quarta-feira, 30 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1953 CARNAVAL EM JANEIRO


                                                                     “se a canoa não virar, olê. olê , olá”
                                                                        marchinha nas arquibancadas

1953                 Carnaval de Janeiro a Dezembro

Depois de decepcionar a torcida em 1951, o Expresso da Vitória voltava a triturar os adversários e conquistava o título de 1952 no início do ano seguinte. Como era véspera de carnaval, a festa foi completa se estendendo por diversos dias com direito a folia em São Januário, criação de marchinhas e desfile carnavalesco em pleno centro da cidade. “Inteiramente iluminado, São Januário reviveu suas noites de maior esplendor. As sirenas soando, sem parar, como incessante também se fazia ouvir o estourar dos foguetes, Os casacas, então, nem é necessário falar, Casacas ao Vasco, como o foram dedicados ao Presidente Cyro Aranha, seus diretores e ao técnico Gentil Cardoso. (...) Registro-se um desfile improvisado de autênticas Escolas de Samba, com faixas trazendo inscrições alusivas ao feito cruzmaltino, recebiam saudações entusiastas do público, a sua passagem. Até parodias surgiram de imediato, como aquela da marchinha “Você pensa que cachaça é água”. Cantavam na assim:
“Você pensa que o Vasco é sopa
O Vasco não é sopa não
Sem jogar com o Olaria
O Vasco já é Campeão.”[1]

“O corso constou de cerca de mil automóveis, vários carros alegóricos e algumas Escolas de Samba, e a sua organização esteve a cargo do Chefe da Torcida Organizada do Vasco, Sr. João de Lucca”[2].
Mas a temporada vitoriosa estava só começando. Em fevereiro, jogando o Quadrangular Internacional do Rio de Janeiro (Boca Juniors, Racing, Flamengo), O Vasco conquista o campeonato ao vencer o Flamengo por 5 a 2. Uma goleada para mostrar toda a força do Expresso.
Dois meses depois o clube volta para Santiago no Chile (onde foi campeão em 1948) e conquista mais um troféu. Porém, o melhor estava a caminho com a disputa de um torneio internacional no Brasil.
No mesmo mês que o Vasco vencia mais um torneio internacional, estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, A Falecida, de Nelson Rodrigues. No primeiro ato de sua peça alguns homens discutem sobre a partida do Vasco que se realizaria no domingo, no Maracanã. O futebol era a obsessão de Tuninho, um dos personagens centrais da peça. Vascaíno fervoroso e desempregado, ele seria capaz de apostar em seu time contra todo o Maracanã, se tivesse dinheiro para tal: “TUNINHO – Seja 150 ou 200 mil pessoas. Não importa. Até aí morreu o Neves. Pois eu, se tivesse o dinheiro, dinheiro meu, no bolso, eu, sozinho, apostava com 200 mil pessoas no Vasco. Havia de esfregar a gaita assim, na cara das 200 mil pessoas, desacatando: “Seus cabeças-de-bagre! Dois de vantagem e sou Vasco!” Te juro que ia fazer a minha independência, que ia lavar a égua”
O fanatismo dos torcedores e a fidelidade destes aos seus clubes pode ser medida pelo acompanhamento permanente em todos os estádios. Para a temporada na Argentina e no Chile, a torcida vascaína foi representada por um grupo de torcedores liderados pelo chefe da TOV, João de Lucca. Batizada de Embaixada Torcedora, o que não era uma novidade pois este nome que já era utilizada nos anos 1930. Mas também servia para antecipar uma possivel embaixada da torcida brasileira na Copa da Suiça em 1954. O tom da reportagem faz um exagero da figura do lider vascaíno e sua atuação teria surpreendido os argentinos. No entanto, qualquer pesquisa saberia apontar para o exagero pois as torcidas argentinas tinham um alto grau de participação. Eis a reportagem do enviado especial: “João de Lucca fez furor no Chile. Só quem esta convivendo com os componentes da brilhante embaixada que o Vasco da Gama mandou a Buenos Aires e agora a Santiago, pode testemunhar o muito de sacrifício, abnegação, compreensão e disciplina por todos empregados na defesa do desporto nacional, em sua até agora triunfal campanha.... João de Lucca é sem favor algum, uma das figuras de proa da delegação cruz maltina. Comandando os célebres Casacas em todos os cantos a que chega a imediatamente requestrado os dirigentes do Racing tentaram de todos os modos, prende-los em Buenos Aires, por um mês a fim de que ele discipline a Hinchada do tricampeão Argentino. Claro está que De Lucca não aceitou, todavia, isso serve para que se comprove o sucesso que o Chefe da Torcida Organizada no Chile e na Argentina” [3].
Enquanto a viagem da torcida vascaína para a Argentina e o Chile foi um sucesso o mesmo não aconteceu na caravana para Santos, em junho, para acompanhar o time na última partida do Torneio Rio-São Paulo, terminando com uma tragédia automobilistica no acidente em que 7 torcedores morreriam. No mesmo caminho de volta ocorre outro problema com um “violento conflito entre torcedores do Vasco e populares que se encontravam nas proximidades de um bar, onde os componentes da caravana pararam para fazer ligeiro lanche. Os torcedores do Vasco foram vaiados e os veículos apedrejados, o que deu causa ao conflito, somente dominado após a chegada de uma tropa de choque da Força Pública e viaturas da Rádio Patrulha” [4]. Para este jogo foram mobilizadas centenas de torcedores na maior caravana da torcida vascaína até então (4 ônibus, 25 caminhonetes e dezenas de automóveis). O time vinha embalado depois de vencer o Corinthians no Maracanã e assumido a liderança do campeonato. O clube paulista trouxe uma imensa legião de torcedores (5 mil pessoas), na chamada “invasão do maracanã”. Os dois clubes lideravam não somente o campeonato, como eram os líderes nas rendas, com vantagem para o clube carioca. Esta disputa acirrada explica a tensão entre as duas torcidas e a animosidade que continuaria nas semifinais do octogonal no mês seguinte.
Em junho e julho, oito clubes disputam o Torneio Octogonal Rivadavia Corrêa Meyer (Fluminense, Botafogo e Hibernian-Escócia, na chave do Vasco e na outra chave São Paulo, Corinthians, Olympia- Paraguai e Sporting). O Vasco derrotou o Corinthians nas semifinais e o São Paulo nas finais.
A partir deste campeonato a nova grande estrela da torcida vascaína era o atacante Pinga, contratado junto a Portuguesa-SP, na maior contratação do futebol brasileiro da época. O novo camisa 10 do Vasco vestia também o uniforme da seleção no Sul-Americano no Peru. Na seleção do Brasil  que disputou o Sul-Americano no Peru, em março, foram convocados do Vasco os jogadores Barbosa, Ely, Danilo, Haroldo, Ipojucan e Ademir.
A expectativa da torcida era o Expresso continuar dominando o futebol carioca. Neste ano a novidade foi a inclusão de um terceiro turno com a disputa dos seis clubes com as melhores campanhas nos dois turnos iniciais. E, assim como nos anos anteriores, o campeonato de 1953 não terminaria neste ano.
Para os vascaínos o segundo semestre seria de grandes emoções nos esportes amadores. O seu clube conseguia fazer da natação e do atletismo um motivo de orgulho. Em agosto era inaugurado o Parque Aquático, “o maior e mais moderno da cidade”. E, em outubro, os atletas vascaínos conquistavam o 2° troféu Brasil de Atletismo, em São Paulo, acompanhado da torcida organizada: “o estádio do Tietê na Ponte Grande parecia ser carioca. Ouviam-se os Casacas como se a vitória houvesse sido obtida em São Januário com algazarra e entusiasmo, e até comandados pelo João de Lucca, o Chefe da Torcida Organizada, que acompanhou em São Paulo a consagração da equipe da colina como a maior do país”[5].
Enquanto os adeptos futebol ficavam esperando os jogos finais do campeonato de 1953 a serem disputados em janeiro de 1954, os torcedores vascaínos terminavam o ano comemorando o décimo título seguido no remo. Em dezembro a torcida cruzmaltina lotou as arquibancadas do estádio da Lagoa para acompanhar o decacampeonato (um título inédito). O ano fechava com chave de ouro: Campeão de Terra e Mar (em janeiro campeonato de futebol de1952 e dezembro no remo), além dos títulos internacionais no Chile (abril) e Maracanã (junho-julho).
  Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.
[1] Fonte: Jornal O Globo 19 de Janeiro de 1953.
[2] Fonte: Jornal A Noite 26 de Janeiro de 1953.
[3] Fonte: Jornal Última Hora 06 de Abril de 1953.
[4] Fonte: Jornal O Globo 05 de Junho de 1953.
[5] Fonte: Jornal Última Hora 20 de Outubro de 1953.

