quarta-feira, 12 de julho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2013 VASCAÍNOS NA REDE

                                                                                    “Não vai ter Copa e vai ter luta”
                                                                                          Manifestações em junho

2013                    Vascaínos na Rede
        Para quem acreditava que o brasileiro era um povo acomodado e a internet só servia para manter as pessoas alienadas em suas redes sociais, teve que refazer seu pensamento pois o ano foi marcado por intensas manifestações e a as novas formas virtuais de comunicação se mostraram canais eficientes de propagação de cidadania.
O sucesso da internet ampliou as oportunidades dos usuários de todo o mundo entrar em contato com as informações de uma nova forma revolucionado o comportamento, os costumes e as tradições no modo do torcedor acompanhar o seu clube do coração. Imagens raras e conteúdos de pouca circulação passam a ser exibidos em sites de vídeos como o Youtube, por exemplo. Milhões de imagens são produzidas com o barateamento das máquinas de filmar e fotografar, gerando uma nova memória coletiva através de um conteúdo fantástico de cenas dos torcedores nos estádios quase que instantaneamente. No entanto, um novo conjunto de práticas de crimes virtuais também se propagam estimulando a intolerância e o acirramento dos conflitos entre os torcedores. Cenas de brigas passam e ser exibidas ostentadas como troféus virtuais. Xingamentos e ofensas nas redes se tornam corriqueiros.
            Com a ampliação da banda larga no país se multiplicam os blogs de torcedores e os tradicionais sites do Vasco aumentam suas receitas modificando a forma de comunicação entre o público consumidor de noticias esportivas que tem maior possibilidade de escolha. Finalmente os torcedores podem conhecer objetos que eram guardados como relíquias pelos colecionadores particulares. Crescem as publicações que exaltam a história do clube. Toda uma rede se prolifera com troca de mensagens entre vascaínos de diversos locais do planeta.
            É pela internet e nas ruas que desde o início do ano são realizados atos contra a CBF (e o seu presidente Ricardo Teixeira) e contra a FIFA, acusada de interferir nos interesses nacionais, além das constantes denúncias de superfaturamento das obras dos novos estádios apareciam na imprensa. Diversos setores da sociedade se manifestavam contra as arbitrariedades que se faziam em nome da Copa de 2014. Uma série de obras no entorno do Maracanã previa a destruição de uma escola conceituada e de diversos equipamentos esportivos tradicionais. Contra isso os torcedores foram convocados para um protesto em março com os uniformes de seus clubes. Cerca de 500 pessoas se reuniram na Praça Saens Peña, na Tijuca e caminharam até o Maracanã. O ato intitulado A CIDADE É NOSSA! tinha o objetivo de denunciar o processo de privatização de diversos espaços públicos da cidade, como a Marina da Glória e o Maracanã. No entorno do estádio, estava prevista a destruição da Escola Friedenreich, da Aldeia Maracanã, do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare para a construção de lojas, bares e estacionamentos para servir a um shopping gerido pela empresa ganhadora da licitação.
            Ainda no mês de março seis integrantes da FJV foram presos acusados pelo assassinato de um torcedor do Flamengo em maio de 2012. Eles foram denunciados pelo Ministério Público pelo crime de homicídio triplamente qualificado (motivo fútil, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima).
            No começo de abril a Força Jovem promove o "Protesto Público Zero" em São Januário, em frente as sociais do clube, antes do jogo Vasco x Friburguense. Contando com cerca de 500 pessoas não ocorreu qualquer tipo de ato hostil, brigas, confusões ou transtornos graves. O alvo maior foi a administração de Roberto, acusando-o de um mau gestor: “o atual quadro de funcionários é praticamente mais que o dobro do que uma empresa que fatura. Além disso a qualificação de muitos que ali estão, está muito abaixo de qualquer tipo de exigências para os cargos que muitos ocupam”.
Neste período a antropóloga Rosana Teixeira escreveu um artigo que analisava as “novas torcidas”, entre elas a Guerreiros do Almirante, refletindo sobre o surgimento dos movimentos populares de torcedores no Rio de Janeiro, especialmente a partir de fevereiro de 2006. Inspirados nas “barras bravas” sul-americanas, especialmente naquelas vindas da Argentina, revelavam discordâncias em relação ao tipo de ação das torcidas organizadas, defendendo uma forma de sociabilidade torcedora distinta que parece indicar novos sentidos atribuídos à paixão pelo futebol. Os novos agrupamentos torcedores definiam-se como movimentos de arquibancada, sem rixas, que pretendiam inaugurar um “novo conceito de torcida”.
O livro “Hooliganismo e a Copa de 2014”, organizado por Bernardo Borges Buarque de Hollanda e Heloisa Helena Baldy dos Reis, apresentava uma série de artigos sobre a expectativa com todas as mudanças trazidas pela Copa do Mundo, como os novos estádios – ou “arenas” e os velhos problemas nas arquibancadas. Outra investigação acadêmica é a de Thiago Moreira da Silva em sua pesquisa de mestrado na Fundação Getúlio Vargas (RJ) com o título “A Bancada da Bola no Legislativo Carioca”, analisando a trajetória de diversos políticos cariocas que tiveram sua origem no esporte. Do Vasco se destacam o deputado estadual Roberto Dinamite, eleito várias vezes nestes anos e o vereador Roberto Monteiro, ex-líder da Força Jovem.
O campeonato brasileiro começou no final de maio e foi até o início do mês de junho quando foi interrompido na quinta rodada para a disputa da Copa das Confederações, antecipando o clima festivo da Copa do Mundo com uma grande campanha nacionalista pela imprensa. No entanto, o mês de junho seria marcado por uma gigantesca onda de manifestações em várias capitais do país, especialmente aquelas que sediavam os jogos da Copa das Confederações (disputada em todo este mês). Os protestos que tinham como objetivo inicial barrar o aumento das passagens dos transportes municipais, logo ganharam outras conotações com destaque para o questionamento dos gastos em obras voltadas para a Copa do Mundo em 2014. Os manifestantes apontavam em seus cartazes as contradições com os milhões investidos nos novos estádios (“arenas”) sem trazer maiores benefícios a população brasileira que continuava sofrendo com a baixa qualidade nos serviços essenciais.
