domingo, 9 de abril de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1987 GOL DO BALÃO

                                            “Na União da Torcidas, a Grandeza dos Clubes”
                                                                 Lema da A.B.T.O.

 1987                      Gol do Balão

Dulce Rosalina concedeu uma grande entrevista para o Jornal do Brasil no início de 1987. Na ocasião várias perguntas que depois viriam a ser sempre usadas contra as torcidas organizadas foram inquiridas[1]. Com respostas firmes e esclarecedoras, a torcedora não fugiu de nenhum tema e sempre de forma objetiva. Demonstrou conhecimento do assunto e preocupação com o que estava acontecendo.
O Jornal do Brasil era o principal veículo impresso no Rio de Janeiro na questão de “formação de opinião”. Suas reportagens logo ganhavam peso nas discussões em universidades ou nos bares que os intelectuais freqüentavam. Esta matéria traz a tona para o grande público os problemas que os torcedores conheciam e a imprensa começa a tomar conhecimento ou passa a querer divulgar.
O contato amigável e sempre gentil dos antigos líderes das torcidas com os jornalistas esportivos acabou criando laços de cumplicidade e camaradagem, o que dava a imprensa um certo prestigio entre os torcedores organizados. Uma outra abordagem mais crítica, mais investigadora e menos folclórica, era uma novidade. Seria este o caminho da imprensa esportiva que passou do apoio incondicional as torcidas a campanha contra as mesmas nos próximos anos.
Se a preocupação da imprensa esportiva ganhava uma nova configuração, o mesmo ocorria no seio das torcidas, o melhor exemplo foi a mudança das lideranças. Na Força Jovem, Eli Mendes, no comando desde 1971, vinha perdendo espaço por vários motivos (problemas pessoais, saúde e temperamento calmo). Algumas jovens lideranças reivindicavam maior participação e uma atitude mais independente diante do clube, nas decisões do dia-a-dia e maior agressividade entre os seus membros, ou seja, uma nova postura, uma nova identidade. O depoimento de Carlinhos Português, uma antiga liderança, nos permite entender o que acontecia: “nascia assim um grupo, garotos jovens  com pensamento bons e idéias renovadoras, assim começou a ser construída uma nova Força Jovem, no início tudo bem, tudo igual, amor, dedicação, lealdade, etc. Jovens absolutos como Marcelo He-Man, Alonso, Roberto Monteiro, Alexandre Cebola, Marcelo Cachaça entre outros, revolucionaram a Torcida, essa revolução trouxe benefícios, se tornando a Maior Torcida do Rio e do Brasil, se tornando respeitada, amada e odiada, (...) gente dentro da Torcida que se tornava ídolos dentro da mesma[2]
Também neste ano foi organizado em Porto Alegre, o I Congresso das Torcidas Organizadas do Brasil (ABTO). Uma importante iniciativa que juntou líderes de vários estados do país para discutir os problemas do futebol e a realidade de suas associações (entre elas o aumento da violência). Embora o encontro tivesse a intenção de novos congressos nos anos seguintes, a iniciativa não teve prosseguimento.
Um novo programa de televisão no mesmo estilo de “Conversa de Arquibancada” vai ao ar entre 1987 e 1989, era o “Papo de Arquibancada”, que, sem grandes recursos financeiros, em um canal de pouquíssima audiência (Canal 9 TV Corcovado) e péssima imagem, não teve o mesmo sucesso dos anteriores, sendo a última experiência na tv de levar os torcedores para debaterem.
Uma inovação entre as torcidas do Vasco e seu técnico surgiu em março de 1987, quando o jovem treinador Joel Santana resolveu se reunir com os torcedores organizados para discutir a escalação do elenco, contratações e a forma do time jogar. Aquela reunião não era a primeira vez que acontecia. Mas como iniciativa de um técnico, sim. “Não dizem que a voz do povo é a voz de Deus? Como não sou o dono da verdade, quero consultar os torcedores, que tem muito para nos dar, seja através de observações fazem por ai, seja através de dicas, sempre é útil”[3], conclui Joel.