Vasco Jornal A Noite Suplemento 1952

Vasco Jornal O Globo 1952

terça-feira, 29 de novembro de 2016

VASCO 2016: FORÇA CHAPE

GUERREIROS DO ALMIRANTE
O Movimento Guerreiros do Almirante presta solidariedade a Associação Chapecoense de Futebol e sua torcida.
Neste momento não existem cores e nem camisas, somos todos unidos por uma paixão chamada futebol, e nunca é só futebol.

IRA JOVEM
LUTO
A Torcida Organizada Ira Jovem Vasco vem por meio desta expressar todas as condolências e sentimentos aos familiares dos profissionais que se encontravam no voo com destino a Medellín na Colômbia, que tragicamente se acidentou no dia de hoje.
O Futebol é para muitos apenas mais um esporte. Para outros é um sentimento, um carinho e uma ideologia de vida.
Por muitas vezes o Futebol também se torna um sonho. E era justamente um sonho que a Chapecoense atravessava neste momento, fazendo felizes a sua torcida, sua cidade e também todos os brasileiros por representar o seu país em uma competição internacional.
Esse será o sentimento que guardaremos desses profissionais, tanto jogadores, comissão técnica quanto os profissionais de imprensa que tragicamente perderam a vida de um modo tão abrupto e lamentável.
Hoje todos nós não vestimos preto e nem Cruz de Malta. Todos somos Chapecoense.
Um abraço,
Ira Jovem Vasco

FORÇA INDEPENDENTE
Nota de pesar e luto oficial
É com grande pesar que o Grêmio Recreativo e Torcida Organizada Força Independente do Vasco recebeu a noticia da tragédia ocorrida com a Chapecoense.
Em nome da diretoria e dos integrantes a Força Independente do Vasco presta as suas condolências aos familiares e amigos das vitimas, e ainda comunicamos o nosso estado de luto, suspendendo por três dias toda e quaisquer atividade da nossa instituição.

SUPER JOVEM
Nós que vivemos,amamos e respiramos futebol 24 horas e 365 dias no ano,deixando nossas famílias em casa, acompanhado nossos clubes pelo Brasil e aonde que esteja! 
Hoje será uma data pra ser esquecida do calendário do Futebol Brasileiro!!
#LutoFutebolBrasileiro
#forcachape

FORÇA CHAPE

FORÇA CHAPE

FORÇA CHAPE

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

TOV 1957: A PALAVRA DE UMA FELIZ TORCEDORA VASCAÍNA

Sou uma grande torcedora do Clube de Regatas Vasco da Gama, e venho por intermédio desta Revista, fazer uma narrativa aos caros leitores, sobre o Campeonato obtido em 1956, pelo time de minha predileção.
Para iniciar, devo dizer, que desde o princípio do Campeonato, ninguém poderia afirmar com certeza, qual seria a equipe a obter o Título máximo do futebol carioca.
Os próprios Vascaínos não se mostravam esperançosos, pois o Vasco há pouco regressara de uma excursão ao exterior, que fora completamente falha.
Qual não foi a nossa surpresa, porém, ao vermos que o grande esquadrão Cruzmaltino terminara o 1º turno na liderança.
Passaram-se alguns jogos e faltavam apenas 3 compromissos a saldar que eram América, Bangu e Olaria.
Então veio o jogo com o América e o Vasco com um gol salvador deste grande craque que não é outro senão Válter Marciano de Queiroz, conseguia mais uma vez passar incólume.
Foi então que todos nós, Cruzmaltinos, sentimos que a hora de festejar a vitória estava se aproximando, e graças ao esforço tenaz dos jogadores, foi que mais uma vez no jogo com o Bangu a equipe Cruzmaltina saiu vencedora.
Partida decisiva, sem dúvida, pois no dia seguinte o Botafogo triunfava no jogo contra o Flamengo e o grande pavilhão Luso-Brasileiro foi consagrado Campeão com uma semana de antecedência.
Nós, os Vascaínos não nos contínhamos de tanta alegria.
Depois de passarmos o ano todo sofrendo nas arquibancadas, ora sob o sol, ora sob a chuva e sempre com os mesmos pensamentos.
“Com o Vasco, aonde estiver o Vasco” vimos com imenso prazer que o nosso esforço não fora feito em vão, pois fomos presenteados com um grande prêmio, que é o de Campeão Carioca de 1956.
Termino aqui e agradeço a diretoria desta grande Revista ao permitir esta minha narrativa em nome de todos os Vascaínos do Brasil.
Ass: Guaraci Mendes
Ladeira do Faria nª 129 3º andar aptº 3 Centro.
Fonte: Revista Vida do Crack 1957