O “Novo Maracanã” foi o alvo de um grande protesto no dia 20 de junho, simbolizando uma luta contra a transformação do futebol-negócio em detrimento dos torcedores para elitizar o perfil de seus frequentadores com a elevação do preço dos ingressos, a relação escusa entre o governo e o consórcio OLX/ Odebrecht, o controle de uma entidade estrangeira (a FIFA), e os abusos promovidos pela Lei Geral da Copa. No final um cordão de isolamento feito pela polícia impediu os manifestantes se aproximarem do estádio.
A vitória incontestável da seleção brasileira da Copa das Confederações trouxe o fortalecimento do sentimento nacionalista reforçado pelo canto à capela dos torcedores nos estádios de todo o hino e não apenas os 30 segundos determinados pela FIFA, sendo uma das marcas sonoras nos estádios em meio aos protestos do lado de fora. “A final disputada no Maracanã, entre Brasil e Espanha, no domingo do dia 29 de junho de 2013, assistiu a intensos embates nas cercanias do estádio. Valendo-se da crítica aos gastos governamentais e da suspeição de corrupção por parte dos promotores do evento, manifestantes investiram em ações vandálicas contra a polícia, em trocas recíprocas de pauladas, pedradas, bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e balas de borracha”[1].
Com a reabertura do Maracanã para os clubes cariocas após a Copa das Confederações, uma polêmica logo contagiaria os dirigentes e as torcidas de Vasco e Fluminense. Tudo por causa da atitude dos cartolas do tricolor de escolherem ficar no lado direito das tribunas (local tradicional do Vasco). Apesar de ficar no lado esquerdo, a alegria dos vascaínos com a vitória sobre o tricolor por 3 a 1 só não foi maior que a de Juninho Pernambucano que voltava a jogar no Maracanã após 12 anos ausente. Sua volta foi em grande estilo, com direito a gol e os gritos da platéia que se vingou dos tricolores com o cântico no fim do jogo “Ôoo, ôôoo, ôôôoo, é o Destino”.
Neste ano o site Ludopedio, destinado a pesquisas sobre futebol, realizou uma entrevista com o professor Silvio Ricardo da Silva que explicou como desenvolveu sua trajetória acadêmica sempre pontuada por seu amor ao futebol e o seu clube de coração: “Vasco é anterior a tudo, é o início de tudo”. Sua relação com o futebol passa principalmente por sua família, em especial seu pai que lhe transmite o mesmo amor ao clube: “minha história com meu pai era de que ele não me contava historias de infância e sim histórias de futebol, sobre o que ele jogou e os feitos do Vasco. Isso foi me contaminando e desde que eu me lembro como gente, cinco, seis anos de idade, eu já frequentava o estádio. Isso foi muito forte na minha historia até hoje”. Para sua pesquisa de doutorado na Unicamp ele utilizou “entrevistas com torcedores, procurando variar idade, organizados, não-organizados onde também um indicava outro, e além disso observação. Ajudou-me muito ter contato com a própria história do Vasco. Eu precisava viver essa historia e falar para o mundo acadêmico essa história”.
O cineasta vascaíno José Henrique Fonseca fazia um documentário sobre o clube justamente na temporada em que o clube vivia uma péssima fase no campeonato brasileiro e era ameaçado de rebaixamento novamente. “Tenho vivido um contraste grande ao trabalhar numa historia tão bonita e o momento atual. Infelizmente, tem hora que a torcida não entende que só deveria ir ao estádio se fosse para apoiar”[2], lamenta o cineasta.
Em outubro as chances de o clube cair já estavam em 55%, segundo o matemático Oswald de Souza. Uma nova derrota para o Goiás provocou protestos da torcida que invade o vestiário em um dia de treino e cobram uma reunião com o diretor de futebol, Ricardo Gomes, e o técnico Dorival Júnior. Após o encontro o grupo vai para a arquibancada e grita "Não é mole, não. Tem cachaceiro jogando no Vascão", para o jogador Rafael Vaz e "Ô, ô, ô, ô, Bernardo é cheirador".
O pior estava por vir com a derrota para o Atlético Paranaense o clube era rebaixado e a transmissão ao vivo para todo o pais do vexame em campo (derrota por 5 a 1) só não foi pior que as cenas violência no estádio que contou com poucos policiais para a segurança dos torcedores. Além de dezenas de feridos, quatro pessoas removidas pela equipe médica foram levadas para o hospital em estado grave.
O confronto entre torcedores de Atlético-PR e Vasco em Joinville ganhou repercussão na imprensa mundial. A última rodada do Campeonato Brasileiro deixou marcas negativas para o país com as imagens para todo o mundo do país que sediaria a próxima a Copa do Mundo no ano seguinte.
Até o final do ano a imprensa esportiva acompanhou o trabalho da polícia e da Justiça que prendeu e processou vários líderes da torcida organizada Força Jovem do Vasco que já haviam se envolvido em um conflito que teve grande repercussão na imprensa com as imagens da TV na briga entre vascaínos e corintianos em agosto, em partida disputada em Brasília.
Após a ação da polícia de 3 estados prendeu 21 torcedores e estava a procura de mais 10, na operação batizada de “Cartão Vermelho”. No entanto, a ASTOVAS (Associação da Torcidas Organizadas do Vasco) lança uma nota defendendo seus torcedores e acusando o Atlético-PR, o Ministério Público e a Polícia de Santa Catarina de serem os maiores responsáveis pelo que aconteceu e acusa a diretoria do Vasco de omissão: “repudiar o tratamento ignominioso que nossos integrantes vem recebendo das ditas autoridades e de parte da grande imprensa, além de cobrar uma postura digna e honesta da atual diretoria Vascaína! Como foi inicialmente mostrado ao vivo, ainda sem possibilidade de cortes e edições farsescas que posteriormente apareceram, os torcedores do Vasco foram abandonados pela PM de Santa Catarina (...) Nós fomos agredidos e se não tivéssemos nos defendido, as conseqüências seriam ainda maiores do que alguns hospitalizados! Qual critério foi usado para deter apenas torcedores do clube carioca?”.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Hollanda, Bernardo. “Hospitalidade à Brasileira? A Cobertura Midiática dos Jogos da Copa de 2014 no Maracanã” in A Copa das Copas? Reflexões sobre o Mundial de Futebol de 2014 no Brasil. / organização José Carlos Marques.E-book. São Paulo: Edições Ludens, 2015.
[2] Fonte: O Globo, 20 de setembro de 2013.

