domingo, 13 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1948 O EXPRESSO CONQUISTA A AMÉRICA

“Tua imensa torcida é bem feliz
Norte-Sul, Norte-Sul deste país”
            Hino criado Lamartine Babo

1948             O Expresso conquista a América

Na década de 1940, durante o domínio do Expresso da Vitória, o carnaval dos vascaínos durava mais que 4 dias, se prolongando por semanas e até meses, como no ano de 1948. Entre o final de 1947 (conquista do campeonato carioca) e o título sul-americano em março de 1948, a torcida vascaína não teve tempo de descanso. Em janeiro os jornais noticiavam: “Promovida pela Legião da Vitória do Vasco da Gama, realiza-se hoje no trecho da Rua General Caldwell, entre a Avenida Presidente Vargas e Rua Frei Caneca, a maior Batalha de confete do ano, Milhares de lâmpadas, ornamentação soberba e três bandas de música, a saber: Banda Portugal, Banda da Polícia Militar e Banda Municipal (...) Um grande cortejo será formado na Praça da Bandeira, ás 22 horas, a fim de conduzir a Diretoria do Vasco ao local dos festejos. Os associados que desejarem incorporar-se ao mesmo, deverão comparecer as 21.30 horas, a Praça da Bandeira junto ao Cinema”[1].
Na volta da delegação para o Rio de Janeiro, em março, depois do inédito campeonato no Chile, a torcida vascaína preparou uma grande festa.  Os pesquisadores Alexandre Mesquita e Jefferson Almeida, autores do livro "Um Expresso chamado Vitória” (2008), descrevem o cenário apoteótico na cidade em que “as ruas estavam repletas de torcedores de todos os clubes que levaram faixas e cartazes para saudar seus heróis. A chegada ao Santos Dumont aconteceu somente duas horas mais tarde. A multidão se apertava para recepcionar os campeões do continente (...) No trajeto até São Januário, mais folia: as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas pareciam estar em plena época de Carnaval. Estampava-se no semblante de toda aquela gente um orgulho diferente de ser brasileiro. E tudo isso graças ao Expresso da Vitória”.
As conquistas internacionais do Vasco não se encerraram no Chile em 1948. Em junho, um atleta vascaíno do basquete (Alfredo da Motta) ganhava uma medalha de bronze, pela seleção brasileira nos Jogos Olímpicos em Londres. Era a pela primeira vez que o clube tinha um medalhista olímpico. Ainda neste mês o futebol inglês, representado pelo Southampton, fazia uma excursão pelo Rio de Janeiro, enfrentando os clubes cariocas. Depois de derrotar o Flamengo em São Januário, os ingleses seriam derrotados pelo Vasco. Fora de campo as duas torcidas travaram um duelo à parte. Antes da partida com o Vasco, o escritor José Lins do Rego escrevia em sua coluna no Jornal dos Sports no dia 10 de junho com a seguinte manchete: “Vamos torcer pelo Vasco” e faz um apelo nacionalista para que todos se unissem contra o rival estrangeiro: “a torcida vascaína que vaiou o Flamengo de modo tão fora de ética cometeu um erro tremendo (...) nós do Flamengo deveremos aplaudir os brasileiros do Vasco da Gama. Como se fossem os brasileiros do Flamengo”.
O sucesso do clube em campo era transferido também para os seus torcedores. Em julho, o jornalista Mario Filho escreve  três crônicas no Revista O Globo Sportivo, narrando o drama familiar de João de Luca, líder da torcida vascaína (TOV), casado com uma torcedora do Flamengo. Do início do namoro quando um não sabia o time do outro até a descoberta da divisão das paixões futebolísticas, cada um tentando respeitar o direito do outro de torcer pelo seu time. Em casa, no meio da poltrona, um objeto para lá de suspeito na residência de um vascaíno: uma almofada bordada pela noiva como enxoval do casamento com as cores do Flamengo: “João de Lucas (sic) só soube como era a almofada depois que se casou: uma almofada toda bordada, de seda vermelha e preta, e com um enorme escudo do Flamengo, bem no centro. A almofada ficou colocada no lugar de honra da sala de visitas da casa de João de Lucas, para escândalo de todo Vascaíno que aparecia por lá”. Para evitar a gozação dos amigos vascaínos, “João encheu as paredes de flâmulas do Vasco. Quem passava pela rua via as flâmulas , pois as janelas da sala de visitas estavam sempre abertas, não via a almofada. Quem entrava, porem, olhava, como fascinado, para a almofada que Dona Helvecia tinha bordado”. Casados, eles não frequentavam os estádios, em casa sua esposa percebia que a alegria e a tristeza do marido variavam de acordo com o desempenho de seu time. Para surpresa de Lucas, sua esposa silenciosamente ia se tornando vascaína só de acompanhar a paixão do marido pelo clube. Ela faz um pedido para o marido lhe levar em São Januário para ver um Vasco e Flamengo: “Para não passar os domingos longe do De Lucas, dona Helvecia pedira para ver aquele Vasco e Flamengo. Podia ter escolhido outro jogo, antes ou depois, Mas não, escolhera justamente aquele jogo, um Vasco e Flamengo. Outro jogo não provaria nada, que ela não era Flamengo, que era Vasco. “Você quer saber de uma coisa, meu bem? Disse o De Lucas. “Foi Deus que mandou você hoje aqui”. Deus ou Nossa Senhora das Vitórias. Saíram os dois de braços dado de São Januário. A primeira coisa que João de Lucas fez foi dar sumiço na almofada toda bordada com o escudo do Flamengo”. Mario Filho termina de contar sua história que todo vascaíno queria ler. A esposa, em nome do amor, troca de clube e passa a torcer junto do marido pelo mesmo time.
            O jornalista Mario Filho vivia um momento especial com o início das obras de construção do Maracanã em agosto. A cada mês o jornalista fazia questão de comparecer com uma equipe de reportagem e registrar a evolução das obras e fiscalizar o cumprimento dos prazos. Ele que, no ano anterior, havia lançado sua principal obra, “O Negro no Futebol Brasileiro”.
Começa o campeonato carioca de 1948 e o favoritismo do Vasco leva a  sua torcida acompanhar com tranquilidade os jogos, com exceção de  um clássico em São Januário, que terminou em confusão envolvendo as torcidas quando “a cancha foi invadida por torcedores do Fluminense, que dominados pelo entusiasmo, chegaram até próximos as sociais cruzmaltinas. Foi então, que elementos do Vasco, tomando a invasão como um acinte, procuraram enfrentá-la. Houve discussão, desafios e agressão. Policiais fardados e em traje civil, aumentaram ainda mais a confusão, aqueles, principalmente, com franca distribuição de pancadas. Como se tratava de violência, muitos revidaram. E ai, aumentou a confusão porque um dos policiais puxou da arma e disparou-a. Ao tumulto, felizmente, vingou o bom senso da maioria”[2].
Pouco antes em um outro episódio, a torcida vascaína recebe os elogios de um cronista do Jornal dos Sports que mesmo perdendo em São Januário para o Boca Juniors por 5 a 3, não provocou protestos, pelo contrário: “gostei de ver o comportamento da torcida do Vasco (...) ouvi comentários de todas as matizes ao sair do estádio. E não ouvi um só que exprimisse mága, agravo ou ataques a diretoria ou ao técnico. Sofreu o Vasco uma derrota esmagadora, e a esta derrota não correspondeu a histerismo algum de sua torcida”.
            Para este campeonato carioca de 1948 tudo indicava que o Vasco venceria facilmente e levantaria o bicampeonato com facilidade. No entanto, em campo a surpresa foi o título do Botafogo com duas vitórias sobre o Vasco. A primeira em São Januário no primeiro turno e a segunda, na última partida disputada, no estádio de General Severiano. Com a vitória assegurada por 3 a 1, os torcedores botafoguenses levantavam os lenços brancos mostrando para os vascaínos o sinal de despedida do título de bicampeonato sonhado pelos vascaínos.
            O troco do Vasco seria no ano seguinte, com o maior ídolo do Botafogo nos anos 1940 vestindo a camisa do Vasco e sendo campeão carioca pelo primeira  e única vez.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal dos Sports 31 de Janeiro de 1948.
[2] Fonte: Jornal O Globo Esportivo 24 de Setembro de 1948.