TOV Revista Vida do Crack 1957

TOV Revista Vida do Crack 1957

TOV Revista Vida do Crack 1957
TOV Revista Vida do Crack 1957

domingo, 27 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1952 SURURU NA BARIRI

     "Eu estou com as massas, e as massas derrubam até governo".
                                                            Gentil Cardoso – técnico campeão em 1952

1952                           Sururu na Bariri

        Em abril a seleção brasileira dava o seu primeiro passo para superar o trauma da derrota de 1950 com a conquista do Torneio Pan-Americano no Chile. Esta foi a primeira vez que o Brasil venceu uma competição internacional fora do país.
            Para comemorar a vitória do selecionado nacional. O presidente Vargas faz uma homenagem aos jogadores presenteando-lhes com uma medalha de ouro na última vez que Vargas comemora o Dia do Trabalho no estádio de São Januário. 1952 veria a ultima festa ser realizada por Vargas no estádio do Vasco da Gama, A festa ainda contou com jogos de futebol e com uma apresentação de basquete dos Harlem Globe-Trotters, seguidos de um show de musicas populares.
Em agosto começava o campeonato carioca que prometia muita disputa entre os principais candidatos ao título. Vencedor da segunda Copa Rio, o Fluminense era apontado pela imprensa como o maior obstáculo para o Vasco.
Enquanto em campo, os grandes clubes brigavam pelo título, fora das quatro linhas o desafio para os torcedores estava nos pequenos estádios de subúrbio. As grandes brigas envolvendo torcedores na década de 1950 ocorriam justamente nos pequenos estádios, em função da superlotação e da presença das torcidas rivais que se somavam aos clubes da região. Geralmente terminavam com poucos feridos e intervenção imediata da polícia que agia com extremo rigor: “confusão no estádio do São Cristóvão entre a policia e os torcedores emocionados as lamentáveis cenas de lançamentos das bombas de gás lacrimogêneo contra a multidão que pagou para assistir um espetáculo e não para ser vítima de uma Polícia Especial, que infelizmente ainda não compreendeu o papel que deve exercer, de mantenedora ordem”.[1]
            Nas lembranças de Armando Giesta, o bairrismo de clubes de subúrbio contra os clubes da Zona Sul provocava uma tensão entre os torcedores visitantes: “em Bangu o pau comia, em Bangu era uma aventura, em Madureira também era brabo. Mas não tinha briga, só na saída, tinha as provocações... Em Bangu você tem que passar aos pés das arquibancadas e eles jogavam coisas de cima. A torcida do Bangu era uma torcida doente. Os clubes pequenos tinham as suas torcidas. Principalmente Bangu e Madureira. Madureira tinha uma senhora torcida...”[2].
Em algumas ocasiões a confusão partia de lugares destinados aos sócios e dirigentes dos clubes que assistiam aos jogos lado-a-lado com os rivais. A cordialidade do anfitrião cedia espaço para a paixão desenfreada: “VIROU “ FAR-WEST” A TABA BARIRI. Há muito tempo que a Torcida não tinha o prazer. A grata satisfação de assistir o tempo fechar tão feio numa partida de futebol, mas não entre os jogadores, porém na própria assistência, e o que ainda é mais grave, entre o público das cadeiras numeradas, ou seja a elite dos pagantes”.
Foi durante um jogo do Vasco contra um clube de subúrbio que Dulce Rosalina acabou se integrando a Torcida Organizada do Vasco. Dulce foi trazida para a TOV por intermédio de Tia Aida, que nos conta como tudo aconteceu: “Estávamos em Teixeira de Castro, campo do Bonsucesso, e uma jovem sentou-se ao meu lado e vibrava muito com os gols do Vasco, foi quando eu a convidei para que fizesse parte da nossa Torcida, e de tal maneira ela se dedicou e se apaixonou que tempos depois entregamos a ela a chefia da Torcida. Ela era uma pessoa muito querida e educada, amava o Vasco acima de tudo, pelo clube ela se doou, deu a sua vida, deixou de cuidar de sua saúde, mas deixou o legado para todas as futuras gerações de vascaínos, de sua imensa paixão pelo Vasco[3].
      Em 1952 a “escrita” contra o Flamengo voltava com novas vitórias do Vasco e a conquista de mais um campeonato. O Expresso ainda se fazia respeitar. Ainda neste ano, em novembro, foram concedidos os títulos de sócio honorários do Vasco a Rachel de Queiroz e Gilberto Freyre. Os dois ilustres escritores eram do Nordeste (ela do Ceará, ele de Pernambuco), região que nos anos 1950 recebia uma forte influência das predileções esportivas em função das transmissões radiofônicas. Essa região será, nesta época, um local de forte emigração para os grandes centros do Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo). No Rio de Janeiro, por exemplo, ao longo dos anos 1940 chegaram mais de 700 mil nordestinos numa população de 2,5 milhões.
Os dois clubes continuariam numa disputa fora de campo envolvendo a contratação do técnico Flávio Costa pelo Vasco. O boato de que dirigentes do clube de São Januário o traria de volta estimulou o então treinador do Vasco, Gentil Cardoso, dar uma volta olímpica após a conquista do título acenando com o seu boné para os torcedores e sendo aplaudido pelos mesmos. O jornalista Mario Filho (2003, p. 306) descreve o episódio: “(ele) tratou de buscar apoio dos torcedores, achando que eles lhe garantiriam a sua permanecia. Como o Vasco ia sair desta? Feito um triunfador, Gentil Cardoso entrou no vestiário do Vasco (...) A consagração da torcida subira-lhe a cabeça. A prova é que disse alto, levantando o boné inseparável amassado na mão fechada – as massas estão comigo!”. Logo em seguida acontece um bate-boca entre ele e um grande dirigente do clube. Na mesma semana o técnico estava demitido e, mesmo campeão, a torcida aceitava resignada esta decisão dos dirigentes.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.