Talvez por conhecer o clube e sua torcida, Joel Santana (foi ex-jogador nos anos 1970) concedeu um espaço que nenhum treinador tinha ousado oferecer. Ainda neste mês a banda de rock inglesa The Cure[4] esteve no Maracanã e os integrantes saíram encantados com os torcedores vascaínos: “nunca vi ninguém torcer desta forma. O espetáculo se torna muito alegre”.
Para muitos o mês de agosto rima com desgosto, mas para os vascaínos este mês é especial pois se comemora o aniversário do clube (dia 21) e foi nesta época que tivemos mais um motivo de alegria: o Vasco se tornou carioca com um gol de Tita.
Ídolo nos clubes anteriores (Flamengo, Grêmio e Internacional), o atacante chegou em São Januário no início de 1987 como a grande esperança da torcida diante de um novo craque. Em campo o atleta superou todas as expectativas. O título carioca de 1987 confirmou o desejo dos torcedores. Os gritos de “Dá-lhe Vasco, dá-lhe Vasco, olê, olê, olá” estavam mais fortes ainda neste dia[5].
Antes da hora do jogo um balão (era proibido soltar) surge na torcida do Vasco e vira a grande atração. Aliás, um balão no estádio, em dia de decisão (hora e local de fortes superstições) era o prenuncio de sorte ou azar. Subindo ele significava vitória, caindo ou pegando fogo, sinal de fracasso.
O balão fez uma trajetória inacreditável, subindo e caindo varia s vezes, provocando gritos e apupos das duas torcidas. Até que ele percorre o gramado e cai (segundo a lenda) no gol do Flamengo, para delírio dos vascaínos. O título estava garantido.
Para o campeonato brasileiro daquele ano havia um impasse entre a CBF e o Clube dos 13 (que reunia os principais clubes do Brasil), terminando com o Clube organizando a Copa União, com apoio da Rede Globo e outros grandes patrocinadores (por exemplo, a Coca-Cola). Era uma tentativa de “tornar o futebol mais moderno”, mas no fundo revelava o início do domínio da TV sobre o futebol. Para o historiador Hilário Franco Junior, a partir desta época a tv “confirmou o futebol como importante produto da sociedade de consumo e modificou a realidade financeira do setor” (2008 p.314). Foram os primeiros jogos do campeonato brasileiro transmitidos ao vivo para a mesma cidade em que ocorria a competição, mas o jogo que seria transmitido era sorteado na hora.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] O ano de 1986 foi marcado no futebol Brasileiro pela violência nos campos e nas arquibancadas. Por que os torcedores passaram a se agredir dessa maneira? Isso nada tem a ver com a paixão do futebol. Poderia haver uma explicação social, talvez econômico? Há 30 anos, como se comportava o torcedor? Percebe-se que você não gosta ou não aprova o comportamento de muitos Chefes de Torcida. E por eles serem profissionais de arquibancada? Fonte: Jornal do Brasil 08 de Janeiro de 1987
[2]  Em outro momento Carlinhos Portugues aponta o segredo  deste coletivo: “nessa fase surge à frente da Torcida um grupo com muita vontade e disposição que começa um processo de transformação na Força Jovem inicialmente como colaboradores, em seguida como diretores. Este grupo era muito unido e apesar de algumas divergências naturais sempre fechavam por uma Força Jovem maior e melhor, havia o espírito de união, tanto que tudo que era resolvido era de comum acordo entre o grupo diretor.(...)Fernando Coelho, Marcondes, Léo da Pavuna, Léo do Méier, Marquinhos Thomas, Ovo, Chefe, Bagulhão, Manteiga, Japão, Madureira, Zé David, Arlindo Gordo, Hadson, André Negão, Assis Negão, Pelé, Sagat, Índio, Eduardo Perpetua, Paulinho Shock entre outros”, revela Carlinhos Português. Fonte: torcidasdovascoblogspot.com
[3] Fonte: Jornal O Globo 14 de Março de 1987.
[4] Disse Roberto Smith líder do The Cure. Fonte: Jornal do Brasil 30 de Março de 1987.
[5] A Torcida do Vasco homenageou o Vascaíno Nelson Piquet, que pela manhã obtivera importante vitória no circuito de Budapeste, com uma alegre bandeira em que sua Willians era reproduzida nas cores originais.