Vasco São Januário 2013

Vasco 2013


domingo, 9 de julho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2012 A DESPEDIDA DO ANIMAL

                               “ão,ão,ão derruba a do anão” e “au,au,au. Estátua para o Animal”
                                                   Torcida provoca Romário e apóia Edmundo

2012                 A Despedida do Animal
        Edmundo, Juninho e Felipe. Três dos maiores jogadores da história do clube protagonizaram as manchetes dos jornais e a atenção de sua torcida no início do ano de 2012. O atacante fazia sua partida de despedida depois de abandonar os gramados em 2008. Os meias comandavam em campo o toque de classe do time que prometia colocar a nau vascaína no caminho das grandes vitórias. A esperança maior era o título da Taça Libertadores, mas antes o desafio seria o campeonato carioca e a promessa de acabar com o jejum de quase dez anos que incomodava bastante  a exigente torcida.
            A boa fase do time motivava o mercado editorial que lançava mais um livro sobre o clube. Desta vez era uma série de contos escritos pelo sociólogo Mauricio Murad, o músico Nei Lopes e o professor de literatura da UFF, Luis Maffei. “Contos da Colina. 11 ídolos do Vasco e sua imensa torcida bem feliz”. A obra conta doze contos, onze com uma estória em torno de um craque vascaíno, e um em que o protagonista é a torcida cruz-maltina.
No final de março, em partida amistosa contra o Barcelona do Equador (mesmo adversário da final da Liberadores em 1998) diante de 21.000 pessoas, Edmundo fazia sua despedida do clube em que atuou por 241 vezes marcando 137 gols: “A emoção entrou em campo bem antes de a bola rolar. Com os refletores do estádio apagados, Edmundo entrou em campo sozinho para ser saudado pelos milhares de torcedores que lotaram São Januário para ver o ídolo com a camisa do Vasco pela última vez. Número 10 às costas, o ex-atacante não conseguiu segurar a emoção e precisou enxugar as lágrimas. O próximo passo foi receber a braçadeira de capitão do apoiador Juninho Pernambucano. Depois de uma bela queima de fogos, Edmundo ainda recebeu uma placa do presidente Roberto Dinamite e fez o seu papel de ídolo ao cantar todo o hino vascaíno, que era tocado no alto-falante do estádio, em coro com os torcedores”.
Na partida que terminou 9 a 1, Edmundo marcou dois gols mas a emoção final ficou aos 40 minutos do segundo tempo quando o ídolo foi substituído e saiu dando a volta olímpica pelo estádio que o aplaudiu de pé.
Um mês depois Felipe, que havia recebido a braçadeira de Edmundo na sua despedida, faz uma de suas melhores exibições com a camisa do Vasco e marca dois gols na eliminação do Flamengo na semifinal do campeonato carioca. Em resposta ao atacante o Flamengo que havia provocado os vascaínos na véspera da partida decisiva, Felipe deu o troco e afirmou: “as partidas se ganham dentro de campo e não fora. Agora sim eu posso responder ao Vagner Love. Ele tem 28 dias para descansar e treinar para o Brasileiro. Realmente se ganha dentro de campo. Quem ganha a vida com a boca é cantor. Ele tem 28 dias para aproveitar”.
A decepção da torcida com a derrota para o Botafogo na final da Taça Rio só não foi maior que a tristeza com a eliminação para o Corinthians nas quartas-de-finais da Libertadores em São Paulo, em partida que o clube carioca teve grande atuação e viu o atacante Diego Souza perder um gol incrível que, certamente, daria a classificação para a próxima fase.
Em 2012 voltou a funcionar a Associação das Torcidas Organizadas do Vasco (ASTOVAS) depois de ficar mais de uma década desativada. Faziam parte da entidade os representantes das seguintes torcidas: Força Jovem, Ira Jovem, Guerreiros do Almirante, Renovascão, União Vascaína, Super Jovem, Rasta do Vasco, Vasboêmios, Vila Vasqueire, TOV e Pequenos Vascaínos. Tendo como presidente  Claudinho, ex-Presidente da Força Jovem.
Neste período dois livros importantes aumentariam a coleção de obras de leitores vascaínos. O trio Alexandre Mesquita, Eugênio Leal e Jefferson Almeida lançavam “Jogos Memoráveis do Vasco”. Outro livro importante foi a Torcida Brasileira, organizado por Bernardo Holanda, Victor Melo e João Malaia. Este último que havia defendido sua tese sobre o Vasco em 2010, escreve sobre as torcidas cariocas entre 1910 e 1940, destacando que nos anos 1920 tínhamos a maior torcida da cidade.
No meio do ano a principal notícia foi a aprovação da Lei Geral da Copa (12.663/12) no dia 5 de junho de 2012 sancionado pela Presidência da República. A lei trazia vários artigos polêmicos como a liberação do consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, isentar a FIFA dos pagamentos das taxas áreas de restrições comerciais próximas aos locais dos eventos e a previsão de exclusividade da FIFA da divulgação, publicidade, realização de propagandas e vendas relacionadas aos eventos futebolísticos, delimitando um perímetro de 2 (dois) quilômetros dos locais de eventos.