[1] Fonte: Jornal Sport Ilustrado 06 de Novembro de 1952
[2] Depoimento do torcedor concedida a Jorge Medeiros, em 2008.
[3] Depoimento de Tia Aida concedida a Jorge Medeiros, em 2008.

Vasco Revista Sport Ilustrado 1952

Vasco Jornal dos Sports 1952



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

FORÇA JOVEM 1997: CHURRASCO DAS TORCIDAS FUROU

A recepção dos Palmeirense aos Vascaínos que chegaram ontem a São Paulo foi amistosa. 
Mas os Vascaínos que salivaram o anunciado churrasco oferecido pelos integrantes da Mancha Verde, a Torcida Organizada do Palmeiras que virou Escola de Samba, ficaram com a barriga vazia. 
Escoltados por batedores da Polícia desde a Marginal Tietê ao se dirigirem a quadra da Escola de Samba Rosas de Ouro, onde estava marcado o regabofe, os torcedores cariocas deram com a cara na porta fechada. O jeito foi se arrumar por conta própria.
“Eles já tinham dito que estavam meio sem tempo para organizar o churrasco. A gente já estava meio preparado para isso”, apaziguou o bolo, mas não a fome, disse o Presidente da FJV Marcelo Mendonça.
Fonte: Jornal do Brasil 15 de Dezembro de 1997

Força Jovem Jornal do Brasil 1997

Força Jovem Jornal do Brasil 1997

Força Jovem Jornal do Brasil 1997

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

FORÇA JOVEM 1989: CAMINHADA DE SÃO JANUÁRIO AO MARACANÃ

Na década de 1980 os componentes da Torcida Força Jovem se encontravam no Maracanã.
Em 1989 começou a Torcida se reunir em São Januário e sair todos juntos em direção ao Maracanã.
Essa caminhada foi ganhando novos adeptos e virou uma tradição.
Alguém sabe quando e porque começou?
“Essa parada de ir andando de São Januário, uma vez tinha uns carros andando na frente e o pessoal ficava esperando na Quinta da Boa Vista, teve um boato que os caras da Torcida Jovem do Flamengo estavam esperando na Quinta ai o pessoal resolveu ir andando, ai toda vez que tinha jogo virou essa marcha até o Maracanã, mais foi um boato que teve que o pessoal estava aguardando o pessoal da Força passar desgarrados, mais ou menos por ai começou isso, nessa época o pessoal da Jovem dava ataque na galera que ia desgarrado, quando a Força Jovem ia pra Maracanã parava tudo, os dois lados da pista, era muita gente,” disse Soró.
“Sobre essa caminhada ai, vou dar minha versão, teve uma reunião, ficou resolvido que a gente não iria mais para o Maracanã disperso, juntar aquela galerinha e encontrar no Portão 18, que melhor se encontrar em São Januário e ir para o Estádio todo mundo juntos e o que aconteceu, a primeira vez foi um ônibus cheio, que a Força Jovem não chegava com muita gente no Portão 18, chegava uns 30 ou 40 no máximo umas 50 pessoas, antes quando era pra ir direto. Ficou combinado de todo mundo vir pra cá e a primeira vez que foi, o ônibus foi cheio, 60 a 70 pessoas, a segunda vez o ônibus foi lotado, entupido, a terceira vez alugaram o ônibus da CTC aquele grandão e o ônibus foi abarrotado, entupido, socou gente lá dentro, gente na janela, ia ter um Vasco x Flamengo, teve uma reunião, não lembro, faz muito tempo, ou foi numa quarta feira ou no sábado, me lembro o Roberto Monteiro e o Arlindo conversando, o último jogo já foi gente pra caramba, nem da mais pra ir naquele ônibus, vamos alugar quantos ônibus, vai ter que ser mais de um, vamos ver o lance do dinheiro, a conclusão não vamos alugar ônibus nenhum, vamos a pé, ai veio o domingo e nós fomos para o jogo a pé, aconteceu outra vez e outra vez, ai depois virou uma marca. Eu me lembro também o Alonso conversando com o Arlindo na Quinta, ao meu lado, você acha que tem quantas pessoas aqui, foi o maior bonde que a Força tinha colocado naquela época, o Alonso fez uma contagem mais ou menos tinha umas 350 pessoas, a galera vibrou, Torcida Organizada do Rio no botava aquilo, no outro jogo foi 500, no outro 700 pessoas, ai foi.” Revelou Marcelo Santo Cristo. 
 “Em 1989 também, teve um jogo do Brasil que saiu um bonde sinistro, Força Jovem, Mancha Verde e Galoucura,” falou Hélio de Magé.