Vasco Revista Careta 1948

Vasco Jornal O Globo Esportivo 1948


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

LEGIÃO DA VITÓRIA 1943: APRESENTA O VASCO A SUA TORCIDA UNIFORMIZADA

A ideia, não se pode negar, partiu de São Paulo. Foi lá que surgia, por iniciativa de associados do Corinthians, a primeira Torcida Uniformizada, sendo logo a ideia imitada pelos torcedores do Palmeiras e São Paulo.
Mas, aqui no Rio, a primeira iniciativa nesse sentido, coube ao Vasco por intermédio de Olympio Pio e João de Lucca, positivamente dois mais fanáticos torcedores do grande Clube dessa que estão presentes a tudo que se relaciona com o grêmio de São Januário.
E ao Diário da Noite coube divulgar com exclusividade a novidade, que hoje é uma das preocupações dos Vascaínos. Quer dizer: o certame carioca do corrente ano apresentará a novidade da Torcida Uniformizada, o que contribuirá sem dúvida, para o seu maior brilho e interesse.
Não há no Vasco quem não conheça Olympio Pio. Pudera. Trata-se de um Vascaíno capaz de todo e qualquer sacrifício pelo Vasco, amigo dos seus amigos, leal e trabalhador. Naturalmente não conta com a simpatia de determinados cavalheiros, porque tem uma qualidade, é franco, não mandando ninguém dizer o que pretende. E não se trata de um adesista ou de um bajulador.
Nos seus vinte e sete anos de sócio do  Vasco, prestando os mais inestimáveis serviços ao Clube, Olympio Pio jamais pretendeu coisa alguma se não a grandeza do Clube.
Neto do Almirante, Tristão Santos, Olimpio herdou os grandes predicados do ilustre homem do mar e estadista. Falando a um redator do Diário da Noite, Olimpio Pio, em seu nome e no de João de Lucca prestou interessantes esclarecimento sobre a futura Torcida Uniformizada do Vasco.
“Eu e João de Lucca resolvemos criar no Vasco a Torcida Uniformizada, como em São Paulo”, iniciou Olympio Pio. Tomamos todas as providencias necessárias , com a necessária autorização do Presidente Ciro Aranha, que achou interessantíssima a idéia. O Vasco atualmente atravessa uma fase esplendorosa, reinando justificada expectativa em torno da figura do team no próximo campeonato. Por isso mesmo, queremos colaborar com o team, organizando uma Torcida que lhe prestará apoio incondicional, estimulando-o permanentemente, sejam quais foram as circunstancias. Futebol é jogo de perde e ganha.
As derrotas não abaterão o nosso animo, mas pelos esforços desenvolvidos pela diretoria, no sentido de formar um grande team, como se está vendo, não podemos se não acreditar no sucesso do team. Encarregamos o nosso prezado consocio Francisco Gomes Dantas, estabelecido com alfaiataria a Rua Uruguaiana 111, a confecção dos uniformes por preços razoáveis e que consta de jaqueta sem gola de casemira, com a cruz de malta bordada em cor vermelha sobre uma lista branca sobre o bolso superior calça branca e camisa Sport da mesma cor. O trabalho tem sido executado de acordo com as nossas previsões, havendo enorme procura, não só da parte dos torcedores em geral, como de elementos de projeção, como Eurico Serzerdelo Machado, José Ozorio e outros. Pelo vulto dos pedidos, tenho a impressão de que a maioria dos Vascaínos se apresentará este ano devidamente uniformizada.
Fonte: Jornal Diário da Noite 11 de Março de 1943

Legião da Vitória Jornal O Globo 1943

Legião da Vitória Jornal Diário da Noite 1943

Legião da Vitória Jornal Diário da Noite 1943

Legião da Vitória Olympio Pio 1943

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1947 CARNAVAL EM SÃO JANUÁRIO

                                                                    “A PASSEATA DOS VASCAÍNOS”
                                                                               Manchete do Jornal