Vasco Jornal O Globo 1987

Vasco Maracanã 1987




quarta-feira, 5 de abril de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1986 TELÊ-DIDI-PELÉ

                                                                       “Sem Roberto a Seleção vai Perder”
                                                                               faixa no aeroporto

1986                        Telê-Didi-Pelé

Quem era torcedor vascaíno e chegava mais cedo para ver a preliminar entre os juvenis já conhecia o talento de Romário desde 1983[1]. Sua velocidade, suas arrancadas, dribles e gols já eram comemorados pelos torcedores que vislumbravam um futuro artilheiro para o clube de São Januário.
Em 1986 Romário assegurou definitivamente o lugar de titular e, junto de Roberto, compôs uma dupla infernal. O melhor exemplo foi o que aconteceu na decisão da Taça Guanabara no dia 21 de abril quando Vasco e Flamengo lotaram o Maracanã (mais de 120 mil) e Romário fez os dois gols da vitória. Foi uma festa nas arquibancadas que se prolongou por toda a cidade: “eram cânticos de guerra, batalha de bandeiras e muito carnaval, tudo misturado. Na arquibancada, parte da bateria da Escola de Samba Império Serrano empurrava o Vasco em campo. O tradicional “Casaca, casaca, zaca, zaca, zaca.../A turma é boa, é mesmo da fuzarca...” se misturava com o refrão do samba-enredo mais popular do Carnaval: “Me, dá, me dá, me dá o que  é meu/ Foram oito anos (adaptação para o tempo em que o Vasco ficou sem o título da Taça Guanabara) que alguém comeu...”[2].
Antes da decisão, Renato Aragão e Pelé, dois históricos torcedores do Vasco, tinham calado a torcida do Flamengo, ao entrarem juntos para gravarem cenas do filme “O Rei e os Trapalhões”. Na ocasião todas as imagens foram do lado direito, junto da torcida vascaína. A torcida do Flamengo morta de inveja só assistia de longe e via os protagonistas ensaiarem jogadas e correrem para comemorar junto a torcida da Cruz de Malta.
Enquanto o filme de Didi (Renato Aragão) fazia enorme sucesso com uma bilheteria de mais de 3,5 milhões de espectadores, o cinema nacional ficava mais pobre com o fim do Canal 100[3] em 1986. Em função da extinção da lei que permitia a propaganda nos cinejornais, os produtores daquela equipe encerraram as suas atividades. A própria decisão de 1986 foi filmada pelo pessoal do canal 100. Uma perda irreparável para o futebol e para os torcedores que a cada sessão se encantava com a magia das imagens que só o canal 100 conseguia nos proporcionar.
Como era ano de Copa do Mundo no México todas as atenções estavam voltadas para ver o Brasil repetir o que fez naquele país em 1970. Desde o carnaval com o desfile da Beija-Flor com o enredo “O mundo é uma bola”, que as torcidas se preparavam para fazer um novo carnaval em junho. Neste desfile da escola de Nilópolis várias torcidas organizadas foram chamadas para participar e formaram uma ala específica.
Sem nenhum jogador convocado, ao contrario dos adversários cariocas, parte da torcida do Vasco foi em maio no aeroporto para o embarque protestar levando faixas e cartazes pela ausência de Roberto na seleção. A derrota para a França nos pênaltis serviu de consolo para a torcida vascaína e a certeza de que com o artilheiro de São Januário as chances do Brasil seriam melhores. De quebra, poderia gozar de Zico e Sócrates, jogadores do Flamengo, que perderam pênaltis neste jogo decisivo.
Com a transmissão dos jogos tela TV, o melhor veio de um comportamento dos torcedores mexicanos que foi exportado para todo o Brasil: a ola.
Virou uma verdadeira febre entre as torcidas brasileiras fazer a “ola” quando os estádios ficavam cheios, repetindo a coreografia inventada pelos mexicanos. Milhares de pessoas em filas verticais iam levantando os braços em sintonia perfeita por toda a extensão da arquibancada.
O jornalista Nelson Mota, cobrindo para o jornal O Globo, relata a impressão do fenômeno: “o papo é sobre a ‘ola’ nos estádios, uma das grandes sensações desta Copa, uma criação espontânea da torcida mexicana que está deslumbrando o mundo com sua espetacular plasticidade e dinâmica, como se fosse uma obra de arte de massa”[4].
Se no primeiro semestre tudo perecia a nosso favor, no segundo, a sorte virou de lado, dentro e fora dos gramados. Perdíamos o campeonato carioca com um time superior ao rival e no começo do campeonato brasileiro, vários torcedores ficaram feridos em um confronto de torcidas em Vitória (ES). Na ocasião o jornalista Sergio Cabral dedicou toda a sua coluna[5] para condenar o fato: “a torcida carioca foi apedrejada, recebeu paulada, etc. E nenhuma autoridade local tomou qualquer providência para protegê-la. Foi sem dúvida, um domingo amargo para aqueles torcedores que viajaram em cinco ônibus (...)É um sacrifício que só a paixão do futebol pode explicar. São portanto, pessoas que merecem todo o carinho de quem deseja que o Brasil tenha um futebol sadio e vibrante”, conclui.
Ainda no final do ano, um jogo entre Vasco e Corinthians em São Januário, terminou em confusão dentro e fora do estádio. Com a infiltração de torcedores do Flamengo junto aos paulistas, acirrou ainda mais o animo dos torcedores. Na véspera, numa reunião dos torcedores vascaínos com o comandante do 4° Batalhão sobre os problemas que poderiam ocorrer. No entanto, com policiais despreparados para os conflitos nos grandes eventos esportivos, não conseguiram deter uma briga que a imprensa deu grande repercussão nos dias seguintes.
Foram vários jogos neste fim de ano que terminaram em confusão envolvendo várias torcidas[6] de diferentes estados. Para a imprensa esportiva carioca, começava a mudar a forma de ver as torcidas organizadas. Nos próximos anos o tom depreciativo começa a ganhar cada vez mais espaço.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1]  Na categoria juvenil e juniores do Vasco, consegue por três anos seguidos ser artilheiro e campeão carioca nos anos de 1982,1983 e 1984. No profissional  começou nos anos seguinte e já no Campeonato Carioca de 1985 foi vice-artilheiro. Terminou artilheiro do campeonato carioca de 1986 (20 gols) e 87 (16 gols).
[2] Fonte Revista Placar 28 de Abril de 1986.
[3] Sobre o assunto, Carlinhos Português lembra a paródia da música: “Garota eu sou da Força Jovem, vou ver meu time no cinema, freqüento a Praia de Ipanema,  eu vou curtir uma legal, Eu dou a volta, eu picho muro, eu fumo um bagulho, assalto banco, na minha vida ninguém manda não, eu vou onde vai o Vascão, eu dou porrada pra valer, eu boto a Jovem pra correr, antes do jogo eu vou beber, durante o jogo eu vou torcer” (versão de De repente Califórnia de Lulu Santos).
[4] Nelson Motta, Confissões de um Torcedor. Objetiva. Rio de Janeiro. 1998, p. 64.
[5] Fonte: Jornal O Globo Coluna Papo de Esquina de Sérgio Cabral 25 de Setembro de 1986.
[6] UM GRITO DE PAZ NA TORCIDA, VIOLÊNCIA ESTÁ ACABANDO COM FESTA DO FUTEBOL: Briga no Fla-Flu e no Vasco X Corinthians.. Fonte: Jornal do Brasil 18 de Dezembro de 1986

Vasco Maracanã 1986

Vasco São Januário 1986

domingo, 2 de abril de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1985 EDDIE

       “Que bonito é o início da constelação de estrelas amarelas na bandeira do Vascão”
                                                      Erasmo Carlos