Força Jovem rumo ao Maracanã 1989

Força Jovem rumo ao Maracanã 1989

Força Jovem rumo ao Maracanã 1989

Força Jovem rumo ao Maracanã 1989

Força Jovem rumo ao Maracanã 1989

Força Jovem rumo ao Maracanã 1989




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1951 ADEMIR - ÍDOLO NACIONAL

 “zum-zum-zum-zum/ Vasco dois a um”
Canção do 1° título no Maracanã

1951                     Ademir – ídolo Nacional

Com o Maracanã a partir de 1950, o futebol carioca passaria a contar um estádio neutro que alteraria substancialmente a espacialidade das torcidas. Se antes foi comum uma intensa mistura de torcedores de times rivais nas arquibancadas, agora esta mistura estaria deslocada para as gerais e cadeiras azuis. A maior parte do público estaria concentrada nas arquibancadas. Este setor ganharia uma divisão “natural”, entre as tribunas de honra e cadeiras especiais (também neutro), em que cada torcida de cada clube teria o seu local específico. Separadas pela tribuna e cadeiras especiais, de um lado, e pelo meio das arquibancadas (também neutro), de outro lado, as torcidas ganhariam maior identidade própria e, por outro lado, a alteridade serie mais evidenciada.
            Se o sucesso das torcidas organizadas no Maracanã  não se traduziu no seu crescimento numérico, pelo menos, serviu de modelo para os torcedores exteriorizarem seu sentimento de amor ao clube. Neste momento, os chefes de torcidas e/ou torcedores-símbolos acabavam por representar os milhares de torcedores “anônimos”, que representar somente sua torcida. Talvez, esta tenha sido uma das explicações para o não-surgimento de várias torcidas durante estes anos. Havia uma diluição de incentivo e organização em diferentes pontos das arquibancadas. Ao lado de uma massa una e coesa (imagem predominante da imprensa), criavam-se grupos semi-estruturados.
        João de Luca e os torcedores vascaínos tinham motivos de sobra para acreditar que o ano de 1951 seria um ano de novos títulos. Depois da conquista do título de 1950, realizada em janeiro de 1951, o esquadrão cruzmaltino enfrentou a base da seleção do Uruguai, o clube do Penarol, por duas vezes, em abril. E venceu nas duas oportunidades, tanto no Uruguai, no famoso Jogo da Vingança, como no Maracanã.
Pouco depois da Copa de 1950 ficou estabelecido pela FIFA que a Copa do Mundo em 1958 seria na Suécia. Daí surgir o convite dos suecos para a Vasco (o melhor time do Brasil e base da seleção que venceu os suecos por 7 a 1) fazer uma excursão aquele país. Porém, o Vasco declinou o convite pois estava preocupado em manter o elenco no Brasil para se preparar melhor diante do Torneio Internacional de Clubes Campeões – A Copa Rio. Então os suecos escolheram o Flamengo que excursionaria para a Europa pela primeira vez. Ou seja, há exatos 20 anos depois do Vasco. O sucesso do Almirante fazia os rivais reagirem indignados. José Lins do Rego exaltava a torcida do Flamengo: “o torcedor rubro-negro é um autêntico herói. Não é um rasga-carteira, não é um pessimista doente. Está sempre a espera da vitória mesmo quando lhe amarga a boca o perigo da derrota”(COUTINHO, 1995, p.341). Rego reivindica a construção de um monumento ao torcedor rubro-negro.
            O prestígio do Vasco era transferido para seu maior ídolo: no programa “No Mundo da Bola” da Rádio Nacional foi instituído um concurso famoso nos anos 1950: cada ouvinte deveria mandar para a emissora num envelope de Melhoral, o nome do jogador de futebol de sua preferência. O vencedor foi Ademir com 5.304.935 votos. O total de envelopes de Melhoral que chegou a estação foi de 19.105.856 votos.
            Os jogadores de futebol já competiam com os grandes ídolos do rádio e do cinema. Ainda com a TV dando os primeiros passos, o cinema era a maior diversão nacional: em 1950 o cinema recebeu um público total de 180.653.657 para 2.411 salas de exibição. Sendo que neste período a população brasileira era de aproximadamente 52.000.000 de habitantes.
            Em julho de 1951 começa o primeiro mundial de clubes disputado por 8 equipes da Europa e da América do Sul com sedes em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos estádios do Pacaembu e Maracanã. Em princípio, a lista dos participantes incluía clubes da Inglaterra e Espanha. Depois começaram a ocorrer as trocas, finalizando com a chegada ao Brasil do Olympique de Nice (da França), Estrela Vermelha (da Iugoslávia), Juventus (da Itália), Nacional (do Uruguai), Austria Viena (da Áustria) e Sporting (de Portugal).
A maior parte da imprensa esportiva brasileira apontava o Vasco da Gama como o grande favorito para conquistar a competição. Os resultados iniciais com duas goleadas por 5 a 1, confirmavam o favoritismo e o entusiasmo da torcida no Maracanã que recebeu, em média, 90.000 torcedores por partida. No entanto, o Palmeiras surpreende e derrota o Vasco nas semi-finais. O maior jogador da competição foi um ex-jogador do Vasco: Jair da Rosa Pinto, do Palmeiras.
            Nas finais disputadas no Maracanã (em duas partidas) contra o time italiano (Juventus), o Palmeiras conquista o seu grande título. Para surpresa dos paulistas, houve uma grande comemoração no Rio de Janeiro para do título feito pelos torcedores cariocas, quando a equipe palmeirense desfilou em carro aberto pela cidade. Na volta a São Paulo, o Palmeiras foi recebido por uma grande multidão na Estação Roosevelt. No trajeto entre a estação e o Parque Antártica, o povo aglomerou-se em todos os lugares possíveis para reverenciar os campeões.
            Restava aos vascaínos se resignar com a perda do título internacional e torcer pelo tricampeonato estadual. Uma das preocupações das torcidas organizadas durante os campeonatos cariocas eram os jogos contra os clubes de subúrbio e a força de suas torcidas em seus pequenos estádios, com o reforço das torcidas dos grandes clubes, rivais do Vasco. Os jornais convocavam os vascaínos para se juntarem a torcida com a sua tradicional faixa e os sons dos clarins:  “já funcionou no jogo contra o Canto do Rio, a Torcida Organizada Vascaína para o Tri Campeonato, tendo a frente João de Lucca, que atendendo ao apelo feito pelos jogadores, agora com Toni, para levar a todos os campos o tradicional grito de guerra que tanto incentivo e entusiasmo tem dado aos jogadores para a conquista da vitória. Amanhã, no Campo do São Cristóvão, lá estará a dupla De Lucca e Toni com os clarins e uma grande painel com a legenda “Com o Vasco, onde Estiver o Vasco”, esperando a colaboração de todos os Vascaínos[1].
Neste mesmo dia é anunciada a criação do monumento ao torcedor carioca em São Paulo, como parte das homenagens da diretoria do Palmeiras, campeão mundial em 1951 no Maracanã, que contou com o apoio dos cariocas. Na ocasião os três principais lideres da torcida carioca, João de Lucca, do Vasco, Jaime de Carvalho, do Flamengo e Antônio Leal Guimarães, do Fluminense, recebiam passagens para a capital paulista prestigiar o evento em comemoração a conquista da Copa Rio, o primeiro torneio internacional de clubes.
            Com a sequencia dos jogos do campeonato carioca, a equipe não consegue reeditar as grandes exibições do ano anterior e perde muitos jogos, inclusive para o Flamengo. O Vasco foi perder para o rival em setembro, depois de seis anos invicto. O Vasco ficou todo este tempo invicto, acumulando 15 vitórias e 5 empates (Assaf e Martins, 1999).
            Em outubro, o Jornal dos Sports promove durante o Fla-Flu uma competição entre as torcidas, tentando reeditar, agora no Maracanã, a disputa criada em 1936. A intenção dos criadores do evento era estimular o público a seguir o exemplo das principais lideranças das torcidas e dar maior visibilidade a festa que estas faziam. A partida contou ainda com a presença do Presidente da República, Getúlio Vargas, o que não era muito comum.
            Os dois clubes se juntavam a setores importantes da imprensa para garantir
 que o clássico “mais charmoso da cidade”, continuasse a ser o mais tradicional. O Expresso saía do trilho no final de 1951, mas prometia voltar no ano seguinte...
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal dos Sports 24 de Agosto de 1951

