80 sinalizadores, um Bandeirão, milhares de balões infláveis. Para os Clássicos
A Força Jovem é dividida em 59 Famílias, a maior delas é a 4ª Família que inclui, Madureira, Pavuna e outros bairros, além de São João do Meriti e Nova Iguaçu. Para os Clássicos a concentração é em São Januário a partir do meio dia. De lá os torcedores seguem em direção ao Maracanã. Um dos dirigentes mais atuantes da Força se apressa em negar a fama de que a Torcida é violenta.
“Temos uma equipe de vigilância para evitar brigas, odiamos covardia e jamais agredimos povão. Quem tem o hábito de fazer isso é o pessoal do Flamengo”.
 As Torcidas do Palmeiras, Atlético MG, Coritiba e Grêmio são consideradas amigas. No início deste ano a Força recebeu um presente do Grupo de Heavy Metal Iron Maiden, já que o Eddie, o monstruoso mascote do grupo Inglês,  é o símbolo da facção. Uma forma de agradecer aos torcedores por divulgá-los. O presente? Um troféu em forma de cadeira elétrica.”    
Como ocorria nos anos anteriores, em qualquer torcida que visse seu time perder e não apresentasse um desempenho de luta, logo virava o motivo de protesto dos torcedores, mas agora a ênfase seria na criminalização dos protestos e a “necessidade” de intervenção da polícia para conter os manifestantes. Foi o que aconteceu após a sétima derrota seguida do Vasco no campeonato brasileiro (fato inédito) quando os torcedores protestavam contra o principal dirigente do clube, Eurico Miranda, mas a resposta ficou com a atuação das forças repressivas: “a presença de 70 Policiais do 4º BPM e do Choque acabou evitando o pior. Armados de escopetas e metralhadoras, os Policiais conseguiram assustar os torcedores que foram embora”[2].
Mas as torcidas organizadas sabiam que nem todos as pessoas queriam criminalizá-los, como o sociólogo Herbert de Souza, uma das figuras centrais da sociedade civil dos anos 1990, que mobilizou a população brasileira em uma série de campanhas contra a fome e agora trazia os torcedores para se aliarem ao seu projeto em  uma nova área de atuação: a campanha pela Paz nos Estádios[3], contando com o apoio de inúmeras torcidas organizadas da cidade.
Melhor do que contar com a boa vontade da imprensa para entender a torcida vascaína, o ideal era produzir seu próprio material. Foi pensando assim que o pesquisador vascaíno, Mauro Prais, deu início a seu trabalho pioneiro na internet, coletando materiais espalhados e aproveitando o potencial deste novo meio de comunicação. Em 1995 a internet ainda era uma realidade distante da maioria absoluta dos brasileiros, mas o vascaíno soube vislumbrar o potencial daquele novo veículo de mensagens e foi desenvolvendo um site que se tornou referência de pesquisa para todos os amantes da história do Vasco. Em entrevista ao site SempreVasco.com, Mauro Prais lembra o deu desafio: “Na época em que comecei a fazer o site não havia nada sobre o Vasco na Internet. (...) resolvi me dedicar a essa atividade como um hobby, com a finalidade de divulgar e marcar a presença do Vasco na Internet, sem fins lucrativos ou comerciais – até porque, naquela época, a Internet não era explorada comercialmente. Fiz então uma expansão da página original e a primeira versão do site estreou no início de 1995”.
No final do ano os jogos mais importantes foram contra o Flamengo e os alvos dos protestos eram Eurico Miranda e Romário. Para o dirigente foram confeccionados panfletos e faixas exigindo sua saída: o vice-presidente de futebol do Vasco, Eurico Miranda, foi atacado tanto pela torcida de seu clube como pelo técnico do Flamengo Washington Rodrigues. A torcida organizada Força Jovem distribuiu cerca de 40 mil panfletos exigindo a saída de Eurico, com o título: “Eurico, o exterminador do futuro”. Na arquibancada, a torcida abriu uma faixa, “Fora Eurico”. O dirigente já havia reagido a campanha. Proibiu o presidente da Força, Antônio Brás de entrar no clube e vetou faixas no estádio do Vasco”[4].
Com a Flapress promovendo o clube com o “ataque dos sonhos”, restava a realidade comprovar que no futebol ninguém ganha no papel. A escalação dos três atacantes jamais funcionou como o esperado e a gozação dos adversários foi crescendo. Neste jogo, a Força Jovem criava uma paródia de um comercial de sucesso de uma companhia aérea satirizando com o ataque rubro-negro: “Pior Ataque do Mundo/ Pior Ataque do Mundo/ Para um pouquinho, descansa um pouquinho/ Romário, Sávio e Edmundo” .
A provocação de Romário para a torcida vascaína, quando ele afirmou que “eles deveriam levar lenços para o estádio pois iriam chorar muito” teve efeito contrário e o ex-ídolo viu poucos motivos para comemorar sua volta ao Brasil ao final do ano de 1995 e a péssima campanha no campeonato brasileiro. Tanto ele como Edmundo, que fez gestos obscenos para a torcida do Vasco, o ano terminou em grande frustração para os atacantes que formavam uma dupla cantando um rap dos “Badboys”. Edmundo acabou se envolvendo em um acidente automobilístico e no seu indiciamento pela morte no episódio. No ano seguinte o atacante retornaria ao Vasco e nos próximos anos sempre declarava o erra de ter vindo jogar pelo rival.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] Fonte: O Globo 30 de Maio de 1995.
[2] Fonte: Jornal do Brasil 13 de Outubro de 1995, com o título: “VASCO PERDE E VIRA CASO DE POLÍCIA”
[3] Fonte: Jornal Folha de São Paulo 15 de Setembro de 1995
[4] Fonte: Jornal Folha de São Paulo 30 de Outubro de 1995