Em 2012 a Câmara Municipal do Rio de Janeiro fazia seu último tributo ao “Dia do Vasco” em agosto. O evento criado pelo vereador Roberto Monteiro não teve prosseguimento nos próximos anos. Entre os muito homenageados estava  o guitarrista Celso Blues Boy, falecido neste mês de agosto, em Santa Catarina.
O estádio do Engenhão passou a ser o principal local das disputas dos clássicos cariocas com o fechamento do Maracanã entre 2010 e 2013, passando a receber grande atenção da imprensa e dos pesquisadores sobre sua localização, dificuldade de receber grandes torcidas rivais e o aumento do preço dos ingressos, além da diminuição do publico. Mas os maiores confrontos não aconteciam na chegada ao estádio que tinham as partidas escoltadas pelo GEPE e sim em locais distantes. Os jogos entre Vasco e Flamengo terminam em mortes em 2012. Várias medidas repressivas são tomadas para impedir novos crimes. No dia 21 de agosto, pouco depois de um clássico entre os dois clubes, a Força Jovem do Vasco é punida pelo Ministério Público por seis meses dos estádios após a conclusão de que a morte de um torcedor do Flamengo em maio tinha sido executada por membros da facção. Pouco depois  o alvo da perseguição era a Torcida Jovem do Flamengo em função  do assassinato no bairro de Tomas Coelho do torcedor do Vasco Diego Leal, de 30 anos, após uma briga com flamenguistas no domingo (dia 19), em provável ato de vingança pela morte do torcedor do Flamengo em maio deste ano. As duas torcidas recebem a mesma punição do Ministério Público: o afastamento dos estádios por seis meses.
Na mesma semana no jogo entre Vasco e Fluminense no Engenhão, um grupo de torcedores do tricolor era preso acusado por roubo e agressão. A reportagem é enfática em defender as medidas punitivas: “no país da próxima Copa do Mundo, a menos de um ano da Copa das Confederações, surgiu, enfim, um exemplo de como tratar o banditismo disfarçado de torcida organizada. Desde domingo, estão no presídio de Bangu 2, na zona oeste do Rio, 21 integrantes da Young Flu. O grupo foi preso pelo Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), da Polícia Militar, acusado de espancar e assaltar dois torcedores do Vasco. A cadeia é o lugar adequado para quem se disfarça de torcedor para cometer barbaridades. E, como demonstra o passado recente das brigas de torcida, não basta banir os criminosos dos estádios. No caso do grupo da Young Flu, a confusão se deu fora e longe do Engenhão, onde Fluminense e Vasco se enfrentaram na tarde de sábado. Mas a prisão só poderá ser considerada exemplar se, em seguida, investigações ajudarem a extirpar o resto do bando - e não só da Young Flu, mas de outros grupos de delinquentes no Rio e no resto do Brasil” .
Em contraposição a esta perspectiva o historiador Marcos Alvito escreve um texto contestando a solução policial para as torcidas organizadas: “ao invés de perceber a violência das torcidas como fruto de patologias individuais ou coletivas, é preciso entendê-la como uma linguagem e se perguntar sobre a razão de, no Brasil, milhares de jovens escolherem pertencer a estes grupos. Murad relaciona a violência dos estádios (e em torno deles) com o alto grau de ilegalidade existente”[1] .
Embora a temporada de 2012 não tenha sido negativa o final do ano mostrou que a próxima temporada seria complicada. Nas últimas partidas do ano em São Januário a torcida Guerreiros do Almirante passa a acompanhar os jogos das sociais e protesta contra o presidente de forma veemente: “nós estamos TEMPORARIAMENTE NAS SOCIAIS, abandonando nosso tradicional lugar atrás do gol, para mostrar ao presidente Carlos Roberto de Oliveira, seus antigos e novos aliados, que SOMOS SÓCIOS E QUEREMOS MUDANÇAS!
As notícias da saída de Juninho para os EUA e a falta de pagamentos dos funcionários provocaram insatifação no clube no mês de dezembro: “cerca de 50 torcedores fizeram novo protesto em São Januário na tarde desta sexta-feira. O grupo voltou a atirar bananas para dentro do clube, além de gritar palavras de ordem contra o presidente Roberto Dinamite e toda a diretoria cruzmaltina. Inflamados, os torcedores exibiam faixas com os dizeres: “Juninho é rei! Obrigado pela verdade” e “O Vasco é gigante! Mete o pé, Bananite!”, enquanto soltavam fogos e gritavam pedindo que a diretoria colocasse em dia os salários de funcionários e jogadores”.
O fantasma de Eurico Miranda começava a voltar pelo estádio de São Januário e atormentar o sossego da gestão de Roberto Dinamite. Nos próximos anos, a disputa política interna voltaria com todo vigor. Para os vascaínos que começavam a sentir saudade do velho dirigente, o final do ano vinha com uma artilharia pesada do grupo de Eurico. Era lançado o livro “EURICO MIRANDA.Todos contra ele”, escrito pelo jornalista Sérgio Frias, com mais de 500 páginas descrevendo as lutas e os embates do dirigente. Rapidamente o livro esgotou nas livrarias e ganhou sucessivas edições no ano seguinte.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Alvito, Marcos. Maçaranduba neles!Torcidas organizadas e policiamento no Brasil. Revista Tempo | Vol. 19 n. 34 , 2012.