Vasco Jornal dos Sports 1951

Vasco Centro de Memória do Vasco 1951


terça-feira, 22 de novembro de 2016

VASCARAÍ, VASCONÇALO E VASCO RAÇA 1978: COPA DO MUNDO. NITERÓI JÁ PREPARA CARNAVAL DA VITÓRIA


O maior carnaval da história da Cidade está sendo preparado para o próximo domingo, caso o Brasil vença a Argentina (0x0).
Agora, já com os ânimos refeitos e confiantes na Seleção Brasileira, as Torcidas Organizadas dos Clubes Cariocas em Niterói e São Gonçalo, como a Flatuante, Flataxi, Flaponte, Fla-Galera, Vascaraí, Vasconçalo, Vasco Raça, bem como os grupos de Icaraí, já antes do resultado do jogo de amanhã, contra o Peru, começaram os preparativos para a grande festa de domingo e que deverá entrar pela madrugada.
Fonte: Jornal O Fluminense 13 de Julho de 1978

Vascaraí, Vasconçalo e Vasco Raça Jornal O Fluminense 1978

Vascaraí, Vasconçalo e Vasco Raça Jornal O Fluminense 1978

Vascaraí, Vasconçalo e Vasco Raça Jornal O Fluminense 1978

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

TOV 1945: A MÁQUINA DO JOÃO DE LUCCA

A dez horas da manhã daquele domingo, o João de Lucca já tinha dado todas as suas ordens. Falara com o Ciro Aranha bastante aborrecido porque as suas ordens. 
Falara com o Ciro Aranha, bastante aborrecido porque o Jaime Guedes não dera o que fora prometido em sessão de diretoria.
De Lucca pedira uma máquina que havia encostada nas oficinas da Leopoldina. 
Queria uma máquina de verdade, para fazer um carnaval com a vitória do Vasco.
Ainda nas cobertores, Ciro Aranha ficou aborrecido com a impertinência de De Lucca que, afinal dava sempre muito trabalho. 
A história de Torcida Organizada era inconveniente, por essas coisa.
“Estou providenciando a sua máquina, rapaz. Já dei ordens ao Jaime Guedes para arranjar o negócio.” 
Foi o que Ciro Aranha explicou, para se ver livre do Chefe da Torcida Organizada.
Mas De Lucca não se convenceu. Sentiu que Ciro Aranha queria despistar. Sonhara com aquela locomotiva. Vencido o Flamengo, entraria em campo com a “Baronesa” enfeitada e com o Almirante de boné de maquinista.
Para De Lucca, a conversa de Ciro era quem não levava a sério o seu pedido. 
E por isso começou a chorar, lamentando não poder abalar o Popeye do Jaime do Flamengo, o pobre Jaime que dirigia a Torcida Organizada da Gávea (Charanga Rubro Negra).
Em casa havia uma sensação de luto. Foi quando a velha cozinheira apareceu  para resolver o caso. E chamou a patroa, para dizer-lhe. “Dona Mocinha, eu sei onde encontrar uma máquina para seu De Lucca”. 
E lembrou a máquina de torrar milho do pipoqueiro que fazia ponto na esquina da Estação da central.
Foi assim que João de Lucca teve a máquina para o Carnaval da Vitória. 
O pipoqueiro não vendeu nada naquela tarde, mas contribuiu para a apoteose dos 2 x 1.
Fonte: Jornal A Manhã 26 de Setembro de 1945

TOV Jornal A Manhã 1945

Vasco foto acervo de Alexandre Mesquita 1945



domingo, 20 de novembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1950 O EXPRESSO NA SELEÇÃO

marchinha Touradas  em Madri
milhares de torcedores na goleada do Brasil na Espanha