1985                               Eddie
No final de 1984 e começo de 1985 uma novela na Rede Globo fez grande sucesso e utilizou o futebol como um de seus temas principais. Era a novela Vereda Tropical, que trazia o personagem Luca, interpretado pelo ator Mário Gomes, No jogo entre o Corinthians e o Vasco no começo do campeonato brasileiro de 1985 foram usadas cenas reais do jogo misturadas com outras encenadas. Na novela o atacante vivia o drama de sair de um clube da 2ª divisão e jogar no Corinthians, clube que o havia contratado. Na hora do gol do atacante Serginho, Luca corre em direção ao mesmo e comemora junto, como se o gol da ficção fosse dele.
Ao final, com a frustração do resultado real (empate em 1 a 1) quem comemorou foram os vascaínos, que ouviam os paulistas reclamarem de seu time gritando após o apito do juiz: “Luca, Luca”.
No primeiro carnaval no sambódromo em 1984, as torcidas organizadas do Vasco desfilaram pela Portela (no primeiro e único título da escola de Madureira até 2016 na Passarela do Samba). No ano de 1985 os vascaínos desfilariam pela Tradição, uma escola criada em função de uma dissidência na própria Portela. Entre os novos líderes da nova agremiação carnavalesca está Sergio Aiub, da torcida do Fluminense, que chamou todos os amigos das outras torcidas.
O clássico Baile do Almirante realizado em São Januário durante vários anos, entrava em decadência neste período, não foi de um dia para o outro, mas acompanhou uma tendência do carnaval carioca de esvaziamento nos bailes dos clubes. Uma tradição de vários anos era perdida para sempre.
            Ainda dois acontecimentos fora do campo esportivo devem ser registrados ao lembrar o ano de 1985: o primeiro, no início de janeiro (dia 11) quando se apresentou pela primeira vez no Brasil no Rock in Rio, a banda de heavy metal Iron Maiden, junto ao grupo (que muitos não conheciam) vinham as imagens da banda. Uma delas seria incorporada pela Força Jovem do Vasco a partir de 1989 em suas camisas, bandeiras, adesivos e demais distintivos. Trata-se de Eddie, logo ele seria identificado por todas as torcidas como um dos melhores símbolos das organizadas.
            Ainda em 1985, em março desembarcava na cidade uma outra banda que formada apenas por adolescentes de até 16 anos. Eram os Menudos que fariam um único show na cidade maravilhosa no estádio de São Januário. Nem o presidente Getúlio Vargas em pleno Estado Novo levou tantas pessoas. A menudomania virou uma febre entre as adolescentes que conseguiram arrastar seus pais para ver os jovens cantores. Cerca de 80.000 pessoas estiveram presentes naquele dia lotando o gramado e as demais dependências do estádio. Não era futebol mas lá estavam elementos estruturantes presentes no futebol dos anos 1980: a ganância dos dirigentes, a busca do lucro fácil, a superlotação, a falta de respeito com o público e o uso do estádio para outros fins.
No futebol mundial o fato de maior repercussão foi a decisão da Copa dos Campeões Europeus, em maio de 1985, entre Juventus (Itália) e o Liverpool (Inglaterra). Colocando na pauta permanente da imprensa mundial o problema da violência crescente entre as torcidas no continente europeu. Era a tragédia de Heysel (estádio na Bélgica), nome do conflito provocado principalmente pelos “hooligans” ingleses causando a morte de dezenas de pessoas, além de centenas de feridos.
            A violência entre os torcedores ingleses durante os campeonatos locais já vinha ganhando repercussão internacional na imprensa e até no Brasil, as imagens de brigas e confusões já apareciam sem muito alarde, sem maiores análises, eram tratadas como manifestações da cultura local, apenas com algo típico da rebeldia juvenil inglesa, como o movimento punk.
            Transportado de fato esportivo em fato criminal, a reação inicial da imprensa foi de criminalizar qualquer confronto de torcedores e passar a fazer campanhas sistemáticas contra os “bandidos” que se infestavam pelos estádios. Aos poucos surgem as primeiras análises mais pormenorizadas e substanciais tentando entender as variáveis do problema e sugerindo medidas de prevenção, mudanças na legislação e campanhas educativas.
            As alianças entre as torcidas de Vasco e Palmeiras e, por outro lado, de Flamengo e Corinthians, eram evidenciadas durante as partidas entre os clubes e pela seleção brasileira. Ao disputar as Eliminatórias para a Copa do México em 1986, o Brasil recebe o Paraguai no Maracanã. Na ocasião, as torcidas aliadas ficam do mesmo lado e provocam as rivais: “Eli Mendes (FJV) ficou preocupado em defender os amigos que vieram de São Paulo num ônibus especial, eram Torcidas Organizadas do Palmeiras, como a TUP, a Mancha Verde e a Falange Verde. Eles foram agredidos por torcedores do Flamengo que saíram do outro lado, sem as camisas para não ser identificados. “É a turma da Torcida Jovem do Flamengo, que não perdoa os Palmeirenses”, acusa Eli, e acrescenta. “Tinha gente da Torcida Jovem e dos Gaviões da Fiel misturada com os Rubros Negros”[1].
Uma pausa na rivalidade entre as torcidas cariocas foi dada na final do campeonato brasileiro de 1985, quando o Bangu e o Coritiba disputam o título no Maracanã. Na ocasião, o clube de Moça Bonita contou com o apoio de todas as torcidas cariocas, inclusive a do Vasco. Milhares de torcedores cariocas levaram suas bandeiras e camisas para incentivar o clube carioca que só não teve o apoio da TOV que preferiu ficar do lado dos curitibanos, em gratidão pelo tratamento que os torcedores do Coritiba deram aos vascaínos nos anos anteriores.
Na política interna do clube as atenções estavam voltadas para as eleições em novembro. Se Agathyrno Gomes foi o dirigente mais importante no clube para as torcidas organizadas nos anos 1970, a figura carismática de Eurico Miranda foi se consolidando ao longo dos anos 1980. Em 1985, praticamente todas principais lideranças das torcidas organizadas apoiavam sua candidatura para presidente contra o candidato da situação, Antonio Soares Calçada[2].
Com faixas nas arquibancadas desde julho, o torcedor vascaíno tinha plena identificação com o dirigente que, ao contrário de Calçada, visto como alguém frio, burocrata, de estilo empresarial e distante das pessoas mais simples, Eurico encarnava o personagem dirigente-torcedor. Suas atitudes, seus gestos expansivos, sua maneira de ser agressiva e contestadora, logo se tornou quase uma religião em São Januário. O cartola vai ser visto como o único cartola que “entendia o sofrimento e a dedicação dos torcedores que freqüentam as arquibancadas do Brasil”.
Com a saída de Otávio Pinto Guimarães da Federação Carioca de Futebol e a sua substituição por Eduardo Vianna, conhecido como Caixa D’água, Eurico ganha um grande aliado e os dois vão construindo uma aliança política que renderia frutos políticos para ambos. Cada um com seus interesses, as vezes contraditórios, mas para os inimigos da dupla, esta união era motivada por interesses de usar qualquer recurso para se manterem no poder.
            A grande novidade do elenco vascaíno em 1985 foi a entrada de Romário no time titular a partir do segundo semestre do ano. O jogador revela desde a sua primeira temporada no campeonato carioca a vocação para artilheiro, sendo o vice-artilheiro da competição. Vale destacar o primeiro gol sobre o Flamengo em sua primeira partida contra o rival, na goleada de 4 a 0.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Revista Placar .
[2] A eleição ocorre em 12 de novembro – Calçada (2961 votos) vence Eurico Miranda (2592 votos). Após a eleição fez uma composição política, nomeando o mesmo Eurico para ser seu vice-presidente de futebol.