Vasco Engenhão 2012

Vasco São Januário 2012

quarta-feira, 5 de julho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2011 O TREM BALA DA COLINA

                                                                      “Rei, rei, rei, Juninho é nosso rei”
                                                                               Canto da Torcida

2011                  O Trem Bala da Colina
            Ao assumir a presidência do clube em meados de 2008, Roberto Dinamite conseguiu uma trégua da torcida até o início de 2011 quando ocorrem as primeiras manifestações contra a sua administração. Em janeiro um grupo de opositores realiza um protesto em frente ao estádio de São Januário levando cartazes e bananas em alusão ao estilo do dirigente comandar o clube. Além do presidente o alvo dos protestos era o tecnico Paulo César Gusmão e os craques Carlos Alberto e Felipe. Gritos e cânticos irritados de “Vergonha, time sem vergonha”, “Vasco é tradição, não é humilhação” e “Felipe, seu pipoqueiro, fique sabendo que você só quer dinheiro”, puderam ser ouvidos durante a manifestação dos torcedores revoltados com o time que ainda não tinha vencido em cinco rodadas do Campeonato Carioca.
            A resposta de Dinamite veio em março no futebol de areia quando o  Vasco  se tornou campeão do I Mundialito de Clubes de Beach Soccer. O 'Gigante da Colina' venceu o Sporting Portugal por 4 a 2. "Essa é uma conquista inédita, é o primeiro título mundial do clube! Tem um sabor especial! O torcedor vascaíno tem que comemorar e muito essa vitória, somos os primeiros campeões mundiais!", vibrou o jogador Betinho, que é tetracampeão da Copa do Mundo FIFA de Beach Soccer (2006/07/08/09) pela Seleção Brasileira.
            O titulo inédito acabou rendendo uma camisa criada pelo departamento de marketing que exaltava o “Campeão de Terra, Mar e Areia”. Mas a verdade e que nos gramados a campanha na Taça Guanabara esteve longe de levantar um troféu e a ausência de público em São Januário foi constante. A GDA estende uma faixa de protesto no estádio: “se o time não joga, a torcida não vem”.
            Neste ano é lançado mais um livro da coleção “Ídolos Imortais”. Desta vez chegava às livrarias “Os dez mais do Vasco”, escrita pelos jornalistas Cláudio Nogueira e Rodrigo Taves. Na obra encontramos a biografia de BARBOSA - ADEMIR - DANILO - BELLINI - ORLANDO - VAVÁ - ROBERTO - ROMÁRIO - EDMUNDO – JUNINHO. Escolhidos através de uma votação de 10 jornalistas vascaínos: Tárik de Souza, Rodrigo Campos, Rafael Marques, Lédio Carmona, Hugo Lago, Fábio Tubino, Daniel Pereira e João Ernesto Ferreira, do Centro de Memória do Vasco.
Mas a temporada estava apenas começando e logo o time se recuperou e chegou à final da Taça Rio contra o Flamengo. Neste dia ocorreram inúmeros distúrbios pela cidade envolvendo brigas e conflitos entre as duas torcidas. O maior problema aconteceu na praça do Barreto em Niterói quando tiros foram disparados de um carro e tumulto generalizado no local, terminando com nove baleados e 102 torcedores presos entre eles 76 torcedores do Vasco e 25 do Flamengo. Em Campo Grande uma briga marcada pela internet acabou com alguns baleados e 1 morto.
Apesar da derrota para o Flamengo nos pênaltis, o time seguiu em frente e, pouco mais de um mês depois, se sagrou campeão da Copa do Brasil pela primeira vez.  Tanto o Vasco quanto o Coritiba buscavam o inédito título da competição nacional. Mesmo fora de casa, o Gigante trouxe o troféu para São Januário. E a conquista foi heróica, na visão de quem viveu aquela final em que  o time sofreu a intensa pressão no Paraná. O jogador Rômulo lembra a atmosfera da partida: "As ruas e o estádio estavam abarrotados. Tinha muito torcedor do Coritiba no Couto Pereira, e a torcida apoiou do início ao fim. A pressão foi grande naquele dia”, disse o volante. Ao retornar ao Rio de Janeiro, os jogadores desembarcam no aeroporto e são recebidos por uma multidão ansiosa em recepcionar os ídolos que partem em carreata pelas principais ruas do Centro até São Januário quando uma festa estava programada. Depois de 8 anos sem comemorar um título a torcida praticamente virou a madrugada comemorando o título mostrando que o clube ainda era capaz de mobilizar uma massa por toda a cidade que foi dormir ao som dos fogos e dos gritos de “ é campeão”. Uma nova música ganha as ruas da metrópole. Composta pelo MC Charles, o Trem Bala da Colina, era uma resposta criativa ao rival que tinha uma canção de um tal “bonde sem freio”. Na madrugada carioca o som do funk dizia: “Já tive Expresso da vitória, agora vamos pra ciima aqui não tem essa de bonde é o TREM BALA DA COLINA, é o trem bala bala bala bala da colina!Puxa o Trem Vamos para Cima!É o trem Bala da Colina”. Outra canção de bastante sucesso nesta Copa do Brasil, foi o “ Ahê, Pulaê, deixa o caldeirão ferver”
Ao lembrar deste dia, a atriz Juliana Paes recorda que comemorou o título assistindo pela TV em casa com seu filho de seis meses choravando na hora da decisão: “meu Deus, vou acudir o Pedro ou ver o jogo? Aí ele começou a gritar mesmo e eu fui dar de mamar. No momento em que amamentava, o juiz apitou, nem pude vibrar. Estavam começando os fogos, eu doida pra ir para a varanda, o grito entalado na garganta... Foi a comemoração mais solitária e silenciosa de toda a minha vida”.
A festa prosseguiu nesta semana com o retorno de Juninho ao clube depois de 10 anos. O jogador já havia anunciado sua volta em abril, mas somente no dia 11 de junho, justamente durante a entrega das faixas de campeão da Copa do Brasil, Juninho recebe uma grande homenagem do clube e de sua torcida. Estiveram presentes vários ex-jogadores de 2001, além de Geovani, ídolo dos anos 1980 e 90. Edmundo voltava a pisar no gramado desde a última vez em 2008 quando o clube caiu para a Série B. A cantora Fernanda Abreu atuou como mestre de cerimônias apresentando Juninho que entrou em campo através do túnel apelidado de “Trem Bala da Colina”.
Antes do campeonato brasileiro representantes das torcidas organizadas de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco firmaram na sede do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro um pacto pela não violência. No encontro foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) proposto pelo MP, um acordo que também incluiu o Ministério do Esporte, a Polícia Militar, a Superintendência de Desportos do Estado do Rio (Suderj) e a Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ). Pouco depois, representantes da IRA Jovem e da FJV se encontram na FTORJ para um acordo entra as partes em litígio. O resultado, de acordo com a entidade, “é possível SIM, um debate franco de idéias e cobranças, agindo com HONRA, RESPEITO e impondo a PALAVRA DE HOMENS que somos”.