Vasco Maracanã 1995

Vasco Jornal O Dia 1995


domingo, 7 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1994 TRI REAL

                                          “Recordar é viver, Jardel acabou com você”
                                                                                         Canto da torcida

1994                              Tri Real

Uma viagem da esperança a desesperança nas arquibancadas é o que podemos resumir do ano. Dois fatos emblemáticos marcam a situação das torcidas organizadas em 1994. Em fevereiro, as associações realizam um abraço no estádio do Maracanã, promovendo sua pintura, se confraternizam e se comprometem junto com a ASTORJ de fazer um acordo definitivo de paz[1] a partir daquela data em que se comemorava os 100 anos de futebol no Brasil. Porém, em dezembro, o presidente da Suderj, executa a desocupação das salas das torcidas do Maracanã e lança um pacote de medidas em que acusa as organizadas de promoverem a violência no futebol.
Neste ano o samba mais destacado foi o da Mangueira com o enredo em homenagem aos baianos dos Doces Bárbaros (Caetano, Gil, Betânia e Gal Costa), com a musica cantada pelo vascaíno Jamelão, a Verde-e-Rosa conquista o campeonato tem sua música na memória de todos. Acompanhando o embalo, a Força Jovem do Vasco fez uma adaptação que logo virou hit nas arquibancadas: “Me leva que eu vou/ Sonho meu/ atrás da Força Jovem/ Só não vai quem já morreu”.
A morte rondou o futebol em 1994 com um desastre que chocou os torcedores cariocas. Contratado no início do ano, o jovem atacante Dener, se encaixou perfeitamente no time e virou o xodó da torcida com seus dribles desconcertantes, sua habilidade incomum, além de seu sorriso “moleque”. Mas uma fatalidade entrou no caminho desta promessa de ídolo vascaíno. Em abril, um desastre de automóvel interrompe abruptamente a carreira do jogador que morre enforcado com o cinto de segurança. Era o fim de um jogador com o mesmo estilo de Ronaldinho Gaúcho e Neymar (craques das gerações posteriores), mas que não teve o tempo suficiente de se consagrar nos gramados.
No 1º jogo disputado após o acidente quando jogaram Vasco e Flamengo, a Força Jovem presta uma grande homenagem com vários pára-quedistas descendo dentro do Maracanã, com bandeiras da FJV e uma bandeira escrito o nome de DENER. Nesta partida outra homenagem uniu as duas torcidas, para o piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna que falecera naquele domingo em acidente automobilístico que comoveu todo o país: “o Maracanã presenciou um espetáculo cada vez mais raro: durante 10 minutos, as torcidas de Flamengo e Vasco, em coro uníssono, prestaram emocionante homenagem a Senna (Assaf e Martins, 1999, p.81).
Um mês depois a torcida esquecia a morte do craque e comemorava mais um título carioca. Era o tricampeonato vencido sobre o Fluminense com dois gols do jovem atacante, Jardel. Além do artilheiro, o destaque ficou por canta da nova queima de fogos. Este recurso pirotécnico nos jogos contra o Fluminense nas decisões dos estaduais de 1993 e 1994 foi um marco nas comemorações dentro do Maracanã, o feito virou Capa da Revista Espanhola Hincha, Vasco Tri Campeão Carioca. TRI,TRI, o Vasco é Tri, UhTêrêrê! , grito da Força Jovem na final do Estadual, copiado do grito... Uh! Têrêrê!”, onomatopéia da batida norte-americana tocada nas rádios (“− Uh! That it is!”). No jogo da entrega das faixas, em São Januário contra o Cruzeiro, a FJV realiza uma linda cascata, nela está escrito “Força Jovem Vasco TRI Campeão.