Vasco Jornal O Globo 1985

Vasco 1985

quarta-feira, 29 de março de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1984 FINAL CARIOCA

                                                                                     “Fora Calçada”
                                                                             Pichação em São Januário

1984                       Final Carioca

Depois de uma péssima campanha no campeonato carioca de 1983, os dirigentes vascaínos pressionados pela torcida resolvem fazer uma série de contratações e montar uma equipe forte.  Foi o que aconteceu: o time chegou as finais do brasileiro de 1984 disputando o título com o Fluminense.
            Era uma final inédita desde que o campeonato brasileiro começou a ser disputado, entre dois clubes da mesma cidade. A expectativa geral de grandes públicos nas finais e recordes de arrecadação de renda. Nas semifinais os dois clubes cariocas já tinham demonstrado a força de suas galeras com o Maracanã lotado apenas com as torcidas cariocas nos jogos entre Vasco e Grêmio e entre Fluminense e Corinthians.
            Nas finais foram dois jogos com mais de 100 mil pessoas que travaram uma disputa acalorada no estádio. De um lado o tricolor e o já tradicional canto; “A benção João de Deus”, de outro, a torcida vascaína contando suas músicas a plenos pulmões e o mesmo entusiasmo. Na última partida o duelo das torcidas foi interrompido para a união em torno do grito das “Diretas Já”. No período em que o país foi tomado por imensas multidões que se reuniam nas ruas pedindo a volta das eleições diretas para presidente através da Emenda Constitucional, em pleno estádio do Maracanã as duas torcidas cantavam “um,dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil”. Era uma manifestação espontânea que surpreendeu a todos, inclusive aqueles que achavam que o futebol só servia para alienar as pessoas.
            Como sempre acontecia nos jogos decisivos, os jornais reservavam um espaço para explicar o que era uma torcida organizada e como aquela festa toda era montada, sempre destacando o esforço e o sacrifício dos torcedores: “eles chegam ao Estádio com horas de antecedência, viajam com seus times para qualquer lugar, gritam, xingam, aplaudem, reclamam dos juízes, e as vezes, ainda brigam. Eles se agrupam nas chamadas Torcidas Organizadas e fazem de tudo para ver seu time deixar o campo com a vitórias. Ontem, no Maracanã, estavam presentes dezenas de Torcidas Organizadas: Vasquita, Motivascão, Vasbicão, Influente, Young Flu, Fiel Tricolor, Dragões Tricolores, enfim muitas facções do Vasco e Fluminense”. Outra reportagem registra o uso de fumaças pelos vascaínos pela primeira vez: “Uma novidade paulista chega ao Rio, para o primeiro jogo da decisão do Campeonato Brasileiro entre Vasco e Fluminense. As Torcidas do Vasco, seguindo o exemplo do Palmeiras e Corinthians, encomendaram 50 tubos de fumaça colorida e garantem que farão um espetáculo maravilhoso, na entrada de seu time em campo. Um dos Diretores da Força Jovem (considerada a mais fanática do Clube), José Alberto Pereira, o Beto Metralha, disse que a fumaça tem as cores vermelha, preta e branca e vai saudar o time”.
            Neste período o futebol italiano campeão do mundo em 1982, dominava o futebol internacional, contratando os melhores jogadores do mundo para atuarem em seu país. Com o Brasil o assédio dos italianos não foi diferente. Praticamente 30% dos jogadores da seleção brasileira de 1982 atuavam na Itália e as investidas prosseguiam. Falcão, Sócrates, Zico, Edinho, Cerezzo, Júnior, Pedrinho, Dirceu já estavam lá.
            A intensa mercantilização do futebol foi se consolidando e eram cada vez mais visíveis as mudanças que se faziam na “economia da bola”. As camisas passavam a contar com as propagandas desde 1983, o assédio de clubes europeus se intensificava, inclusive sobre jovens promessas, como Geovani, Mauricinho, Bebeto, Branco etc.
            O presidente Calçada foi alvo de inúmeros protestos em função da venda de vários jogadores para o exterior neste período. O problema se estendia para os outros clubes, a relação entre dirigentes e torcedores eram constantemente estremecidas a partir deste período com inúmeras acusações de transações feitas de forma escusa e de enriquecimento dos dirigentes.
            O medo da torcida tinha uma razão clara o Vasco com vice-campeão brasileiro e com vários jogadores na seleção era um dos alvos preferidos dos clubes estrangeiros. Em junho o técnico interino da seleção Edu Coimbra, então técnico do Vasco, convoca a seleção para os três únicos jogos do Brasil. Roberto, artilheiro do campeonato brasileiro fazia sua ultima apresentação pelo Brasil.
            Entre julho e setembro de 1984, as relações da diretoria do Vasco (especialmente o presidente Calçada) e as torcidas organizadas do clube estiveram bastante tensas. A dificuldade na renovação de contrato com Roberto e as derrotas provocaram uma onde de protestos que estremeceram o bom ambiente do início do ano. Eis algumas manchetes dos jornais: TORCIDA DO VASCO NÃO IRÁ VER JOGO EM CAMPOS, CLUBE SE VINGA E BARRA OS TORCEDORES NA PORTA, GRANDE MANIFESTAÇÃO EM SÃO JANUÁRIO, TORCIDA AMEAÇA QUEBRAR O VASCO.Numa das manifestações o grupo levou cartazes que diziam: Presidente Mercenário, Fora Diretoria Incompetente, Calçada Na Rua, Já e Aqui Jaz Calçada”.
            Não só o dirigente foi o alvo das críticas, um manifesto é escrito e entregue a imprensa prometendo o boicote dos torcedores aos jogos do Vasco em Campos e Volta Redonda. Entre os assinantes do documento estavam: Dulce Rosalina da Renovascão, João Teixeira da Vasbicão, Amâncio César da TOV, Eli Mendes da Força Jovem, Ivan da Motivascão e Geraldo da Furacão da Colina”.
            O presidente parte para o ataque e acusa os torcedores de receberem dinheiro do clube para as viagens e de não serem sócios e daí não terem legitimidade para fazer as críticas: ““Alguns torcedores que assinaram o manifesto, nem sócios do Vasco são. Então, com que direito acham que podem dar palpites nas decisões dos dirigentes? Alguns dos que estão liderando o boicote ao time, anunciando que não irão a Campos, volta e meia organizam caravanas com o auxílio do Clube, que financia parte do aluguel dos ônibus para as viagens”, conclui o dirigente.
            Do lado dos torcedores havia reações mais pacíficas e outras mais agressivas. Alguns sugeriam pichar os muros, outros diziam que deveria haver quebra-quebra e ameaçaram jogar ovos no presidente na hora que ele fosse entrar no clube. Um torcedor resumiu a situação: “estamos cansados de tudo isto. Chegou a hora de mudar, O Vasco não é um estabelecimento para vender seus jogadores”.
            Em setembro o alvo é a federação carioca de futebol que não aceitou os pedidos do presidente da ASTORJ, Wilson Amorin, para a redução do preço dos ingressos: “o Conselho Arbitral da Federação decidiu por 8 votos a 2, manter os novos preços de ingressos de arquibancada e geral”. Os torcedores, revoltados prometeram abandonar as arquibancadas em todos os estádios e ocuparem apenas as gerais. Ely Mendes (FJV), prometeu liderar sua torcida para realizar a manifestação.
            A última grande manifestação da torcida foi promover um protesto diferente fazendo um silêncio total como se não tivessem torcedores no estádio. Além disso, não levaram bandeiras ou faixas.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.