Na mesma época, um grupo de músicos vascaínos se reuniu para uma grande confraternização no Citibank Hall no dia 23 de agosto que gerou a gravação do DVD “Vamos Todos Cantar de Coração”. Estiveram presentes Nelson Sargento, Martinho da Vila. Paulinho da Viola, MC Charles, Fernanda Abreu, Teresa Cristina, Erasmo Carlos, Serjão Lorosa, Luiz Melodia, Dóris Monteiro, Celso Blues Boy, Dicró, Paulinho da Mocidade e  a bateria da Unidos da Tijuca.
O mês de agosto ainda reservou grandes emoções para os vascaínos que faziam boa campanha no campeonato brasileiro e na Copa Sul-Americana. No final do mês duas partidas contra o Fluminense (dia 21) e o Flamengo no Engenhão, movimentaram o público. Contra o tricolor, um grupo de 21 vascaínos foi preso acusado de preparar uma emboscada para os rivais. Eles não haviam seguido o Termo de Ajustamento Coletivo (TAC) que previa a escolta da polícia para o deslocamento até o estádio. No jogo contra o rubro-negro, o problema aconteceu dentro do estádio. O técnico do Vasco Ricardo Gomes teve um AVC durante a partida. Enquanto os  vascaínos gritavam o seu nome, no outro lado, vinham os apupos macabros de “uh, vai morrer”. Toda a imprensa comentou a atitude ridícula e desumana dos rubro-negros. No período em que o técnico se recuperava no hospital veio a triste notícia da morte de um dos maiores simbolos da torcida vascaína, o folclórico massagista Pai Santana. Na intenet vários torcedores fazem suas homenagens edeixam mensagens carinhosas. Para o vascaíno Robert ficou a lembrança: “quando eu era pequeno meu pai me levava aos jogos do Vasco, tanto no Maracanã, quanto em São Januário, a Torcida gritava Santana Santana ...Ai ele chegava com a nossa bandeira e tremulava ela a Torcida Vascaína ia a loucura !!! Eternamente Pai Santana !!!Deus ganhou um grande Vascaíno!!!”
A boa campanha do time não impedia da torcida enxergar os problemas que afetavam o futebol brasileiro que era alvo de inúmeras denúncias na imprensa internacional contra o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Durante o clássico entre Vasco e Botafogo no Engenhão, em novembro, membros da Associação Nacional dos Torcedores (ANT) recolhiam assinaturas para um abaixo-assinado pedindo a saída do dirigente.  O torcedor vascaíno Ricardo Massari foi um dos interessados em assinar a petição. Ele parou até para tirar foto ao lado das placas contra o presidente da CBF. "Temos que apoiar, está na hora do torcedor perceber que ele é um dos mais prejudicados com todas essas denúncias de corrupção".
Contra o Fluminense, na penúltima rodada do campeonato brasileiro a polêmica que tomou as redes sociais foi um vídeo postado na internet com o repórter da Rede Globo comemorando um gol do Vasco. O jornalista Eric Faria vibrava com o gol. Dezenas de posts a favor e contra colocam lenham na fogueira. “Bacana ver a torcida mulamba revoltada com o Eric Faria… Só porque ele comemorou o gol do Vasco kkkkkkkkkkk. O Repórter Eric Faria comemorando o Gol do Vasco! Por isso que fica falando mal do Fla no TT. Tá explicado!!!”
Em dezembro, antes da última rodada do campeonato brasileiro, em disputa acirrada por Vasco e Corinthians, é feita a primeira manifestação da campanha “O Maraca é Nosso”. Centenas de torcedores dos diversos clubes cariocas se concentraram enfrente a estátua do Belline contra a possível privatização do estádios e as reformas previstas que acentuavam a elitização do futebol, com o provável aumento no preço dos ingressos. Liderados pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, os torcedores também questionavam os custos elevados da obra: “o pensamento do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas é que o Maracanã é um bem público, é um patrimônio de todos os cariocas e dos brasileiros. É até um patrimônio da humanidade, que a gente não pode gastar R$ 1 bilhão de dinheiro público no Maracanã e entregar à iniciativa privada. Quer dizer, o Estado fica com o prejuízo e a iniciativa privada, com o lucro”, disse Marcos Alvito, um dos líderes do movimento.
Na contra-corrente do movimento de luta contra a descaracterização do Maracanã, um site oficial entrevistava torcedores do passado para lembrarem o futebol “dos velhos tempos”, confraternização dos torcedores rivais, a Copa de 1950 e nenhuma pergunta polêmica. Manoel Bigode, um dos fundadores da Força Jovem do Vasco e idealizador da Sala das bandeiras, dá seu depoimento marcado pela emoção de assistir a Copa de 1950 e compara as diferenças daquele tempo: “um fato que para os dias de hoje seria atípico, e que na época se via muito, eram torcedores de terno, gravata e chapéu Panamá no meio da antiga geral. Não há palavras para descrever a sensação que era assistir à final da Copa do Mundo (...) já entrei junto com a torcida do Flamengo e só nos separávamos quando terminava a subida da rampa. Íamos para direita e os flamenguistas para a esquerda. Cansei de ir com a camisa do Vasco em um bar freqüentado por flamenguistas”[1].
Um problema que persistiu neste período foi a divisão da Força Jovem com dois grupos disputando o controle da agremiação. Em entrevista a imprensa o representante do GEPE explica o fato e a resposta policial: “infelizmente, existe uma divisão entre a torcida organizada do Vasco da Gama, a Força Jovem. A Polícia Militar efetua um cordão de isolamento entre a mesma torcida organizada. Houve uma dissidência dentro da Torcida. Eles não aceitam a presidência do atual líder da torcida”. Para ele o motivo principal da divisão é essencialmentede ordem monetária: “hoje, a Torcida Organizada é um grande comércio (...) As pessoas lutam por esse domínio da torcida organizada para ter esse poder na mão. Isso hoje é o principal fator de desavença entre as torcidas organizadas”[2].
Para a última partida do ano a expectativa da torcida era conseguir vencer o Flamengo e esperar por um resultado positivo do Palmeiras diante do Corinthians.  Nesta semana o sonho da conquista da Tríplice Coroa (Copa do Brasil, Brasileiro e Sul-Americana) foi desfeito com a derrota no Chile, no entanto, para incentivar os jogadores, cerca de 200 torcedores compareceram ao aeroporto para prestigiar o elenco que regressava ao país. “Feliz com a recepção calorosa, o técnico Cristóvão Borges disse que o time conquistou a confiança dos torcedores por ter demonstrado garra. O torcedor demonstra confiança porque sabe que o time sempre deu resposta. Eles são nossos aliados e jogam junto. Se hoje eles acreditam no título é porque percebem a nossa entrega desde o início. Fiquei muito feliz com essa recepção, e vamos levar essa energia para o campo”. Também o presidente Roberto Dinamite não escondeu sua satisfação afirmando: “dessa torcida eu espero tudo”.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: http://www.maracanario2014.com.br em 26 de Julho de 2011.
[2] Fonte: NETVASCO (transcrição) 24 de Novembro de 2011.