Em junho veio a Copa do Mundo nos EUA e o Brasil que já amargava 24 anos sem um título mundial finalmente levanta a taça graças ao brilho da dupla de atacantes Romário e Bebeto. Foi uma conquista que deu um novo ânimo para o futebol brasileiro e a promessa que agora nosso esporte principal se modernizaria. No entanto, o que se via era o futebol europeu fazer cada vez mais contratações destruindo as visões mais otimistas. Dos 22 convocados apenas 5 jogavam no Brasil. Entre eles Ricardo Rocha, único jogador do Vasco na seleção, apesar dos vascaínos vibrarem com Romário e Mazinho, formados no clube e Bebeto, que havia saído do clube em 1992, como grande ídolo e a promessa de voltar a São Januário.
A Copa nos EUA teve números impressionantes dentro e fora dos gramados, Com os jogos transmitidos para todos os lugares do mundo, a final teve a audiência de um em cada seis habitantes do planeta. A audiência total da Copa totalizou mais de 31 bilhões de espectadores. Venderam praticamente todos os ingressos disponíveis (3,6 milhões) em um país que 62% da população nao sabia o que era uma Copa do Mundo de Futebol e 71% não sabiam que seria nos EUA, conforme uma pesquisa realizada um mes antes da competição.
A recepção de milhões de brasileiros pelas ruas do país na viagem de volta demonstrava que o gosto pelo futebol e a importância simbólica deste esporte não podiam ser desprezadas. O otimismo seria expandido quando Fernando Henrique Cardoso criou o Plano Real para conseguir debelar o fantasma da inflação que atormentava a vida dos brasileiros. Com o sucesso do Plano sua eleição foi garantida no primeiro turno. Quem garantia sua presença no parlamento federal era Eurico Miranda, que aproveitando o tricampeonato carioca lançou o slogan de sua campanha “vascaíno vota em vascaíno”, alcançando 85 mil votos.
No começo do campeonato brasileiro o otimismo geral cedia espaço a preocupação dos confrontos entre os agrupamentos. No jogo entre Vasco e Santos em São Januário, as cenas do massacre sobre os santistas ganham grande repercussão além de outros episódios. Terminando com o pacote de medida da Suderj que retirou as salas do Maracanã de todas as torcidas: “SUDERJ PACOTE ANTI VIOLÊNCIA”
1- Fica suspenso o convênio entre a Suderj e Ferj em relação à distribuição de ingressos gratuitos para os Clubes nas arquibancadas.
 2 - Os ingressos de cortesia passam a ser limitados a 200 por jogo, apenas para as cadeiras especiais e coloridas.
 3 - Os torcedores pegos em flagrante por causar tumulto serão detidos no módulo cartorário da polícia, dentro do Maracanã, e será aberto um inquérito. O objetivo é prender os baderneiros.
 4 - Os Clubes passam a ser responsáveis pelas salas ocupadas pelas Torcidas organizadas.
5 -  Caso aconteçam arruaças dentro ou fora dos estádios em dias de jogos, os clubes não poderão utilizar o Maracanã por 30 dias.
6 - Em caso de reincidência, a punição aumentará para 60 dias de punição[2]
Uma grande reportagem escrita pelo famoso jornalista Oldemário Touguinho, endossa todas as medidas repressivas e registra que apenas duas associações (comandadas por mulheres), não mais representavam a “nova realidade das torcidas”, Eis na íntegra a matéria que, de certa forma, representava a opinião geral da imprensa:
DUAS SANTAS DO FUTEBOL
Consumou-se o despejo dos bunkers do Maracanã. Eram Salas do Estádio ocupadas pelos desocupados do futebol. Tinham lá seus torpes artesanais, bem guardados. Ninguém pagava aluguel. Ali estavam com o aval dos cartolas de Clubes, aos quais servem, desservindo o futebol. São massas de manobra. A Polícia levou porretes, cacos de vidros, socos ingleses, estiletes, o diabo. Vendilhões do futebol.Tinham, ao todo 17 Salas. Duas delas, porém, eram de fato cantinhos de devoção. Dois santuários, um do Fluminense, outro do Vasco.
Ambos cuidados por duas mulheres: a do Vascaína Dulce Rosalina (Renovascão), legendária torcedora do Vasco, que conheci há muitos anos, ora sambando, ora chorando com o seu querido Clube.Na outra salinha, só troféus, flâmulas, bandeiras e retratos do Fluminense. Paixão eterna da Tia Helena (Fiel Tricolor), uma celebridade tricolor da estima do futebol. Tia Helena e Dulce Rosalina poderiam ter ficado com suas Salas. Duas capelinhas. O Secretário de Esportes, Jack London, deixou a vontade. Elas não quiseram. Estão desencantadas.
Não com os Clubes, que hão de amar sempre, com o vandalismo que tem feito sangrar o coração do verdadeiro torcedor.Tia Helena e Dulce são herdeiras de Jaime de Carvalho (Charanga Rubro Negra), santo homem que alegrava as arquibancadas do Maracanã com a Charanga do Flamengo. Dois pistons, uma clarineta, um trombone de vara, um pandeiro, um imenso bumbo, dois taróis. Se o Flamengo fazia um gol, a bandinha atacava o hino do Clube, levando ao delírio o Estádio, majestoso. Era uma prévia do Carnaval Carioca.Tia Helena e Dulce Rosalina pertencem a uma família de torcedores que começou a desaparecer com a morte de Jaime de Carvalho. Havia também um cidadão símbolo do Botafogo. Era um marujo, que sentava sempre no ponto mais alto da arquibancada. Sempre fardado. De lá, como um farol sonoro, o marujo erguia um talo de mamão, seu clarim e arrancava dele uma pungente sonata de louvor a Estrela Solitária. Musicalmente, não queria dizer nada, mas tocava fundo o coração botafoguense.Recém chegado ao Rio, essa classe de torcedor me fascinava. Eu era simpatizante do Botafogo, mas admirava o coração pacífico de Jaime de Carvalho.Depois, o torcedor do Maracanã foi se tornando mais tenso, menos lúdico. Mais implacável.Mais impiedoso. Se seu Time vencia, não bastava. Queria mais. Queria que o Time do amigo, jogando noutro campo, perdesse. Era assim a máxima de Jules Renard: “Não basta ser feliz, é preciso que os outros não sejam...” Daí pro vandalismo foi um passo.Triste sina do futebol, Tia Helena e Dulce Rosalina, que Deus as proteja.[3]
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] A idéia nasceu do Presidente da ASTORJ, Armando Giesta, e foi encampada pelo Secretário de Esportes do Estado Jorge Picciani. O esforço de pacificação das Torcidas teve também o apoio do Vice Governador e Secretário de Polícia Civil, Nilo Batista. Fonte: Jornal do Brasil 18 de Fevereiro de 1994 .
2] fonte Jornal do Brasil 27 de outubro de 1994. Em novembro ocorrem novas medidas.  Ao todo eram 23 salas no 3º andar do Maracanã são desocupadas. Do Vasco saíram a FJV, TOV, Pequenos Vascaínos e Renovascão.
[3] Fonte: Jornal do Brasil 13 de Novembro de 1994.