1947                      Carnaval em São Januário

            Contratados junto ao Madureira no início dos anos 1940 os três patetas (Lelé, Isaías e Jair) fizeram grande sucesso no Vasco nestes anos. No entanto, em 1947 o trio começa a ser desfeito. Com a venda de Jair para o Flamengo em março  e com a doença (tuberculose) e o afastamento dos gramados de Isaías que acabou levando-o a morte em abril.
            A grande contratação do Vasco nesta temporada foi a do técnico Flávio Costa que tracava o Flamengo pelo nosso clube. A saída do treinador mobilizou os dirigentes e sócios rubro-negros para uma ação de represália com o rival. Em reuio~es na Confeitaria Colombo, membros do grupo Dragão Negro, formado por sócios endinheirados, acertam a contratação do atacante Jair Rosa Pinto. Durante praticamente dois meses os dois clubes travam pela imprensa uma disputa pelo passe do jogador. Em seu novo clube, Jair jamais venceu o Vasco e se envolverá em um episódio dramático em 1949, quando saiu “expulso” da Gávea.
            Depois dessa disputa, o treinador Flávio Costa dirige a equipe carioca. Como sempre, a rivalidade entre cariocas e paulista estava em alta durante o campeonato brasileiro de seleções. Os cariocas venceram em São Januario e conquistaram o tricampeonato. A base da equipe local era o time do Vasco.
            Em seguida vem os jogos da seleção brasileira, treinada por Flávio Costa. Em função da briga com os Argentinos em 1946, restou o Uruguai como maior adversário do Brasil nos próximos anos. Para disputar a Taça Rio Branco no Brasil, os jogadores fazem um apelo ao público carioca já que na primeira partida em São Paulo, a torcida vaiou a seleção. Foi escrita uma carta ao torcedores pedindo o apoio e incentivo dos cariocas.
            Mesmo com um elenco de fazer inveja haviam dúvidas se o Expresso ia continuar em forma. Para reforçar o elenco foi contratado o atacante Maneca. No meio do ano o clube fazia sua segunda excursão a Europa (a primeira foi em 1931) para amistosos em Portugal e na Espanha para disputar o Troféu Teresa Herrera. Para o jornalista Tomas Mazzoni em sua obra “História do futebol do Brasil (1894-1950), a viagem do Vasco “ foi o melhor feito internacional de nossa vida esportiva em 1947. Mesmo o escritor rubro-negro José Lins do Rego se rende ao sucesso do Vasco no exterior e afirma: “continua o Vasco a honrar com brilho o futebol brasileiro (...) pela bravura e pela classe de sua equipe, mostrou o tricampeão do Municipal que é, de fato, uma verdadeira seleção de valores” (COUTINHO, 1995, p.174). Na ocasião os jornais destacam o apoio da torcida vascaína prestigiando os jogadores no embarque no aeroporto carioca.
            De volta ao Brasil, os jogadores se preparavam para o campeonato carioca e acompanhavam a pesquisa no Jornal dos Sports sobre a construção de um estádio para a Copa do Mundo. Chegou-se a especular sobre a reforma de São Januário com a ampliação de sua capacidade. Ari Barroso, rubro negro, locutor e vereador foi contra, fazendo campanha pela cidade. O resultado final deu quase 80% de aprovação para a construção de um novo estádio. A dúvida seria o local. Alguns sugeriam o Maracanã no local do Derby Clube e outros sugeriam Jacarepaguá (com apoio do vereador Carlos Lacerda).
Uma matéria no Jornal dos Sports anuncia a criação de um grupo organizado no Vasco para incentivar o time acompanhado de uma charanga e com a finalidade de arrecadar dinheiro para premiar os jogadores. Não é uma nova torcida organizada porque um dos homenageados pelo grupo é João de Lucca, chefe da TOV, talvez fosse um grupo político de sócios em torno da figura de Jose do Amaral Ozorio, presidente de honra do coletivo: “FUNDA-SE O GRÊMIO DOS QUERIDOS DO VASCO. Uma agremiação de grande potencialidade vem de ser fundada nesta capital, contando desde já com 100 Vascaínos de verdade. A nobel organização denomina-se Queridos do Vasco. O grêmio é composto de 100 “Vascaínos de Verdade”, terá uma Charanga Uniformizada, para  auxiliarem o glorioso Vasco da Gama, a levantar o campeonato de 1947, invicto. Cada componente do grêmio contribuirá com uma verba especial, para no fim do campeonato, premiar os jogadores profissionais e reservas”[1].
            Até o final do ano o Expresso reviveu os melhores momentos de 1945 com uma campanha de fazer inveja, inclusive com a goleada de 14 a 1 sobre o Canto do Rio. Fora do campo a torcida se preparava de todas as maneira para não dar espaço para os rivais prestigiarem os adversários, especialmente os clubes de subúrbio. Foi o caso do jogo contra o Olaria na rua Bariri, quando os líderes da TOV foram antes estudar os principais locais para a torcida do Vasco ficar: “há pontos considerados estratégicos no local, como sejam as portas dos vestiários dos jogadores e as proximidades dos gols. De qualquer maneira a enorme massa de aficionados do Vasco espera estar dentro do campo, no máximo as 11 horas da manhã, fato que lhe virá garantir uma situação privilegiada no esperado duelo de incentivo com os fans locais”[2].
            Organizar uma torcida no estádio ou junto de um grupo de amigo de uma mesma região tornava-se uma atividade rotineira dos aficionados do futebol. Em vários lugares os adeptos iam se organizando para se deslocarem aos estádios ou se agruparem próximos e incentivar o time de forma mais ostensiva. Um leitor pede apoio ao JS para divulgar sua torcida organizada: “sou um dos maiores torcedores do Vasco. Reuni no Bairro onde moro, a Rua Barreiros, na Estação de Ramos, admiradores do pavilhão da Cruz de Malta. Tendo o seu número já se elevado a 30, tomei a iniciativa de organizar uma torcida Uniformizada para incentivar os jogadores do nosso clube a conquista do Campeonato da Cidade. Adianto mais, estamos em negocio com a casa Superball para obtenção imediata dos uniformes. Assim sendo, peço que V. S. que, pelas colunas do Jornal dos Sports, faça um apelo a todos os Vascaínos no sentido de aderirem a nossa Torcida Organizada, bastando para tanto, dar o meu endereço[3]”.
Enquanto em campo o time parecia imbatível fora dos gramados a competição entre as torcidas era o “Concurso da Bala Sportiva”, com os torcedores juntando papeis para eleger o maior ídolo da galera.
Fim do campeonato e título conquistado por antecipação, restou aos vascaínos comemorar durante vários dias mais uma conquista memorável. Depois do último ao derrotar o Madureira, em 28 de dezembro, a torcida preparou um cortejo, com 12 carros alegóricos, e cerca de mil automóveis. Partiu com os automóveis da Rua Conselheiro Galvão, promovendo a maior carreata pela cidade.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal dos Sports 24 de Junho de 1947.
[2] Fonte: 04 de Novembro de 1947.
[3] Fonte: Jornal dos Sports 24 de Julho de 1947.

Vasco Jornal Jornal dos Sports 1947

Vasco Jornal O Globo Esportivo 1947


terça-feira, 8 de novembro de 2016

TOV 1959: CONTRA OU A FAVOR DO AUMENTO DOS INGRESSOS?

Liderado pelo Sr Hilton Santos, esboça-se um movimento no sentido de que sejam aumentados os preços dos ingressos nas partidas de futebol.
Sobre o assunto ouvimos 9 opiniões, inclusive 3 torcedores, que assim responderam a nossa indagação:

JAIME DE CARVALHO (CHARANGA RUBRO NEGRA)
Se tudo subiu nestes últimos meses (30,40 e até 100%) é justo que os ingressos aumentem também, desde que a um nível razoável.