Vasco vasco.com.br 2011

Vasco São Januário 2011


domingo, 2 de julho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2010 OITO BANDEIRÕES

                                          "Sem torcedor não há futebol, sem futebol não há alegria"
                                                                      Associação Nacional dos Torcedores

2010                         Oito Bandeirões

        O início de temporada foi feito no Espírito Santo com a participação entusiasmada de milhares de torcedores que recepcionaram os jogadores no aeroporto e acompanharam com bastante interesse os treinamentos da equipe não parando de cantar a música símbolo da volta do time a elite do futebol Brasileiro: “ O sentimento não pode parar, pois todo Vascaíno tem amor infinito, cantarei de coração, Vascooooooo da Gamaaaaaaaa”. A recepção dos jogadores foi organizada pela  27ª Família da Força Jovem que contava com cerca de 1.500 participantes e um patrimônio invejável: uma sede própria, 12 Bandeiras, 3 Faixas (sendo uma de 20 metros) e  bateria própria.
            A principal contratação para a temporada era o atacante Dodô que recebeu uma música em sua homenagem feita pelo MC Charles: “Dodô é o Poder”, uma adaptação de um funk. Outra música que prometia contagiar a galera em 2010 foi a escolhida pela GDA, também uma adaptação da música de Raul Seixas e Paulo Coelho, uma paródia de “Eu nasci há dez mil anos atrás”, transformada em “Eu nasci amando o Vasco demais”. Pelo Twitter, Paulo Coelho deu sua aprovação. “Como Vascaíno, preciso confessar que a escolha não poderia ter sido melhor”. No entanto as duas canções fizeram sucesso temporário.
            Em fevereiro a Força Jovem do Vasco (FJV) completou 40 anos de fundação recebendo felicitações do presidente do clube: “a Força Jovem do Vasco tem sido um diferencial na sua postura ao torcer pelo nosso grandioso Vasco, norte a sul do Brasil”. O evento é comemorado como uma nova etapa do clube, não faltando alfinetadas contra a antiga direção: “Eu acho que essa nova diretoria tem dado uma resposta a altura de sua demanda e exigência, a Força Jovem teve um tempo que ela caiu muito na antipatia do torcedor vascaíno que achava que a torcida era uma massa de manobra da antiga direção do clube, hoje não, hoje a gente respira novamente ares de independência”, avalia Roberto Monteiro, ex-presidente da torcida e vereador eleito em 2008.
 O bom relacionamento entre o clube e a sua principal torcida dava a oportunidade dos jogadores prestigiarem aos atos da torcida. A jovem promessa de craque Phillipe Coutinho participa de uma promoção presenteando a FJV para um sorteio de sua camisa.
A revista oficial do clube em março dedicou uma matéria especial sobre dois torcedores folclóricos da torcida vascaína que viraram celebridades nas arquibancadas atraindo a atenção de crianças que se aproximavam para registrar em fotografias a presença dos fantasiados: “Mister M e o Boneco inflável do Shrek são figuraças queridas na torcida do Vasco. O carisma de ambos pode ser avaliado na média de 500 fotos que em dias de grandes jogos, a galera do Gigante da Colina faz questão de tirar ao lado deles”.
A derrota do Vasco na final da Taça Guanabara para o Botafogo causou grande tristeza para a torcida que recebia outra notícia triste com a morte da torcedora-símbolo da TOV, Aida de Almeida. Tia Aida, como era conhecida, morre aos 84 anos no dia 11 de abril. Outra morte sentida foi a do radialista vascaíno Sérgio Nogueira, locutor oficial do Estádio de São Januário e apresentador do programa “Só Dá Vasco”, pela Rádio Bandeirantes. Em sua homenagem, a torcida União Vascaína faz uma bandeira de 4x4 metros com o seu rosto e os dizeres "A Voz da Nação Vascaína".
A relação positiva de Roberto Dinamite com a torcida do Vasco começa a ter os primeiros abalos neste semestre com a crítica de torcedores sobre as contratações para o campeonato brasileiro. A GDA que sempre teve uma atitude mais comedida em suas notas, parte para o ataque afirmando que “após quase 2 anos, poucas coisas mudaram positivamente no C.R. Vasco da Gama. A inércia da administração Roberto Dinamite, muito nos preocupa”. Entre as várias críticas estão os “são setores que necessitam de uma atenção especial, as Vice-Presidências Jurídica e Médica. Primeiramente, a VP Jurídica, que se tornou piada  para todos(...). A ineficiência de nosso Departamento Médico é vista a “olhos nus”(...) Estamos cansados de ver contratações de jogadores de times pequenos !!!!! Portanto, pelo acima exposto, estaremos de protesto, por tempo indeterminado”[1] A Força Jovem protestou com faixas. Numa delas se lia: “Pensar Grande é Agir Como Gigante-Contratações de Peso! Técnico de Ponta!” Para Jorge Mansur, presidente da União Vascaína, as novas contratações estão longe do esperado. O metarlúgico Davi de Oliveira Santos, Presidente da TOV, está de acordo com Mansur sobre a fragilidade do elenco vascaíno e a importância da contratação de reforços de peso para a campanha no Brasileiro.“Esse Time atual do Vasco é brincadeira”, lamenta a liderança [2]. Nestes dias uma notícia divulgada pela imprensa dizia que a torcida invadiu o campo de treino para ameaçar os jogadores. A FJV em nota se pronuncia sobre os fatos ocorridos. “Cerca de 30 torcedores foram cobrar atitudes dos jogadores vascaínos no treinamento de terça-feira em São Januário. Os mais cobrados pela Torcida foram o lateral-direito Élder Granja, o volante Nilton e os atacantes Elton e Dodô. A posição da Torcida era dar uma sacudida nos atletas. Em nenhum momento houve agressão. Foi um protesto pacífico”.
A maior briga da Força Jovem neste primeiro semestre não foi contra nenhuma torcida rival e sim com a sua própria rainha, Dani Sperle. A modelo que passou a namorar o ator pornô Alexandre Frota participa de um programa de televisão (Superpop) apresentado por Luciana Gimenez. Na ocasião seu namorado (que já foi integrante da Torcida Jovem do Flamengo), rasga uma camisa do Vasco. Em nota oficial a FJV afasta a rainha do cargo e convoca um concurso para a escolha da nova rainha da torcida.
Em maio, no site oficial a torcida divulga o resultado da escolha da nova rainha após vários dias de votação pela internet, Daniele Vilas Boas vence em um concurso muito disputado e com mais de 7 mil votos e 44 % de aprovação.
Pouco antes da Copa do Mundo na África do Sul é realizado em maio no Rio de Janeiro o 2º Seminário Nacional de Torcidas Organizadas. Cerca de 200 representantes de todas as principais torcidas organizadas do Brasil discutiram formas de combater a violência nos estádios e um conjunto de medidas elaboradas pela torcidas, polícias estaduais e membros do Ministério de Esporte e o Ministério da Justiça.
O Procedimento Operacional Policial começa a ser implantado no início deste campeonato brasileiro. “O procedimento começou a ser elaborado em 2009. Representantes de Governos, da sociedade e pesquisadores trocaram experiências e sugestões que originaram um documento com mais de 100 medidas de segurança. Entre as medidas está a escolha do tipo do armamento dos policiais, a tomada de depoimentos, como articular o atendimento de saúde nos estádios, formas de monitorar o deslocamento das torcidas e como será organizado o transporte público em dias de jogo”[3].
Também no Rio de Janeiro era lançado o livro de Bernardo Hollanda sobre a História das Torcida Organizadas Cariocas, baseado em sua  tese de doutorado defendida em 2008. Nele, o historiador faz uma brilhante análise da formação das torcidas organizadas na cidade, concentrando sua análise especialmente no final dos anos 1960 com a formação da Torcidas Jovens. Seu trabalho passa a ser uma referência para o estudo do tema e sua atuação tanto na FTORJ como nos debates acadêmicos passa a ser uma constante. Junto do sociólogo Maurício Murad e da antropóloga Rosana Câmara, Bernardo atua no sentido romper com o estigma preconizado pelos meios de comunicação sobre as torcidas.