 
Vasco Jornal do Brasil 1984

Vasco Jornal Última Hora 1984












domingo, 26 de março de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1983 PORCO COM BACALHAU

                                 “Domingo, eu vou ao Maracanã, vou torcer pro time que sou fã”
                                              Canto preferido de todas as torcidas nas arquibancadas
1983                       Porco com Bacalhau

Disputado no primeiro semestre de 1983, o campeonato brasileiro consolidava a aliança que se tornaria histórica entre as torcidas de Vasco e Palmeiras. Mesmo com dois jogos entre os dois clubes em abril, a tônica dominante entre as torcidas era assegurar os laços de união e confraternização. Na ocasião dos jogos foram feitos churrascos para os paulistas organizados pelos cariocas na partida no Rio de Janeiro e recepção calorosa aos vascaínos em São Paulo. No mesmo campeonato a aliança seria testada no confronto entre Vasco e Corinthians no Morumbi.
            Vale lembrar que neste ano (em janeiro) era fundada a Mancha Verde do Palmeiras, que se tornou a principal torcida desde então. Esta torcida uniformizada surgiu em função da união de outras torcidas do clube. A Mancha Verde, conforme veremos nos próximos capítulos, revolucionou o conceito de torcida. No âmbito interno do clube, seu objetivo era criar um movimento nas arquibancadas a altura da tradição do Palmeiras.
Neste ano acontece uma grande confusão envolvendo as torcidas de Vasco e Corinthians em São Paulo. Não faltaram críticas dos cariocas com relação ao comportamento dos policiais paulistas que se omitiram diante das agressões. A Diretoria do Vasco ficou de tomar providências junto a CBF e a Federação Paulista no sentido de apurar responsabilidades. A imprensa carioca registrou o sufoco na volta para o Rio de Janeiro: “a viagem prevista para oito horas no máximo, durou cerca de 13 horas, em conseqüência das agressões dos torcedores paulistas, inconformados com o resultado do jogo. Vários ônibus dos torcedores cariocas foram apedrejados na saída do Morumbi, alguns deles tiveram os vidros estilhaçados e torcedores atingidos por pedras e paus, conforme denúncia dos Líderes de Torcida. E as provocações e agressões continuam até a saída da capital paulista, já no acesso a Via Dutra”[1].
            Poucos dias depois o Jornal O Globo, que nos próximos anos faria intensa campanha contra as torcidas organizadas, dá voz aos vascaínos que prometem vingança no jogo de volta do Corinthians no Rio: “ainda revoltados com as agressões sofridas no Morumbi, após o jogo contra o Corinthians, alguns líderes de Torcidas Organizadas do Vasco compareceram ontem a noite a São Januário para comunicar aos dirigentes que agirão da mesma maneira em relação aos torcedores paulistas, quando o Corinthians vier enfrentar o Vasco no Maracanã no fim do mês”. Prossegue a reportagem com a anunciada revanche prometida pelos cariocas: “já estamos cansados de sofrer todo o tipo de agressão fora do Rio e tratar com gentilezas os torcedores dos outros Estados no Maracanã. Agora vamos dar o troco, especialmente nos corinthianos, que nos atacaram com paus e pedras no Morumbi”, prometeu Eli Mendes, Chefe da Força Jovem[2].
Demonstrando que a sua linha editorial ainda era de apoio aos torcedores organizados, a imprensa continuava noticiando as viagens dos torcedores para acompanhar o time. O sacrifício dos torcedores que viajaram 26 horas para a Bahia era o destaque do jornal para contar a dedicação e amor ao clube das torcidas organizadas. Na reportagem predomina a visão romântica dos torcedores empenhados em levar o nome do clube aos mais distantes estádios do Brasil.
As iniciativas de pacificação entre as torcidas ainda ganhavam eco entre os líderes, bem como a solicitação de medidas punitivas para os agressores e os clubes eram reivindicadas pelas lideranças. Eram soluções viáveis naqueles anos que os órgãos responsáveis não souberam levar adiante. O título da reportagem ilustra a situação vivida: TORCEDORES DO VASCO CONDENAM A VIOLÊNCIA. E GARATEM A SEGURANÇA DOS CORINTHIANOS. “Se depender das Torcidas Organizadas do Vasco a paz está decretada na guerra que vem repetindo a cada rodada da Taça Ouro, em jogos de equipes de Estados diferentes. Ontem, grande parte das 42 facções do Vasco, esteve em São Januário e houve a garantia que os torcedores corinthianos que vierem ao Rio amanhã poderão torcer e retornar em paz para São Paulo”[3].