TARZAN (TOB TORCIDA ORGANIZADA DO BOTAFOGO)
 Acho que só os chamados clássicos e bons jogos interestaduais deveriam ter seus ingressos aumentados. Os demais não.

DOMINGOS RAMALHO (TOV TORCIDA ORGANIZADA DO VASCO)
 Sou um pobre operário e sei o sacrifício que representaria para mim pagar uma arquibancada a 50 cruzeiros. Futebol é para o povo.
Fonte: Revista do Esporte 09 de Maio de 1959

TOV Revista do Esporte 1959

TOV Revista do Esporte 1959

TOV Revista do Esporte 1959

domingo, 6 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1946 NO BOTECO DO JOSÉ

  “Entra homem, entra menino/ Entra velho, entra mulher
   É só dizer que é vascaíno/ Que é amigo do Lelé”.
    Marchinha do Carnaval de 1946

1946                    No Boteco do José

A marchinha de carnaval No Boteco do José criada por Wilson Batista e Augusto Garcez e gravada por Linda Batista  tornou um grande sucesso no Carnaval de 1946. A música faz uma homenagem a torcida vascaína personificada no português vascaíno e dono de bar, José, que comemorava as conquistas franqueando aos consumidores as bebidas. Na letra, o artilheiro Lelé é citado como um dos maiores ídolos daquele ano capaz de aglutinar em torno de si pessoas de diferentes idades, sexo e condição social. Apesar de rubro-negro declarado, Wilson Batista, um dos grandes compositores populares dos anos 1940, dava uma demonstração de esportividade escrevendo uma composição que retratava o espírito do torcedor da época.
Uma outra música que animava os vascaínos era gravada pela cantora cruzmaltina Araci de Almeida, o samba “Memórias de um Torcedor”, também de Wilson Batista, assinala a revolta dos rubro-negros pelo momento de fracassos do seu clube. O melhor trecho é o lamento: "Eu hoje vim da Gávea tão cansada/ estou com a cabeça inchada/ pois o Flamengo voltou a perder”.
Depois das alegrias do carnaval a torcida vascaína tinha o dissabor de ver o grande artilheiro Ademir se transferir para o Fluminense em março de 1946. Atendendo aos apelos do técnico tricolor, Gentil Cardoso, que havia prometido o título caso o seu clube contratasse Ademir. Para voltar a dominar o futebol carioca, os dirigentes tricolores não economizaram esforços para retirar o ídolo dos cruzmaltinos. A saída do ídolo provocou reação da torcida mas foi ignorada pelo cartolas confiantes no elenco do Expresso.
Ademir brilhava não apenas no Vasco, também era o titular absoluto da seleção brasileira que disputou a Taça Rio Branco e o campeonato Sul-Americano na Argentina, em janeiro e fevereiro de 1946. Ainda na Argentina, em 1946, no congresso Sul-Americano, foi aprovada a indicação para o Brasil sediar a próxima Copa do Mundo sem data definida. No entanto, foi neste ano que as seleçoes brasileiras e argentinas se enfrentaram pela última vez nos anos 1940. Tudo em função de uma briga generalizada entre os jogadores no Sul-Americano. Em função destes desentendimentos, Brasil e Argentina só viriam a se enfrentar novamente em 1956.
No início de 1946 assume a presidência do Brasil, Eurico Gaspar Dutra,ex-ministro de Vargas. Estes dois ex-presidentes do Brasil (Eurico Dutra, 1946-1950 e Getúlio Vargas, 1951-1954), fizeram doações e favores ao Flamengo nos anos 1940 e 1950. De acordo com (LEVER, 1983, p.91), “Dutra doou um terreno excepcional no centro do Rio ao Flamengo (...) Vargas concedeu ao clube um vultuoso empréstimo, a juros baixo”.
Este é o momento de fortalecimento da vida social dos clubes que ampliam as suas atividades esportivas e recreativas. Os salões de festas e a criação de novas áreas de lazer estimulam os clubes a investirem em suas sedes proporcionando maior conforto e fonte de lucros na receita das agremiações. Mário Lamosa, ex-remador e grande benemérito do Vasco, recorda: “toda a minha infância foi em São Januário”. Em outro depoimento para o artigo Vidas Vascaínas, do livro Memória Social dos Esportes (2002. p. 373-374), o médico Alberto Moutinho, relembra o tempo áureo dos clubes cariocas: “o Vasco tinha sua parte social toda em São Januário, onde hoje é o salão de troféus, aquele salão bonito! Ali era o salão em que eles faziam as reuniões dançantes, as festas (...) minha esposa já freqüentava os bailes infantis (...) os clubes, hoje em dia, não tem mais atividades sociais (...) a minha geração era de clube”.
            O fenômeno associativo se dava tanto na Zona Norte como na Zona Sul, com a proliferação de clubes por toda a cidade promovendo as suas competições internas, as festas e os seus bailes, alguns com perfis mais esnobes e outros mais populares. Em alguns de mesmo perfil socioeconômico, a divisão se fazia no horário: “no suntuoso palacete de General Severiano havia baile quase todo sábado, no salão nobre. Os bailes do Botafogo eram de tarde, à noite eram os do Tricolor” (NEVES, 2006, p.37).
Dutra era grande benemérito do Flamengo e, para mostrar sua parcialidade, comemora (em seu primeiro ano de mandato) a tradicional festa no dia Primeiro de Maio com um jogo entre as equipes do Flamengo e São Paulo, em São Januário.
Mesmo favorito absoluto antes do campeonato carioca começar, o time do Vasco surpreende e não consegue chegar entre os primeiros colocados. Uma das explicações para o clube terminar em 5° lugar foi a saída do técnico vitorioso Ondino Vieira. Para o seu lugar, o escolhido foi Ernesto Santos, que assumiu a vaga após o clube fazer um anúncio pela imprensa[1] a procura de um novo comandante para o Expresso um dia antes do campeonato carioca de 0146 começar. Eis o anúncio:
Club de Regatas Vasco da Gama
Aviso
O Departamento de Futebol Profissional do Club de Regatas Vasco da Gama convida os técnicos de futebol com serviços prestados em clubes das federações paulista e carioca, que desejarem se candidatar a ocupar o lugar de técnico de futebol do referido clube, a se apresentarem até o dia 10 do corrente, às 18 horas, no Departamento Técnico, no estádio de São Januário, munidos de provas de suas habilitações e de documentos de sua idoneidade moral e profissional, mediante contrato nas seguintes bases:
a) prazo do contrato: 15 de julho de 1946 a 31 de dezembro de 1947;
b) luvas de Cr$ 45.000,00;
c) ordenado de Cr$ 3.000,00;
d) prêmios por vitórias ou empates iguais aos estabelecidos para os jogadores, nas divisões principal, imediata e aspirantes;
e) prêmio de Cr$ 20.000,00 pela conquista do Campeonato da Divisão Principal.
O Club de Regatas Vasco da Gama se reserva o direito, não só de não aproveitar qualquer dos pretendentes, mas ainda o de escolher livremente entre os candidatos aquele que, a seu exclusivo juízo, for considerado o mais indicado.