Vasco 1994

Vasco Folha do Esporte 1994


quarta-feira, 3 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1993 EXPLODE CORAÇÃO

                                                                                  “UH cadê o Bandeirão, sumiu.”
                                                                                    Canto da torcida contra a rival

1993                          Explode Coração

            Edmundo foi considerado a principal revelação do futebol brasileiro no ano anterior. A torcida vascaína via no jovem e impetuoso atacante um substituto a altura de Roberto Dinamite (que se despedia dos gramados) para ser o grande ídolo nos anos 1990. No entanto, o sonho de ver Edmundo brilhando no Vasco em 1993 foi desfeito com a sua contratação pelo Palmeiras em janeiro. O clube paulista que contava com a parceria da Parmalat desde 1992, leva Edmundo por US$ 1,8 milhão, no maior investimento da empresa que prometia um “Dream Team” para os paulistas.
            Mas a fábrica de talentos em São Januário estava a todo vapor. Em março quatro jogadores vascaínos conquistavam o título mundial da categoria. Eram eles. Gian, Yan, Bruno Carvalho e Jardel. A recepção dos jogadores ao Brasil contou com a torcida vascaína que recebe as jovens promessas com muita animação.
A festa nunca caminhou longe da guerra entre as torcidas. Em 1993 o perigo de um conflito sem precedentes estava aberto. Apesar da torcida Raça ser a maior organizada do Flamengo, a maior rivalidade da Força Jovem neste período era a Jovem do Flamengo (TJF), pois ambas reivindicavam a primazia no uso da violência e foram diversos confrontos por toda a cidade. Roubar camisas, bandeiras e materiais de bateria eram práticas constantes que faziam de cada objeto roubado, o significado de uma vitória sobre o adversário. Em toda a cidade do Rio de Janeiro, em Niterói e São Gonçalo cada grupo destacava pichadores para marcar os muros e delimitar o poderio em cada região. Para muitos integrantes destas torcidas, o que acontecia dentro dos gramados tinha uma importância menor. Embora condenada pelos seus lideres, o sentimento de amor a torcida ficou maior que o amor ao clube.
Maio de 1993. Membros da Torcida Jovem do Flamengo entram em desespero quando vão até sua sede no Maracanã conferir a denúncia de que pessoas encapuzadas invadiram a sala da torcida e roubaram o bandeirão. O material não estava lá. Boatos por toda a cidade e até em Minas e São Paulo, dizem que a enorme bandeira com o símbolo da torcida (um tanque) foi recortada em vários pedaços e distribuída pelos rivais. A imprensa só divulgou o fato duas semanas depois do fato consumado: “a Torcida Jovem do Flamengo não se conforma com a bandeira roubada, há duas semanas, de sua Sala no Maracanã. Fez uma nova para apresentar no jogo de ontem, mas ainda está revoltada com a Suderj.“Houve um acerto entre a turma que invadiu nossa Sala e os funcionários do Maracanã. Eles se defenderam, dizendo que foram amarrados pela torcida do Vasco. No entanto, quando foram fazer exame na Polícia, não tinham nenhuma marca nos pulsos. Eles levaram um bom dinheiro para deixar os ladrões entrarem. Isso aqui é uma vergonha, tem corruptos por todos os lados. Onde iriam conseguir um maçarico para arrombar a porta? Só pode ter sido na própria oficina da Suderj”, protesta um torcedor” [1].No primeiro Vasco e Flamengo veio a gozação com o canto: “UH cadê o Bandeirão, sumiu.”
No início de 1993, novas ”familias” se formavam com destaque para Resende (11ª) e Petrópolis (12ª). A novidade foi a formação de um núcleo dentro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (13ª), única torcida do Brasil a contar com uma organização dentro de uma Universidade. O grupo contava com estudantes de vários cursos, especialmente Comunicação, Filosofia, História. Direito e Educação Física. O Jornal da Força Jovem contou com o auxílio destes estudantes enquanto ele existiu.
Durante o campeonato carioca, numa partida entre Vasco e Americano em São Januário, torcedores do Vasco agridem o presidente da federação carioca de futebol e torcedor do Americano. O dirigente promete vingança pelos jornais e acusa a Força Jovem: “Esta é a oportunidade que eu precisava para banir de vez estes marginais, que dizem fazer parte de Torcidas Organizadas e que só vão para os Estádios para bagunçar e tumultuar. Vou persegui-los com todas as minhas forças e não terei paz enquanto não liquidá-los”. Este foi o desabafo do Presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, Eduardo Viana, que ainda traz no rosto as marcas da agressão que sofreu por um grupo de torcedores, segundo ele, da Força Jovem, após a partida entre Vasco e Americano, em São Januário.São diversos hematomas e escoriações por todo o rosto. As pancadas atingiram todo o corpo. Chegou a se temer que ele tivesse sofrido fratura nas costelas.O Dirigente já decidiu que jogará pesado contra as denominadas Torcidas Organizadas e começará pela própria Força Jovem. Ele garantiu que tem condições de reconhecer dois ou três agressores, e que pagarão pelo resto.....”