Algumas medidas simples foram tomada pelo poder público para melhorar as condições dos estádios. Ao assumir o governo do Estado do Rio de Janeiro, o governador Leonel Brizola nomeou para a presidência da SUDERJ Jorge Roberto da Silveira. Entre as primeiras medidas do novo secretario estava a reforma da Geral do Maracanã, com a elevação do piso em 50 cm.
            A geral era o local mais barato do estádio, em compensação tinha uma visão prejudicada já que ficava abaixo do piso do gramado. Em muitos locais era difícil enxergar a bola, somente a perna dos jogadores ficava ao alcance da visão.
            Esta obra foi a primeira intervenção de algum governo desde a criação do estádio em 1950. Embora a visão continuasse difícil em alguns pontos, a atuação do secretário foi elogiada pelos torcedores que consideravam o político um homem democrático e preocupado em estabelecer um diálogo com as torcidas. Em 1986 quando saiu do cargo para concorrer a deputado estadual, Jorge Roberto contou com o apoio da maior parte das lideranças das torcidas organizadas.
Depois de Sinatra em 1980, em junho deste ano o Maracanã foi palco de uma banda de rock pesado que muitos brasileiros desconheciam: o Kiss, com seu visual característico de máscaras e roupas pretas, levando mais de 100 mil pessoas ao estádio, antecipando a viabilidade comercial do Brasil ser também a rota comercial dos grandes shows de rock. Depois do Rock in Rio em 1985, Sting em 1987 e Tina Turner em 1988, também conseguiram levar multidões ao estádio Mario Filho.
Após vender Pedrinho e Elói para o futebol europeu, o Vasco via a ascensão do Fluminense com a dupla Assis e Washington (o casal 20) arrancarem para o tricampeonato (1983-84-85). E o público carioca passou a ouvir no lugar de “a benção João de Deus”, a música “Recordar é Viver, Assis acabou com você”. Logo esta canção seria incorporada por todas as outras quando um atleta virava o carrasco do rival.
Na TV, sem a transmissão direta dos jogos, restava ao torcedor acompanhar o compacto da TVE sempre as 20 horas (os jogos terminavam as 19h). Em seguida o debate e a mesa redonda comandada pelo locutor Januário Garcia, com o bordão “taí o que voce queria, bola rolando...”. Com a presença de Luiz Mendes, Sergio Noronha, Achilles Chirol, Washington Rodrigues e jogadores ou tecnicos convidados. Em seguida, as 22 horas mudar para os “Gols do Fantático”. No rádioesportivo este seria o último ano do locutor José Carlos Araújo, o Garotinho, comandar a Rádio Nacional. Ele passaria a ser o principal locutor da Radio Globo nos próximos anos e o mais ouvido da galera.
            Para o campeonato carioca de 1983 as esperanças estavam depositadas nas jovens estrelas do clube, principalmente Geovani que acabava de conquistar o campeonato mundial de juniores. O meia foi considerado o melhor jogador do torneio e grande esperança da torcida. A imprensa registrava a chegada doa jogadores ao Brasil e a recepção da torcida: “ a Força Jovem e Renovascão prestam homenagem aos jogadores, Geovani (Campeão do Mundial de Seleções Junior) e Ernani (Campeão do Torneio de Toullon pela Seleção Brasileira), com placas comemorativas. “A Torcida está satisfeita com o desempenho dos dois, além da oportunidade de ver os jogadores de seu time nas três Seleções Brasileiras, Junior, Novos e Principal.” disse Eli Mendes[4]. Apesar de tudo, o time decepciona e termina o campeonato em péssima posição. Para 1984, mudanças teriam que ser feitas...
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal O Globo 15 de Março de 1983.
[2] Fonte: Jornal O Globo 16 de Março de 1983
[3] Fonte: Jornal Última Hora 30 de Março de 1983.
[4] Fonte: Jornal do Brasil 22 de Junho de 1983.

Vasco Jornal Última Hora 1983

Vasco Jornal do Vasco 1983


quinta-feira, 23 de março de 2017

ALFIVASCO 1975: HISTÓRIA

Torcida do Vasco do Bairro de Engenho de Dentro em homenagem ao lateral direito Alfinete (Paulo César Barreiros), que chegou vindo do Olaria em 1971.
Foi fundada em 1975 e acabou em 1976 com a saída do jogador para o Uberaba de Minas Gerais. Teve como Chefe Maria de Fátima Barros.
“Depois de tantas glórias, títulos e muita alegria, chega a hora da despedida. Um até logo para você, Alfinete, que foi um dos responsáveis pela conquista do Campeonato Brasileiro  de 1974....
E nós componentes da Torcida Alfivasco, esperamos que você possa mostrar em seu novo Clube , aquele mesmo futebol jogado no Vasco. Na sua despedida, também está se despedindo a Torcida Alfivasco, que com esta tristeza: Adeus Alfinete. “Ou melhor, até logo” 
Maria de Fátima Barros, Engenho de Dentro (23 de Março de 1976)
Fonte: Jornal dos Sports Coluna Bola em Jogo 18 de Julho, 01 de Agosto, 04 de Outubro de 1975 e 23 de Março de 1976