Uma decisão inédita reúne quatro clubes que chegam empatados ao final da última rodada do campeonato. Fluminense, Flamengo, Botafogo e América disputam, no final do ano, um supercampeonato terminando com a final entre Fluminense e Botafogo. O desfecho terminou com a vitória tricolor por 1 a 0 com gol de Ademir. Uma grande frustração para os vascaínos que viram seu ídolo dar o título ao rival.
Restavam as alegrias para o Remo do Vasco que conquistava mais um título. Era a comemoração do tricampeonato nas regatas (1944-45 e 46).
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: www.netvasco.com/Curiosidades/Mauro Prais

Vasco Jornal Diário de Notícias 1946

Vasco Jornal O Globo Esportivo 1946

sábado, 5 de novembro de 2016

TOV 1960: DULCE ROSALINA É ELEITA A MAIOR TORCEDORA DO FUTEBOL BRASILEIRO

Há torcedores que simbolizam com o seu ânimo inquebrável, a Torcida dos seus Clubes. São os que desafiam o sol e a chuva e vão para os Estádios, muito cedo ainda, antes do início da peleja, para gritar os nomes dos craques que defendem suas cores preferidas com o objetivo de inflamá-los em busca da vitória. Visando homenagear o jogador nº 12, que tem ajudado o seu Clube a conquistar tantos triunfos significativos, a R.E. lança nesta edição para apontar qual é o maior torcedor do futebol brasileiro.
Todos os torcedores, de qualquer cidade brasileira, poderão tomar parte neste certame (19/12/1959)

CHEFE DA TORCIDA VASCAÍNA GANHOU O TROFÉU DE BRONZE
Mantendo-se nos primeiros postos desde as apurações iniciais, D.Dulce Rosalina triunfou na pesquisa da R.E.
Confirmando todas as expectativas, Dona Dulce Rosalina (Chefe da Torcida Vascaína) laureou-se na pesquisa instituída por esta revista para apontar o maior torcedor do futebol brasileiro. Mantendo o primeiro posto desde as primeiras apurações D. Dulce Rosalina venceu folgadamente, prova de que desfruta de grande simpatia entre os aficionados do Grêmio da Cruz de Malta.
Graças a sua bonita vitória no certame que movimentou grandes Torcidas dos principais Clubes brasileiros, D. Dulce Rosalina receberá como prêmio um lindo troféu de bronze. O laurel simbolizará para sempre a sua extraordinária conquista. 
A entrega do prêmio será em data que anunciaremos oportunamente.

RESULTADO FINAL
1º Dulce Rosalina (Vasco)           15.270
2º Domingos Ramalho (Vasco)    6.800
3º Jaime Carvalho (Flamengo)    5.420
4º Paulista (Fluminense)             5.150
5º Tarzan (Botafogo)                   3.730
6º D. Eliza (Corinthians)              1.510
Fonte: Revista do Esporte 19 de Dezembro de 1959 e 02 de Abril de 1960

TOV Dulce Rosalina Revista do Esporte 1959

TOV Dulce Rosalina Revista do Esporte 1959

TOV Dulce Rosalina Revista do Esporte 1959

TOV Dulce Rosalina Revista do Esporte 1960

TOV Dulce Rosalina Revista do Esporte 1960



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1945 A MORTE DO SAPO

“mais um, mais um, mais um !!!
Torcida do Vasco a gritar
1945                       A Morte do Sapo