Com o Maracanã restabelecido, o campeonato carioca prossegue e o Vasco conquista o bicampeonato em junho, no empate com o Fluminense. Na ocasião a Força Jovem proporcionou uma das mais belas queimas de fogos da história do Maracanã.
Fazer a festa sempre foi uma tradição da Força Jovem que conseguia aliar espírito de luta, sacrifício e dedicação, com bom gosto e talento para embelezar os estádios. Por isso, na despedida de Roberto Dinamite do futebol, em março de 1993, que a FJV tenha sido designada para fazer a cascata de fogos que saudou o ídolo na entrada em campo.
Além do visual a vibração da bateria é outro elemento que diferencia uma grande torcida. Ela representa o coração da organizada, é o ponto de apoio e referência para os torcedores. É dela que os cantos, gritos de guerra e as músicas entoadas ganham o ritmo e a harmonia da arquibancada, empolgando as multidões. “Explode coração na maior felicidade...” cantam os torcedores o samba mais popular de 1993, da Escola da Tijuca, Salgueiro.
A magia da bateria dá a integração aos membros da torcida, unindo-os num ritual só igualado aos desfiles das Escolas de Samba. Futebol e Samba, um casamento perfeito, no entanto, a riqueza musical das Torcidas Organizadas faz dessa junção apenas uma das várias fórmulas de deixar os torcedores em estado de êxtase total. A combinação de vários ritmos, dá um tempero especial conciliando o samba ao rock e ao funk, passando pela paródia de músicas infantis. A idéia principal é não deixar de fora nenhum ritmo. Na folia, todos os gêneros musicais têm vez. Situada um pouco acima, a esquerda do túnel de entrada da facção, a bateria da FJV ocupa 3 degraus da arquibancada com 10 surdos, 16 caixas de guerra, 5 repenique, 4 tamborins e 2 chocalhões, são mais de 40 componentes num sistema de revezamento são os encarregados da bateria da Força, tendo como um dos destaques o Diretor de Bateria da Imperatriz Leopoldinense.
Em seguida do Campeonato Carioca os clubes disputam o Torneio Rio-São Paulo. Depois da partida entre Palmeiras e Flamengo em São Paulo, os torcedores do Flamengo são pegos numa emboscada, sendo alvo de coquetéis molotov. Vários ficam feridos com queimaduras. Nas investigações policiais, alguns torcedores do Vasco são acusados de planejarem a ação violenta.
Em setembro de 1993 a bateria da Força Jovem foi decisiva no jogo entre Brasil e Uruguai válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo nos EUA. Tão importante como Romário, que voltava a brilhar no estádio e marca os dois gols da vitória diante de mais de 100 mil torcedores. Aquela partida memorável seria uma das últimas a contar com um público deste tamanho vendo a seleção brasileira. Pela importância do jogo, podemos considerar a partida mais importante da seleção no Brasil nos anos 1990. A festa da torcida vascaína foi proporcional ao que os jogadores mostraram em campo.
No final de 1993 a sede da torcida FJV é transferida para o bairro da Piedade. Em local de fácil acesso (em frente a estação), a nova sede possui melhor infra-estrutura, facilitando o trabalho da diretoria. Entre as primeiras medidas no novo local ficou estabelecido o contato com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, líder da Campanha contra a Fome, que mobilizou milhões de brasileiros. A Força Jovem foi a primeira torcida a buscar este contato arrecadando 2 toneladas no jogo entre Vasco e Fluminense[2].
Neste ano uma pesquisa do IBOPE divulgado pela Revista Placar em outubro revela o perfil econômico das torcidas cariocas e o nosso clube apresenta um inegável perfil popular. “o Vasco da Gama, associado no imaginário à rica colônia portuguesa carioca, apresentava um gráfico exatamente inverso a tal imagem: 14,6% das classes A-B; 17,7 % da C e 21,6% das D-E” (Franco Júnior, 2007, p.208). Em números absolutos o resultado era: 1º Flamengo     41,9 %, 2º Vasco 18,4%, 3º Fluminense 16,0%, 4º Botafogo, 10,1%, 5º America 1,0%, Nenhum  8,2 % e  Outros 4,4 %.
         A esperança do inédito tricampeonato carioca em 1994 e a conquista do tão sonhado tetracampeonato mundial nos EUA, passam a serem os maiores desejos dos vascaínos para o próximo ano. O futebol brasileiro apesar de viver um longo período sem títulos importantes e ver a saída constante dos maiores jogadores para o futebol europeu, ainda é a maior paixão nacional.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal do Brasil 24 de Maio de 1993.
[2] Fonte: Jornal do Brasil 15 de Outubro de 1993.