Alfivasco Jornal dos Sports 1975

Alfivasco Jornal dos Sports 1975

Alfivasco Jornal dos Sports 1975

Alfivasco Jornal dos Sports 1975

Vasco Alfinete Revista Placar 1974

Alfivasco São Januário Jornal dos Sports 1975


Alfivasco São Januário Jornal do Vasco 1975

quarta-feira, 22 de março de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1982 TODOS PARA A GERAL

                 “Só porque Zico joga no Flamengo, eu vou torcer pelo Flamengo?
                                        Nada disso, eu sou é Vasco.”
                                tia do jogador do Flamengo, Dona Adélia

1982                       Todos para a Geral

Para fortalecer a ASTORJ e ganhar maior legitimidade entre as centenas de torcidas organizadas, as torcidas de cada clube passam a fundar as suas próprias entidades representativas e assumem o comando de representação das mesmas. Em abril ( dia 13) era fundada a ASTOVA (Associação das Torcidas Organizadas do Vasco da Gama), tendo como primeiro presidente Amâncio César.
            Foi um ano de muitas mobilizações e campanhas, começando com um protesto contra o aumento do preço dos ingressos em janeiro, muros pichados em São Januário em maio, boicote aos jogos com as torcidas organizadas assistindo as partidas na geral. Em julho foi a vez das faixas da torcida contra o técnico da seleção brasileira na volta da Copa da Espanha e a participação no II congresso das Torcidas Organizadas do Brasil em Porto Alegre.
            De todos os atos, o protesto mais marcante foi na primeira vez que o muro de São Januário seria pichado. Entretanto, não foi um ato que contou com adesão da ASTOVA. Entre as frases no muro se destacavam “Fora Calçada” e “Queremos Time”. Os líderes vascaínos defendiam um boicote pacífico prometendo não levar para o jogo faixas, bandeiras e baterias, pois achavam que a maioria dos jogadores não estava se empenhando como deveriam.
            Por outro lado, a Copa do Mundo da Espanha gerava uma forte expectativa no país. O entusiasmo com a seleção brasileira em 1982 tinha por base a forte identificação dos torcedores com os jogadores e o estilo de jogo ofensivo e criativo. Dos 22 convocados, apenas Dirceu e Falcão não atuavam no Brasil.
            A animação chegou as ruas pouco antes da Copa do Mundo começar em junho. Milhares de pessoas juntaram-se aos amigos e vizinhos e através de uma rede de solidariedade espontânea começaram a enfeitar as ruas de todas as maneiras, como foi em 1978. A diferença foi nas proporções, na copa da Argentina também se coloriram as ruas, mas nada comparável com o que aconteceu em 1982. A medida de a competição se aproximava, novas maneiras de embelezar o espaço público brotavam. O espírito carnavalesco fazia parte do cenário das ruas que viviam cheias de grupos pintando uma parte, desenhando nos muros, fazendo as fitas das rabiolas, bebendo e preparando um churrasco. Enfim, tudo em consonância para fazer o que as torcidas já faziam nos estádios.
            Para assistir a Copa era impossível em outro canal, a não ser a Rede Globo que comprou os direitos exclusivos, fez uma intensa cobertura dos jogos e deu grande espaço para a mobilização dos torcedores. Também na mesma emissora ganhava destaque o personagem “Zé da Galera”, interpretado pelo comediante Jô Soares, que encarnava um torcedor falando sempre com o técnico da seleção por um telefone público (orelhão). Ficou famoso o bordão: “Bota ponta, Telê!”. Na propaganda a figura do torcedor Pacheco, pela Gillete, também caía no gosto dos torcedores, se popularizando entre a galera. Quem fez muito sucesso em 1982 foi a banda iniciante Blitz, apresentando a vocalista vascaína Fernanda Abreu com apenas 21 anos, cantando a música de maior sucesso do ano: “Você não soube me amar”.
            Para os vascaínos a derrota da seleção teve uma forte dose de frustração como para toda a torcida brasileira, mas uma decepção e um toque de revolta pessoal contra o técnico Telê Santana e a insistência de não ter dado nenhuma chance a Roberto que vivia uma ótima fase, enquanto o titular, Serginho, do São Paulo, tinha atuações irregulares.
            No contexto de empolgação com a Copa de 1982, surge um novo programa televisivo em que os protagonistas são os torcedores: entra no ar “A Bronca é Livre”, apresentado por Denis Miranda, pela TV Bandeirantes, no mesmo formato de “Conversa de Arquibancada”, entretanto, o programa não fica muito tempo no ar. Na mesma época, pela Rádio Nacional, o radialista José Cabral, dedicava as segundas-feiras na hora do almoço, entre 12 e 13h, um debate com os chefes de torcidas convidados.
            Mas não só de protestos viveu o ano de 1982, nas arquibancadas ganhava cada vez mais impacto o desfile das bandeiras faltando meia hora para o jogo começar. Os torcedores saiam pelos tuneis de entrada das torcidas no meio de campo (espaço neutro) e percorriam toda a arquibancada desfraldando suas bandeiras, sendo acompanhado por aplausos e gritos de guerra em todo o estádio.
            Outro comportamento que surgia nesta época, era a torcida gritar o nome de cada jogador de seu clube a medida que o placar eletrônico mostra a escalação do time. Dependendo da fase cada jogador tinha seu nome gritado com mais ênfase. Na época, geralmente, Roberto era o nome com maior destaque.
            A festa em novembro veio com a comemoração do gol 500 de Roberto Dinamite em São Januário. O jogador que vivia uma ótima fase se consagraria com a conquista do título carioca no final do ano, depois das eleições no clube que teve como candidatos Antonio Soares Calçada, Eurico Miranda e Agathyrno Gomes (que contou com o apoio da Força Jovem). O resultado final deu a vitória a Calçada. Derrotado, Eurico ficou reclamando do esquema viciado das eleições...
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.

Vasco Maracanã 1982

Vasco Jornal O Globo 1982