A oposição a ditadura de Getúlio Vargas crescia ao longo do ano de 1945. Logo no mês de janeiro é realizado o Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, reunindo vários intelectuais que reivindicavam o fim da censura, liberdade de imprensa e eleições diretas para presidente. A tensão aumentava a cada mês, e o próprio presidente Vargas pressentia que dificilmente continuaria como ditador depois daquele ano.
Os sinais do fim da censura eram percebidos em todos os setores. Até mesmo a imprensa esportiva permitia que líderes de esquerda expressassem o pensamento. Luis Carlos Prestes dava uma longa entrevista ao JS dizendo o que ele pensava sobre o esporte[1]. Prestes[2] conseguiria reunir, neste ano, após sair da cadeia, mais de 100.000 pessoas em São Januário para um comício no final de maio. O estádio São Januário e os dirigentes do Vasco, acusados durante anos de servir a Ditadura Vargas, foi o palco de uma grande manifestação de oposição, mas pouco lembrado.
            A cessão do estádio para o comício de Prestes causou a saída do então presidente do Vasco, o Professor Castro Filho. Que passou a enfrentar forte oposição dentro do clube. Movidos pelo sentimento anticomunista, predominante em diversos setores da sociedade da época, vários sócios e dirigentes influentes do clube pedem a sua renúncia. Estes manifestantes acusavam o presidente de estar se aliando ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Assim o Jornal dos Sports descrevia laconicamente o fato: “crise política surgida no seio do Vasco da Gama. O professor Castro Filho, desgostoso com algumas críticas ao seu ato resolveu renunciar”[3]. Mesmo com o pedido de figuras de alto prestígio no clube, ele não reconsiderou sua posição. O dirigente do clube era apontado como um intelectual liberal, sem ligações com os comunistas.  Teve o apoio, inclusive, do escritor José Lins do Rego que, em sua crônica no Jornal dos Sports, dizia:  “perde o Vasco um grande presidente, um administrador de mão cheia” (COUTINHO, 1995, p.74). A crise política só não foi maior porque nesta mesma semana, o Vasco havia vencido o Flamengo de goleada por 5 a 1, o que provocou uma intensa agitação de sua torcida por toda a cidade. Segundo José Lins do Rego: “vi e ouvi uma alegria imensa pelos cafés e botequins, gritaria (...) O Vasco surrara o Flamengo, e isto era motivo para grandes festas”[4].
Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o retorno dos pracinhas, o clima no Brasil era de um intenso carnaval cívico com a preparação de grandes manifestações de apoio aos nossos combatentes, através de desfiles pelas ruas da capital. Em 18 de julho os primeiros soldados brasileiros que voltavam da Europa percorrem toda a Avenida Rio Branco, sendo calorosamente recebidos pela população.
No futebol carioca de 1945, a grande atração era o time do Vasco da Gama que confirmava a cada competição o favoritismo. Foi neste ano que o cartunista Lorenzo Molas, do Jornal dos Sports, criou o símbolo daquele time que nos próximos anos reinaria absoluto: “O Expresso da Vitória”.
            A grande inovação do Jornal dos Sports em 1945 foi criar duas colunas permanentes para aquela temporada: a de Álvaro Nascimento e a de Florita Costa. O primeiro era um defensor da torcida do Vasco, enquanto a segunda (esposa do técnico Flávio Costa), era a guardiã das cores rubro-negras. Por aí já se via que o embate entre os clubes era tão intenso que foi preciso dar espaço para cada um defender o seu lado. Isto para não falar na estréia de José Lins do Rego (HOLLANDA, 2004; COUTINHO 1995), escritor famoso e reconhecido torcedor do Flamengo. Cada coluna tinha um nome: a de Álvaro Nascimento chamava-se “O Vasco em Dia”; Florita Costa assinava em “Diário do Flamengo” e Zé Lins escrevia  em “Esporte e Vida”.
            Nestas colunas verifica-se toda movimentação dos torcedores antes e durante as partidas e percebe-se o salto de organização que as torcidas ganhavam. Assim, no Vasco havia o pomposo Departamento Central da Torcida Vascaína Organizada que “escalava” chefes de torcida do Vasco por diferentes regiões da cidade. João de Luca, principal chefe da torcida vascaína, avisa através de Álvaro do Nascimento, que no jogo contra o Fluminense nas Laranjeiras “haverá uma reunião de torcedores do Vasco sobre a localização dos torcedores da Cruz de Malta no estádio tricolor”. No dia seguinte, o Jornal dos Sports destacava as milhares de bandeiras do Vasco em Álvaro Chaves e, para Mario Filho, a vitória do Vasco só foi conseguida graças ao incentivo de sua torcida (JS, 2-9-45). Existia uma disputa pela paternidade da criação da primeira torcida organizada[5]. No Flamengo todos diziam que eles foram os pioneiros, enquanto o Vasco assegurava que isso foi um privilegio seu. Florita Costa não tem dúvidas: “nossos adversários imitam-nos organizam também suas torcidas”. No Vasco a organização de sua torcida era dividida em distritais por todo o Rio de Janeiro[6]. Em cada distrito havia um chefe de torcida, comandada pelo Diretor Mor:  João de Luca.
            As torcidas iam se organizando espontaneamente e com apoio dos clubes e de diversos setores importantes da imprensa esportiva. Em várias reportagens, os jornais aumentam o espaço das manifestações dos torcedores que anunciavam por estes canais de comunicação as suas atividades e eventos de amor explícito ao clube. No Vasco, até na geral se criou uma torcida organizada, liderada por José Lanes. No América, José Damasceno chefe da torcida rubra, se entusiasma com o hino do América, criado por Lamartine Babo e promete-lhe uma homenagem. A campanha da equipe do Vasco em 1945 evidenciava o que foi dito anteriormente. Em diversas partidas, é tributado aos torcedores o resultado positivo alcançado. A boa colocação do time de São Januário unia jogadores e torcedores, aliando a técnica excepcional em campo, com o entusiasmo das sociais, gerais e arquibancadas.
            Duas observações importantes: a torcida do Vasco tinha um grande líder (da mesma envergadura de Jaime de Carvalho) e a Charanga não tinha ainda presença permanente nos estádios com seus músicos. O Globo Sportivo[7] destacava a comemoração da vitória do Vasco apresentando charges da torcida vascaína liderada por João de Luca. No desenho, o líder é representado como um maestro gritando “Casaca” e vários torcedores repetindo. A outra notícia é divulgada pelo O Globo Sportivo[8]: “Futebol com música em Álvaro Chaves”. No corpo da matéria percebe-se a surpresa de ter os músicos tocando nas arquibancadas, durante o jogo em que o Flamengo goleou o São Cristóvão nas Laranjeiras por 6 a 1: “O interessante da goleada rubro-negra sobre os alvos, em Álvaro Chaves, é que a mesma se processou ao som da música. Com efeito, a torcida rubro-negra, que vem acompanhando incansavelmente seu team (...) levou domingo para o estádio das Laranjeiras, uma autêntica ‘jazz’, dando ao match um colorido diferente, pelo pitoresco”. Na mesma reportagem, há uma charge de Molas apresentando Jayme de Carvalho e vários torcedores com instrumentos brigando com o Pato Donald (símbolo do Botafogo).