Vasco 1993

Vasco Maracanã 1993


segunda-feira, 1 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1992 INVICTO EM SÃO JANUÁRIO

                                        “Não Há Nada Mais Vascaíno Do Que Ser Força Jovem”.
                                                              Slogan da torcida

1992                         Invicto em São Januário
  
Depois de acompanhar duas campanhas bisonhas nos campeonatos brasileiros em 1990 e 1991, a torcida vascaína começa o ano de 1992 plenamente confiante de que o ano seria positivo. Logo na estréia em São Paulo (a FJV leva 15 ônibus), a equipe carioca derrota a paulista com uma goleada por 4 a 1. Transmitido ao vivo para o Rio de Janeiro, era o primeiro contato do grande público com uma jovem promessa vinda das divisões de base: Edmundo. Em sua estréia, uma atuação consagradora dele e do time.
E foi uma campanha espetacular até as semifinais contra o Flamengo, quando fomos eliminados. Na final, novamente uma disputa entre cariocas (como em 1984), Botafogo e Flamengo decidem o campeonato em duas partidas. Como na primeira terminou com a vitória do rubro-negro por 3 a 0, a segunda partida contou com presença maciça da torcida da Gávea que lotou o Maracanã. Torcedores apoiados nas grades que se rompem caem das arquibancadas nas cadeiras, provocando dezenas de feridos e algumas mortes.  Depois desse fato, para provocar a maior torcida adversária, a Força Jovem começa cantar uma versão da música de Gal Costa: “Ô balancê, balancê, escute o que eu vou te dizer, a festa da Raça esta em extinção, vocês viram na televisão, coitadinha da Raça, a Raça do Urubu (Tomou no...), tentou voar do Maraca legal, e caiu na geral, ô balancê, balancê...” e a música, “Nada mais gostoso que cair da arquibancada, Raça Fla já caiu de lá, ê ê ê ê já Raça Fla ”.[1] 
Em virtude deste acidente, o Maracanã ficou interditado no segundo semestre, justamente o período de disputa do campeonato carioca. São Januário passa a ser o palco principal desta competição.
Com um novo presidente (Buião), a FJV dá um novo passo de divulgação de seu trabalho com a criação do próprio jornal. Já no primeiro número, uma crônica do jornalista Sergio Cabral relata o seu orgulho por ser vascaíno.  Com 5 mil exemplares, o jornal é distribuído em São Januário, também tema de uma reportagem do periódico, que ressalta em seu editorial a história da Força Jovem, passadas duas décadas de muito esforço e dedicação de diversas gerações. Nessa época, surge uma nova sede (em Cavalcanti), descrito em seu jornal como um “ponto de encontro dos torcedores, local de reuniões, espaço para ver os amigos e fazer novas amizades, lugar de discussão e divertimento. O valor da sede para uma torcida organizada, esta para um estádio para um clube de futebol. Ela é referência básica e da demonstração de organização e poder de multiplicação de novos associados, além de permitir que a vida dos torcedores não se limite apenas aos encontros em dias de jogos”.
No mesmo jornal, uma reportagem explicava como foi feito o Bandeirão, maior símbolo visual da organização nos próximos anos, motivo de orgulho e exaltação sobre as rivais: “bandeira custou 8 mil dólares, já que foram gastos mais de 400 litros de tinta e mais de 1.700 m2 de pano”.
            Acompanhando as alterações que ocorriam nos agrupamentos juvenis a imprensa registrava as mudanças nas músicas das torcidas entoadas nas arquibancadas: “nem mesmo a influência de sambistas Vascaínos do porte de Paulinho da Viola ou de um Martinho da Vila fazem com que os jovens torcedores do Vasco se interessem  em resgatar o samba nos seus cânticos de arquibancada. As Torcidas Organizadas do Vasco hoje em dia utilizam apenas gritos de guerra, esquecendo, além do samba, do próprio hino do Clube, raramente ouvido em São Januário”[2].