1950                    O Expresso na Seleção

Entre os preparativos da Copa do Mundo de 1950, a primeira a ser realizada no Brasil, estava a preocupação com o comportamento dos torcedores brasileiros durante os jogos. Havia o temor de invasões de campo, confusões e atitudes antiesportivas (como atirar objetos no gramado). Tudo isso poderia contribuir para manchar a imagem do país diante do resto do mundo. Portanto,   não era somente dentro do gramado e com o desempenho dos jogadores brasileiros que as autoridades imaginavam impressionar a população mundial. Um comportamento exemplar dos torcedores seria a demonstração cabal que nosso país estava no rumo certo. Era uma demonstração de que já éramos um “povo de civilizados”. Naquele momento a torcida dentro dos estádios representaria toda a nação brasileira.
Segundo a historiadora Gisella de Araújo Moura, em seu livro “O Rio Corre para o Maracanã”, os confrontos eram comuns em competições acirradas envolvendo os brasileiros e os clubes e selecionados estrangeiros: “Inicialmente, jornalistas, jogadores e dirigentes esportivos mostram-se bastante receosos quanto às reações da multidão, temendo excesso e desacato a torcedores estrangeiros. Os jornais estrangeiros publicam inclusive algumas noticias sobre invasões de campo e confusões nos gramados tropicais, gerando um certo receio no exterior em relação a postura da torcida brasileira durante o campeonato do mundo” (Moura,1998, p. 61).
A experiência de reunir mais de cem mil expectadores era aguardada com ansiedade. Na verdade ninguém sabia ou tinha certeza sobre a atitude dos torcedores diante de um estádio gigantesco. A presença massiva de 30 a 40 mil pessoas em São Januário (Rio de Janeiro) e Pacaembu (São Paulo) não era uma  novidade. Entretanto, previam-se públicos três, quatro ou cinco vezes maior. Como ia ser o comportamento, se apoiando ou não, por isso, deveriam ser tomadas algumas atitudes de preparação para o evento.
O primeiro sinal de que a seleção poderia enfrentar problemas com vaias dos torcedores veio através dos jogos-treino da seleção pouco antes da disputa: “o que angustia agora é o pessimismo da torcida, a desconfiança em relação aos jogadores e as suas possibilidades. A crença inabalável na conquista da taça cedeu lugar a um sentimento diametralmente oposto (...) o torcedor que paga ingresso para assistir aos jogos-treino, tomado pelo pânico de uma derrota, vaia o desempenho do escrete. Essa demonstração de inconformismo preocupa o técnico e os próprios  jogadores, que  se dirigem a torcida para lhe assegurar que estão cientes de sua responsabilidade”, é o que afirma a historiadora.
Do otimismo ao pessimismo, do nacionalismo ao bairrismo, do patriotismo ao clubismo. As tensões aumentam à medida que a proximidade do início da Copa se apresenta. Os jornais reproduzem e induzem os torcedores manifestarem suas diferenças.  Para os paulistas, a seleção tem muitos cariocas como titulares. No Rio, as torcidas cariocas acham que o técnico Flávio Costa privilegiou os jogadores do seu clube, o Vasco, com a convocação de 8 jogadores. Temia-se a união de torcedores cariocas contra a torcida vascaína. Apesar do reconhecimento da superioridade do clube de São Januário, para os torcedores rivais, a vitória da seleção seria mais um motivo de exaltação dos torcedores vascaínos. Como reconhece o jornalista Armando Nogueira, ao admitir como se sentia na época:  “Aflora outra vez em mim, a mágoa clubística.  Lanço sobre a equipe um olhar de botafoguense ressentido (...) Sete  (jogadores) são vascaínos (em campo). Velhos e mortais inimigos da pequena porém brava nação botafoguense (...) quer saber de uma coisa? Melhor mesmo que ganhe o Uruguai. Eles são gringos, vão todos embora daqui amanha. Ninguém vai encarnar em mim” (Nogueira, 1998. p.23).
Uma das estratégias para “controlar” a torcida seria a “eleição” de Jaime de Carvalho, da Charanga Rubro-Negra, como torcedor número um do Brasil. Cabia a Jaime de Carvalho simbolizar a torcida nacional. O mais importante era impedir o clubismo, dando lugar ao patriotismo. A conquista do campeonato não seria apenas o triunfo da seleção brasileira, mais a elevação da nação ao topo do sucesso mundial. Porém, no último treino da seleção no Maracanã (chamado de Estádio Municipal), justamente contra o Flamengo, a torcida (parte) gritava, aplaudia e vibrava somente com os jogadores rubro-negros. O que gerou discussão na imprensa no dia seguinte sobre a atitude dos torcedores. Alguns apoiavam (José Lins do Rego), enquanto outros manifestavam insatisfação com aquela “demonstração de antipatriotismo”.
Na estréia diante do México, um adversário considerado fácil, uma vitória tranqüila da seleção (4 a 0) acionava o otimismo de todos. Tudo saiu como previsto: a torcida apoiou, o time conseguiu mostrar logo sua superioridade. Nenhuma surpresa desagradável. A principal surpresa foi positiva: o público presente e o comparecimento de muitas famílias, principalmente mulheres, então afastadas nos últimos anos dos estádios. Para alguns jornalistas, o estádio gigantesco ofereceria conforto e comodidade ausentes dos estádios (mesmos os maiores) como São Januário e Pacaembu.
As vitórias expressivas diante da Suécia (7 a 1) e Espanha  (6 a 1), criaram otimismo sem igual entre os torcedores. A cada jogo novas demonstrações de carnavalização nas arquibancadas, de festas e mais festas, antes, durante e depois dos jogos. Nunca uma torcida foi tão criativa e empolgada como aquela que compareceu aos jogos finais. Na partida contra a temível Espanha, com a vitória consagradora a torcida inventou um novo canto de apoio: “quando o jogo se aproxima do final, a música torna a invadir o estádio. É a multidão que, numa explosão de alegria, lembra uma marchinha de um antigo carnaval e agita seus lenços brancos. Milhares de vozes cantam o refrão de Touradas de Madri, sucesso do carnaval de 1938”, como relata a pesquisadora Gisela Moura.
Restava o Uruguai, um adversário difícil, velho rival nos campeonatos sul americanos. Um time que merecia respeito dos torcedores. Contudo, o otimismo contagiou a todos. A vitória era vista como certa. Mais que isso, ela viria de goleada. Foi com esse sentimento que os torcedores partiram para o Maracanã para assistirem o triunfo final de um jogo memorável. O compositor Lamartine Babo, fez o hino da torcida brasileira para ser entoado por todos naquele jogo através do sistema de som dos auto-falante do estádio.