            No mês de aniversário de seu clube o colunista do Jornal dos Sports, Álvaro Nascimento, indicava o comportamento ideal para a sua torcida: “a função do torcedor consiste em animar o seu quadro. Os indiferentes torcem para os seus adversários” (31-8-45). Ainda nesta semana, o cartunista Molas faz uma charge condecorando o torcedor vascaíno, como o 12° jogador. No desenho, João de Luca é apontado como o “herói de domingo que dirigiu a partida”.
            Em cada partida decisiva, o Jornal dos Sports dava mais apoio aos líderes das torcidas. Não eram grandes manchetes, nem grandes espaços (como recebiam os jogadores), no entanto, o jornal ia legitimando alguns líderes, que passavam a simbolizar a aliança da imprensa na promoção e na divulgação de suas atividades[9]. Uma manchete é taxativa: “Uma torcida pode muito”. Na reportagem, elogios aos torcedores e apoio para a nova forma de se organizar o público nos estádios: “o que se deve ressaltar é a dívida com a torcida que o team cruzmaltino assumiu com a torcida. De fato. O tento veio provar o quanto pode a união de um quadro social e a força de convicção dos que gritam incentivando a beira do campo os que correm e suam dentro do gramado do jogo. Com efeito, nunca João de Luca e o seu “casaca” foram tão úteis e oportunos ao Vasco como nesse domingo de calor, aflições e desmaios” (Jornal dos Sports 28-5-45).
Organizados e comandados por João de Luca[10], os torcedores do Vasco dão uma grande demonstração do poder de incentivo que as torcidas adquiriam cada vez mais. A reação da imprensa é de admiração: “(...) ressaltando a impressionante reação do Vasco na parte final da peleja, não se poderá deixar de reconhecer a poderosa colaboração que a ela emprestou a torcida cruzmaltina. Em verdade foi depois que irrompeu o ‘casaca, asaca’, nas sociais de São Januário que se prolongou no ritmo compassado do ‘Vasco, Vasco’ que o team cruzmaltino correu mais, a perseguir o goal com mais entusiasmo do que nunca”. (O Globo Sportivo, 31-8-45). Note-se que o grito vem das sociais (e não das arquibancadas), que era justamente o local onde se concentravam os torcedores uniformizados.
Entretanto, o clássico mais esperado daquele ano era Vasco e Flamengo. A disputa significava a revanche para o Vasco do campeonato de 1944, quando o time da Cruz de Malta já era o grande favorito. Florita Costa, conclama os seus torcedores para dar todo o apoio ao time: “a missão da torcida não é só de aplaudir os jogadores ao entrarem em campo (...) cumpre incentivá-los do primeiro ao último minuto” (JS,12/9/45).
O jogo é anunciado em tom épico pelo JS através da manchete: “O Flamengo para a Batalha com o Vasco” (13/9/45). Havia uma preocupação de não repetir os mesmos confrontos de torcedores e outros distúrbios do ano anterior. O Delegado de Jogos e Diversões pedia para não levarem bombas e fogos. Florita Costa, prevendo problemas, alertava: “haverá chefes de torcida para difundir instruções”. José Lins do Rego provoca a torcida vascaína: “Eu acredito no Sapo de Arubinha”. A maldição de Arubinha parecia que incomodava muito aos vascaínos pois até aquele ano, o Vasco não levantava um título desde 1936.
            Mario Filho, na véspera do jogo, reconhece que aquela partida teria contornos diferentes dos jogos anteriores e revela que a disputa nas arquibancadas seria uma competição à parte: “a torcida de cada candidato vem desempenhando um papel importante. Há o “Avante Flamengo!” e o “Com o Vasco onde estiver o Vasco”, cartazes e bandeiras desfraldadas. O estádio se divide em grupos de torcedores que se empenham em duelos. O que era raro num match, tornou-se comum, o obrigatório. Trava-se também entre as torcidas”. (JS,14/9/45).
Nesse primeiro turno do campeonato carioca, Vasco e Flamengo fazem uma partida sensacional em São Januário, com a vitória do time da “casa” por 2 a 1, em um jogo que bate recorde de renda. O jogo foi um marco divisor sobre o comportamento dos torcedores[11]. A vibração em todos os instantes era algo incomum em muitos jogos. O efeito criado de apoio permanente ao time do Vasco e a resposta da torcida do Flamengo era, talvez, uma novidade para a época. Mesmo depois de quase 20 anos de construção e com a presença de grandes públicos, o estádio de São Januário, parecia ainda não ter sido o cenário de demonstração de tanto carinho e dedicação das torcidas. A descrição da revista O Globo Sportivo (21-9-45) é irretocável: “o maior espetáculo já efetuado em São Januário. Não só pela afluência colossal do público que desde cedo começou a lotar o estádio como também pela vibração 100% que acompanha o clássico do primeiro ao último minuto. O entusiasmo com que as torcidas animaram os seus jogadores  foi em verdade algo de inacreditável.
O jogo em São Januário contou com grande platéia que acabou provocando desabamento de um muro com mais de 100 feridos. Mario Filho, repetia nesta época, dizendo que a saída para o público em excesso nos estádios, era a construção de uma grande praça de esportes, capaz de garantir o conforto ao crescente número de espectadores. Para ele a construção do Pacaembu em São Paulo, era o melhor exemplo que o Rio devia seguir: “até mesmo São Januário se tornou pequeno”, era preciso construir um Estádio Nacional, afirmava o jornalista.
O entusiasmo da torcida do Vasco era tão grande que no jogo contra o Canto do Rio em Niterói foi organizado pelos torcedores da Cruz de Mata uma viagem contando com “15.000 vão até Niterói. A maior caravana de todos os tempos”. Na mesma época a torcida do Flamengo se organizava para se deslocar até a zona Oeste: “caravanas do Flamengo: ponto de concentração no Café Rio Branco”.
Os anos de 1944 e 1945 reviveram com muita intensidade a maior rivalidade do futebol carioca a partir dos anos 1920 com a acirrada disputa para ser o time mais popular da cidade. O Vasco, detentor da maior torcida do Rio de Janeiro, na década de 1920, segundo o próprio Mario Filho, em Histórias do Flamengo[12], viu seu opositor ultrapassar na preferência popular durante os próximos anos. Seria a oportunidade ideal de retomar a liderança entre os cariocas, além da rixa ter contornos nacionais, visto a hegemonia do futebol carioca (através das locuções radiofônicas) em todo o território nacional.
O abrandamento da censura provocava uma liberação dos costumes, e as reações dos torcedores se traduziriam em provocações mais explícitas, revelando “o lado combativo, competitivo do futebol, no qual os atores adquirem um sentido de identidade apenas ao se definirem contra o adversário”. (GIULIANOTTI, 2002, p.218). O grande conflito deste ano foi durante a última partida do campeonato. Com o Vasco (já campeão) indo até a Gávea jogar com o Flamengo. O jogo foi marcado por inúmeras brigas dentro e fora de campo[13]. Diferente da omissão dos anos anteriores, alguns jornais da imprensa carioca passaram a informar sobre os conflitos entre as torcidas: “uma verdadeira batalha a pedradas se desencadeou nas arquibancadas, saindo feridos ou contundidos numerosos assistentes. Os ânimos estavam tão exaltados que o juiz, mesmo com uma multidão de soldados para garantir-lhe a pele, apanhou alguns cascudos, o que o  foi pena ser somente alguns cascudos”. (Correio da Manhã,  20-11-45).