 A imprensa começa a comparar as torcidas como organizações criminosas. “A Força Jovem é a tropa de choque da Torcida Vascaína e seus 7 mil componentes se vangloriam da valentia. A exemplo da Máfia Siciliana, divide-se em Famílias que dominam 10 territórios delimitados em toda a Cidade. Extremamente violenta, canta nas arquibancadas músicas alusivas a rival Jovem Fla. “ Dica morreu, a Jovem se f...” cantavam e se vangloriavam em São Januário, provocando a torcida adversária no jogo passado, entre Vasco X Flamengo”.
Os órgãos governamentais procuram ações conjuntas com os torcedores, como a sugestão  do Secretário Estadual de Esporte e Lazer (Marcio Braga, ex-presidente do Flamengo) que propõe um plano para acabar com a violência. O político “se reuniu ontem no próprio Maracanã, com vários Chefes de Facções e com a Diretoria da ASTORJ (Associação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro) representada pelo Presidente Seu Armando da Young Flu e pela Vice Presidenta Dona Lúcia da Raça Alvi Negra. Várias propostas foram debatidas, mas no final não houve a idealização de um plano eficaz para acabar com a violência no Estádio”.
 No Maracanã uma frase pichada no muro faz uma parodia de uma propaganda contra o fumo: O Ministério da Saúde adverte: brigar com a Força Jovem faz mal à saúde”.
Enquanto as novas lideranças e suas associações eram estigmatizadas pela imprensa, Dulce Rosalina vivia um drama diferente. A torcedora mais famosa do clube praticamente seria obrigada a se afastar dos estádios a partir deste ano seguindo orientação de seu médico, em virtude de problemas de visão. “O Dr Fernando Aragão está cuidando de mim com muito carinho. Não posso contrariá-lo. Tudo que ele proíbe eu cumpro, até mesmo ir para casa, na hora em que o Vasco está jogando, o que é um sofrimento para mim. Se Deus quiser, ainda verei muitos gols do meu clube. Quero sair logo para não ouvir o grito da torcida. Isso é que me da saudade”[3], conclui Dulce.
            No final de 1992 diversas manifestações contra o presidente Collor tomam conta das ruas em todo o país. Era o fenômeno dos “caras-pintadas”, ou melhor, jovens que pintavam seus rostos para protestar contra o governante acusado por corrupção. Com o crescimento das passeatas, os gritos das ruas chegam as arquibancadas. Pouco antes do impeachment do presidente, a FJV leva para São Januário uma faixa com os dizeres que se tornaram o grande clamor popular do ano: “Fora Collor = FJV”.
            Como o Maracanã ficou fechado por todo o segundo semestre e o estádio de São Januário ficou como o lugar principal das partidas mais importantes, a Flapress procurou minimizar aquela competição. Nesse sentido parte da imprensa carioca concentrou suas análises sobre o campeonato carioca ressaltando “a menor média de público dos últimos anos”,  pois em função da interdição do Maracanã era inevitável que as rendas fossem menores. Nada mais distante do sentimento dos vascaínos que puderam mais uma vez se orgulhar de ter um estádio próprio e ver seus atacantes como os melhores do Brasil: Roberto Dinamite, que conquistava seu último título pelo clube se despedia do futebol em grande estilo e Edmundo era a maior revelação do ano.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Outra música de grande sucesso foi: “Sou eu, sou eu, sou eu da Força Jovem sou eu!!/ A Jovem Fla não se cansa de apanhar!!/ A Raça Fla na corrida é a melhor!!/ Young Flu toda pequenininha!!/ Toma porrada e cabe dentro de um fusquinha!!/ Sou eu, sou eu, sou eu da Força Jovem sou eu!!
[2] Fonte: Jornal do Brasil.
[3] Fonte: Jornal do Brasil 29 de Junho de 1992.

Vasco Jornal dos Sports 1992

Vasco 1992