O público estimado na derrota de 2 a 1 para o Uruguai foi de 200.000 pessoas o que representava 10% de toda a população do Rio de Janeiro em 1950. A mesma platéia dos jogos anteriores caminha em direção ao estádio ainda mais numerosa: “são famílias inteiras, senhoras, gente nova, gente de idade (...) a festa comemorativa da vitória já esta preparada, fogos de artifício, bolas coloridas, confetes, serpentinas, bandas de musica e escolas de samba. Os rojões e batucadas começavam antes mesmo do inicio do jogo”.
As cenas de torcedores chorando melancolicamente seriam guardadas em fotos e filmes que registravam uma cena trágica e inesquecível para todos os observadores, amantes ou não do futebol. Para os jogadores uruguaios, a atitude respeitosa dos torcedores, que aplaudiram os vitoriosos ao final da partida, foi uma surpresa, pois eles imaginavam que os espectadores reagiriam de forma furiosa no estádio, hostilizando-os e provocando cenas de violência e irracionalismo com a derrota.
Muitos jornalistas estrangeiros que cobriam a Copa registravam em suas matérias a surpresa diante do comportamento ordeiro dos torcedores dentro e fora do estádio, apesar do resultado adverso. Para eles, que antes da Copa, demonstravam temor diante do público sul americano, aquela atitude teria que ser louvada.
A conduta exemplar da torcida durante todo o campeonato, fez o escritor José Lins do Rego, em 6 de agosto de 1950, sugerir em uma crônica a construção do monumento ao torcedor. “Estou inteiramente de acordo que se faça um monumento ao torcedor brasileiro. Nada mais justo que se ponha em arte a exuberância, a alegria e as tristezas de todos os que vão aos campos de football torcer pelas cores de sua paixão” (Jornal dos Sports). A verdade é que nada foi feito (COUTINHO, 1995, p.315).
Depois daquele jogo a seleção brasileira se apresentaria outras vezes para grandes platéias no Maracanã, como nos jogos de classificação para as próximas Copas do Mundo. No entanto, ele seria o palco maior nas disputas entre os clubes cariocas, estes sim, a partir de 1950, é que seriam os novos donos do estádio, que representaria um cartão postal do país, mas especialmente da cidade. Um palco para celebração dos futuros craques. O Maracanã era o teste definitivo para expressar a grandeza de paixão do carioca pelo futebol. Os próximos anos comprovarão que sua construção foi uma obra acertada.
Realmente a derrota em 1950 causou muitas tristezas nos torcedores brasileiros e, por isso, muitos jornalistas acreditavam que o próximo campeonato carioca seria o teste final para o gigantesco estádio e para uma geração de brilhantes jogadores dos anos 1940. Como o time do Vasco era a base da seleção de 1950, as atenções estavam todas voltadas para acompanhar o desempenho do “Expresso da Vitória”.
A verdade era que quando os anos 1950 começaram, a supremacia do Vasco no futebol carioca era incontestável.  O grande exemplo do poderio do clube de São Januário foi a sua maior “escrita” sobre o Flamengo: desde 13 de março de 1945, o Vasco não perdia para o Flamengo. Ao ver seu time perder mais uma partida para o Vasco por 4 a 1, em setembro de 1950, José Lins do Rego desabafava: “Não sou um homem amargo, sou um homem humilhado”.
Nos dois primeiros jogos entre Vasco e Flamengo no Maracanã o público presente não superou a marca dos 50.000 espectadores em cada confronto. Talvez pelo não comparecimento das torcidas que “já sabiam” do resultado. Os torcedores rubro-negros tinham motivos de sobra para ficarem em casa. Nas 13 primeiras partidas do clube no novo estádio, o Flamengo conseguiu a proeza de perder nove vezes!!!
O desespero do torcedor do Flamengo era já tema de um dos programas de humorismo maior audiência dos anos 50. Em “Edifício Balança, Mais Não Cai”, um grande sucesso da Rádio Nacional, entre os personagens criados por Max Nunes, famoso torcedor do América, estava o personagem Peladinho, fanático torcedor do Flamengo, interpretado pelo humorista Germano.
A suspeita de que os ídolos da Copa de 1950 fracassariam no campeonato carioca, ainda abalados pela perda do título mundial, era desfeita pelos jogadores vascaínos. Ademir, o grande nome do time, artilheiro da seleção na Copa, continuou sendo o mais festejado atacante do país e brilhou novamente junto com seus companheiros de clube e seleção, com a conquista do campeonato carioca de 1950[1].  O Vasco vence o América por 2 a 1, com um gol de Ademir. Em depoimento oral, o jornalista Sérgio Cabral, relembra a criatividade do torcedor ao unir a paixão pelo futebol com o ritmo das marchinhas de carnaval: “Um dos sucessos do carnaval de 1951 (a música já estava sendo cantada pelas ruas) era uma homenagem ao Edu, que era um aviador, que era do Clube dos Cafajestes, e que tinha morrido num acidente de avião. O refrão da música dizia:”zum, zum, zum, tá faltando um”. A música era uma homenagem ao Edu, era ele que estava faltando. E a torcida do Vasco cantava: zum,zum, zum, Vasco 2 a 1” (SILVA e SANTOS, 2006, p.347).
No final, muitos jogadores em campo sentiram a emoção de meses antes com o estádio lotado e o clima de decisão: “a grande arquibancada se encheu (...) o torcedor fazia as pazes com o futebol. Entrando em campo os jogadores poderiam experimentar essa alegria. Acabara-se a tragédia de 16 de julho. Com o Maracanã e a divisão “natural” das torcidas em lados opostos, a função das torcidas (entre outras, é claro) de reunir e mostrar a força dos torcedores do mesmo clube, estimulando seus respectivos times, foi diluída em diferentes pontos de cada lado.
Para um clube que já neste período sentia a dificuldade em acompanhar o crescimento das torcidas de Vasco, Fluminense, Flamengo e Botafogo, o América teve como consolo o sucesso das arrecadações nas rendas e as manchetes nos jornais. O recorde de rendas fez o América se interessar em contratar Heleno de Freitas para o campeonato de 1951 e completar as obras em seu estádio, que receberia o Vasco para sua inauguração (VALLE, p.259 e 267). O América constituía a quinta torcida do Rio e era ameaçado nesta época pela torcida do Bangu, empolgada com a contratação de Zizinho junto ao Flamengo, em março de 1950, quando o clube da zona oeste fez a maior contratação do futebol daquela época, retirando do Flamengo o seu maior ídolo.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] Vencido pelo Vasco numa final disputada com o América somente no início de 1951. Aliás, esta seria a  marca dos anos 1950: vários campeonatos só terminariam nos anos seguintes.

Vasco Jornal O Globo 1950

Vasco Revista Sporte Ilustrado 1950