            Outro periódico que repercutiu sobre o confronto nas arquibancadas e gerais no estádio da Gávea foi o jornal paulista A Gazeta Esportiva[14], em 24 de novembro de 1945: “repentinamente, um tremendo sururu rebentou nas gerais, onde estavam localizadas as torcidas do Flamengo e do Vasco. Algo de inenarrável tivemos ensejo de presenciar por essa ocasião, pois, aproximadamente, perto de 10.000 pessoas trocavam pancadarias, tijoladas, cassetadas e outras coisas mais, tais como tiroteio de morteiros de bombas, que eram arrojados de um lado para outro, contra a multidão, pela própria multidão. Um espetáculo deprimente! Nunca vimos coisa igual em nossa vida. Cercas eram arrancadas, assim como tijolos da geral, e, estes, cruzavam o ar, qual um autêntico bombardeio, atingido homens, crianças e senhoras (...)” (apud SILVA, 1999, p.175).
            O final do campeonato de 1945 foi uma apoteose para o Vasco que vence de forma invicta a competição. Para comemorar a vitória, a torcida vascaína fez uma passeata em plena Avenida Rio Branco, no centro do Rio. A mesma avenida que foi o palco de desfile dos pracinhas há poucos meses. A manchete “A Passeata dos Vascaínos”, dava o tom do ato que misturava política e futebol (a eleição presidencial seria naquela semana), e revelava o efeito carnavalizador sendo transportado dos estádios para as ruas da cidade: “O Clube de Regatas Vasco da Gama organizou para hoje, ao meio dia, uma passeata monstro (...) solicitando por intermédio da imprensa o comparecimento de toda torcida vascaína, inclusive os chefes das existentes em todos os bairros cariocas: concentração na Praça Mauá e desfile pela Av. Rio Branco rumo a diversos bairros. Organização da passeata 1ª parte ciclistas formando como bateristas, 2ª homenagem aos desportistas brasileiros com inúmeros painéis e alegoria, 3ª parte banda de musica e clarins, 4ª parte Expresso da Vitória, carro alegórico, 5ª parte “A morte do Sapo”, carro alegórico, 6ª “O almirante é amigo de todos”, carro alegórico, 7ª parte 200 automóveis ornamentados conduzindo diretores do clube, sócios e torcedores[15].
            O fato de a torcida carregar seus ídolos nos ombros não era uma novidade, nem a festa no estádio em comemoração ao título, mas a presença de torcedores no centro da capital do país, em um dia da semana, se confraternizando e festejando um título, era o sinal de respeito que esses torcedores alcançaram. Representam que uma nova era para o torcedor de futebol já estava presente.
Podemos considerar que o ano de 1945 foi o início efetivo da consolidação das torcidas organizadas (uniformizadas) no Rio. Após este ano, alguns torcedores se tornariam símbolos permanentes dos clubes e consolidariam a organização das suas torcidas nas arquibancadas e sociais. Cabiam a esses líderes das torcidas organizadas (uniformizadas), alcançar um difícil ponto de conciliação de sentimentos que pareciam incompatíveis: a paixão pelo clube e a tolerância com os torcedores rivais. Com o crescimento do tamanho dos estádios, esta tarefa seria ampliada.
Uma nova realidade se fazia sentir: a presença do torcedor mais do que nunca poderia ser esquecida. O futebol, como esporte e espetáculo, teria que contar ainda mais com a sua participação.  Entre os dirigentes, os sócios, os torcedores e a imprensa esportiva, era nitidamente perceptível que o grau de envolvimento afetivo e a mobilização gerada por esta coletividade de torcedores, teria que continuar. A partir daí as torcidas uniformizadas seriam integrantes e permanentes do noticiário futebolístico. Nos clubes, as suas reivindicações não poderiam ser mais ignoradas, apesar do continuísmo dos dirigentes, interessados no torcedor[16] distante da política nos clubes.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] Cf. JORNAL DOS SPORTS. Rio de Janeiro, 09 de setembro de 1945, p. 09. Na entrevista o líder do PCB afirma: “defendemos uma reivindicação popular de campos de football em cada bairro”.
[2] Em 18 de abril de 1945, Vargas promulga o Decreto-Lei 7474, concedendo anistia. Dois meses depois (15/7) ele estaria no Pacaembu, em outra grande manifestação.
[3] Cf. JORNAL DOS SPORTS. Rio de Janeiro, 16 de maio de 1945, p.01.
[4] Cf. O GLOBO SPORTIVO. Rio de Janeiro, 18 de maio de 1945, p.05.
[5] Até 1945, em nenhum momento a torcida organizada do Flamengo é chamada de Charanga (parece que este nome surgiu depois).
[6] Atualmente, a Força Jovem, principal torcida organizada do Vasco, divide a cidade em “famílias”, reunindo associados em diferentes áreas do Rio de Janeiro.
[7] Cf. ibid. Rio de Janeiro, 29 de junho de 1945, p. 16.
[8] Cf. O GLOBO SPORTIVO. Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1945, p. 06.
[9] Um exemplo disso é a pequena manchete “Vascaínos a postos”. Na matéria, é feito um pedido para os torcedores procurarem  seu líder: “as instruções para a concentração de vascaínos no estádio do Fluminense serão dadas na véspera no grande encontro pelo chefe da torcida vascaína João de Luca” (30-8-45).
[10] Ao mesmo tempo em que o torcedor é elogiado, seu papel dentro do clube é delimitado. Chamado de “o Marechal da Vitória”, João de Luca é um homem “modesto, sem pretensões a ocupar cargos na Diretoria e, no entanto, um cooperador eficiente, sempre disposto a trabalhar pelo Clube”.  (Jornal dos Sports, 21-8-45).
[11] O jogo é tão importante que é comparado ao Brasil e Argentina (1 a 5), de 1939, e ao Rio e São Paulo, de 1943 (Jogo do Chega). Partidas que provocaram grande expectativa e entraram para a história do futebol.
[12] Em diferentes páginas, Mario Filho reafirma o domínio da torcida vascaína nos anos 1920. Entre eles podemos destacar: “O crescimento do Vasco, então, dava para assustar. Não era só o clube de mais torcida, era o clube de mais dinheiro” (FILHO, 1966, p.22). “O Vasco, além de ser o campeão da cidade, era o clube de maior público” (FILHO, op.cit., p.29). O jornalista ainda explica o roubo e as manobras de torcedores do Flamengo, em 1927, para vencerem o concurso, promovido pelo Jornal do Brasil, para saber qual era “clube mais popular do Brasil”.
[13] Foi interrompido aos 26 minutos do segundo tempo em virtude de brigas entre os jogadores com o placar de 2 a 2 (SANDER, 2004). Nem o Jornal dos Sports, nem O Globo Sportivo noticiaram as brigas dos torcedores.
[14] A omissão dos dados sobre a violência entre os torcedores, pois somente se noticiou sobre a briga em campo entre jogadores, nos alertam sobre a dificuldade de dimensionar como eram estes conflitos sem procurar outras fontes de consulta e sem desconfiar do encobrimento proposital dos jornais cariocas de notícias desfavoráveis para a imagem do futebol da cidade.
[15] Cf. CORREIO DA MANHÃ. Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1945, p. 06.
[16] O escritor Paulo Coelho Neto, autor da História do Fluminense, em 1952, é criticado pelo historiador (SHIRTS, 1982, p.51) pois, segundo este,  o personagem do torcedor “é descrito de uma certa distância, elogia-se-o, deixando-se claro, ao mesmo tempo, que este tipo social não pertence aos titulares  ‘da grande,unida e alegre família’ ”.

Vasco Jornal Diretrizes 1945

Vasco Jornal O Globo Esportivo 1945