O ano de 2010 foi marcado pelo recorde de lançamento de livros sobre o nosso clube. Ao todo foram sete livros com as mais diversas abordagens, começando pela pesquisa histórica de Alexandre Mesquita e Jeferson Almeida com "Um Expresso Chamado Vitória", que conta a trajetória do time vascaíno das décadas de 1940 e 1950, narrando como se formou a base que conquistou inúmeros troféus e teve como ápice o título de campeão sul-americano, no Chile. Já o geógrafo Marcelo Matos faz uma análise do contexto sócio-espacial de nosso estádio em “SÃO JANUÁRIO, Um caldeirão no centro de um bairro”. O Ex-goleiro vascaíno Valdir Appel (jogou entre 1965-1972) lançou 'O Goleiro Acorrentado'. Estudando um passado mais recente, tivemos "Vasco: Glórias, Títulos e Garra, 1996-2009". O trabalho feito pela jovem escritora e estudante de jornalismo Elisa de Vicq de Souza Dantas. Outra obra que fez sucesso foi “Vascão, o Gigante da Colina em quadrinhos”, de Ziraldo. Registrando, Mais uma novidade editorial era 'Amor Infinito', do fotógrafo Marcelo Sadio, com as imagens da campanha vitoriosa na série B, de 2009. Em novembro era lançado '365 motivos para ser vascaíno’, de Bruno Mazzeo e Sergio Almeida.
A moda entre as torcidas vascaínas em 2010 foi criar seus bandeirões. Na da menos que 8 bandeiras gigantescas eram abertas durante o clássico com o Flamengo no dia 01 de agosto. A torcida do Vasco deu um show de beleza e criatividade no Maracanã com a exibição de 8 bandeirões: o da Vasqueire, o Camisão e a da Cruz de Malta da GDA, o da Força Jovem, o da Pequenos Vascaínos, o da União Vascaína, o da Ira Jovem, e o da Rasta. Cada torcida monta uma verdadeira operação de guerra para trazer a bandeira para o estádio. A Pequenos Vascaínos descreve as características de seu pavilhão: “tem 100 metros de comprimento e 41 de altura, mas os números são ainda mais impressionantes, foram usados, 30 mil metros de linha e dez galões de tinta. O peso? São 400 quilos que só podem ser carregados por, pelo menos, 25 pessoas”.
Entre os torcedores outra moda que se popularizava era exibir nas redes sociais as tatuagens com imagens do clube. Com o sucesso do lançamento da camisa 3 do clube inspirada na Cruz Templária, o departamento de marketing criou a campanha “Vasco na Pele”, em que o tatuador Eric Codo fez 802 Cruzes Templárias na pele dos torcedores, conseguindo com esta proeza entrar para o Livro dos Recordes.
Em agosto por ocasião da comemoração dos 112 anos do clube, é realizado, pelo quarto ano consecutivo na Câmara dos Vereadores, o “Dia do Vasco”, sendo homenageados com a Medalha Pedro Ernesto (principal comenda da cidade) o Vice-Presidente médico do clube, Manoel Moutinho e o Ministro da Igualdade Social, Eloi Araújo. A Força Jovem foi homenageada pelo seu aniversário de 40 anos, através do primeiro presidente da torcida, Manoel Português, assim como alguns ex-jogadores: Alfinete, Gaúcho e Roberto Dinamite.
Na mesma semana houve outra comemoração da torcida em São Januário com a presença de um trio elétrico levando a rainha da torcida Daniele Vilas Boas e do MC Charles. Em seguida milhares de torcedores caminharam de São Januário até o Maracanã para o jogo com o Fluminense.
O jogo acabou sendo trágico para um dos diretores da torcida Força Jovem do Vasco (FJV), Antonio Marcos Alves de Oliveira, de 31 anos, conhecido como Marquinhos ou Gabiru. Segundo testemunhas, ele foi espancado por torcedores da Força Flu quando passava pela passarela da estação de trem de São Cristóvão, em direção ao Maracanã.
No final do ano de 2010 o site semprevasco realiza quatro grandes entrevistas com torcedores vascaínos com o título: “Torcidas Organizadas, associações ou  alas dentro do clube?”. Respondem as mais diversas perguntas Amâncio César (TOV), Beto Grajaú (FJV), Carlos Miranda (GDA) e a cardiologista, Dra. Zoraia Grigolato. Também a Revista Oficial do Vasco dedica suas páginas neste ano com reportagens sobre a Pequenos Vascaínos, a rainha da FJV, Jorge Mansur (União Vascaína) e Beto (Rasta).
A Confederação Nacional das Torcidas Organizadas (CONATORG) realiza em Brasília uma assembléia no auditório da CUT-DF com a presença de lideranças de todo o país. Do Vasco foram representantes da Ira Jovem e da Força Jovem. Entre as principais deliberações: a) protesto na Esplanada dos Ministérios; b) o protocolo de petição no STF da ADIN – Ação Direta de Inconstitucionalidade do Art. 39-B do Estatuto do Torcedor e; c) fundação da Federação Nacional das Torcidas Organizadas – FENATORG. Durante o evento foi votado uma moção de moção de agradecimento pelo empenho particular do Neguerê, vice-presidente da 22ª. Família da Força Jovem do Vasco – Distrito Federal, em favor deste movimento, sendo também acatado pela Confederação.
Em outubro de 2010, um grupo formado inicialmente de torcedores universitários no Rio de Janeiro insatisfeito com o fechamento do Maracanã e com as mudanças prometidas nos estádios, cria ANT (Associação Nacional dos Torcedores) e rapidamente centenas de pessoas de todo o Brasil começam a participar e criar filiais em seus estados. A meta do coletivo é definida em seus  sete pontos principais:
1. A exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol, fruto de uma política deliberada de diminuição da capacidade dos estádios, extinção de setores populares dos estádios e aumento abusivo dos ingressos
2. O desrespeito à cultura torcedora com a extinção de áreas populares como a geral, onde há uma tradição própria de participação no espetáculo que inclui assistir ao jogo de pé (o que acontece na Alemanha)
3. A falta de transparência no futebol brasileiro, há décadas nas mãos de dirigentes incompetentes e corruptos; exigimos a democratização das decisões acerca do futebol brasileiro com a participação dos torcedores; por exemplo: as sucessivas e milionárias reformas do Maracanã, feitas sem nenhuma consulta aos torcedores
4. A exploração politiqueira do futebol visando eleger candidatos que aproveitam-se da sua popularidade para conseguirem mandatos contra o povo
5. O controle das tabelas e horários dos campeonatos na mão da rede de televisão que há décadas detém o lucrativo monopólio das transmissões televisivas de jogos de futebol; horário máximo de 20h para o início das partidas durante a semana e 17h aos domingos
6. A retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas
7. A falta de meios de transporte dignos durante os dias de jogos; exigimos esquemas especiais em dias de jogos
O coletivo da ANT faz campanhas nos estádios. No primeiro jogo entre Vasco e Flamengo no Engenhão é feita uma panfletagem divulgando os sete pontos de luta. O jogo é marcado pela extrema tensão entre as torcidas e com a possibilidade de novas mortes como aconteceu no clássico entre Vasco e Fluminense. O público não chegou a 30 mil pagantes. Um dos menores de todos os tempos. Através de um levantamento dos públicos nos jogos entre Vasco e Flamengo pelo Campeonato Brasileiro entre 1971 e 2001. Do total de 29 jogos, em apenas 4 vezes tivemos menos de 30.000 pagantes[4].
Em novembro o presidente da FJV se afasta do seu posto e assume em seu lugar Juninho. Na saída do cargo Claudinho lista uma série de realizações durante a sua gestão: Sede Social, altura da FJV; CNPJ da torcida regularizado; Restabelecemos  a credibilidade da Torcida com o Clube e as autoridades; Novo site modernizado; Bateria reformada; 01 faixa de viagem;-02 faixas oficiais – preta e outra branca; 50 bandeiras; 01 Bandeirão de 90 x 40 (Um dos maiores do Brasil) e uma Boutique em dias de jogos.

Eleito o melhor zagueiro do campeonato brasileiro, o zagueiro Dedé tornou-se o principal jogador do elenco. Ele que quase foi dispensado no início do ano, deu a volta por cima e conquistou o coração dos torcedores que sonhavam com o clube voltar aos melhores anos na década seguinte.
 Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: http://www.guerreirosdoalmirante.com.br consulta em 26 de maio.
[2] Fonte: Jornal Meu Vascão.
[3] Fonte: http://www.uai.com.br.
[4] Fonte: Revista Placar: 1972 – 25.875;   1987 – 28.682;   1994 – 16.992 e  1998 – 21.848.

Vasco Maracanã 2010

Vasco Maracanã 2010