sexta-feira, 16 de junho de 2017

VASCOOPER 1975: HISTÓRIA

Torcida Organizada do Vasco da Vila da Penha, estreou em 30 de Março de 1975 e teve como Chefe Marinho.

ESTAMOS CRESCENDO
O Vascão está cada vez mais forte e a nossa Torcida Vascoopes também, e nós precisamos de torcedores para crescer ainda mais.
Devemos participar desse crescimento torcendo com mais amor e maior intensidade com a nossa Vascooper.
O negócio é o seguinte, bicho: criamos a Vascooper e precisamos de vocês, Vascaínos como sócios da nossa Torcida, assim como o Vasco para cima de vocês, como torcedor.
A Vascooper estreou no ano passado no jogo Vasco x Fluminense e o placar foi joia (2 a 1). Estamos nos organizando para sermos aquela força Vascaína. 
Entre em contato conosco, sem demora, nas arquibancadas, com o Pepito, Júlio César e Cristiano.
Agradecemos a Força Jovem e ao Eli Mendes (Chefe) e ao Carlos pelo apoio que nos vêm dado, ajudando-nos a colocar nossa faixa nos jogos do Vascão.
Pepito, Júlio César, Cristiano, Sérgio (Jum Jum), Comando da Vascooper, Vila da Penha.
Fonte: Jornal dos Sports 20 de Maio de 1976

Vascooper Jornal dos Sports 1976

Vascooper Jornal do Vasco 1975

Vascooper Jornal do Vasco 1975

Vascooper Jornal dos Sports 1976

Vascooper São Januário 1976

Vascooper Maracanã Jornal do Vasco 1976


quarta-feira, 14 de junho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2005 DIVISÕES NA FORÇA JOVEM

                                                                  “Maior expressão de amor ao Vasco”
                                                                                Faixa da TOV

2005               Divisões na Força Jovem

            A história das torcidas organizadas demonstra que há períodos de união e crescimento numérico e outros de conflitos e divisões, provocando dissidências e afastamentos. Como em qualquer organização social e popular é preciso entender que a dinâmica destes movimentos envolve manifestações de solidariedade, altruísmo, abnegação e também de oportunismo, vaidade, desafetos, enfim, trata-se de um fenômeno complexo pois envolvem as paixões humanas em ebulição.
            O contexto geral destes anos foi de intensas disputas no interior da maior torcida organizada do Vasco. A Força Jovem (FJV) viveu uma crise que outras torcidas no Brasil também enfrentavam ou que enfrentariam nos próximos anos. O gigantismo da agremiação, os interesses pessoais, as manifestações político-partidárias, as interferências dos dirigentes do clube e a má fase dos times nestes anos, interferiram de sobremaneira no percurso da organização torcedora. Não foram poucos os momentos em que muitos adeptos da torcida entraram em confronto seja por meio de palavras mais ríspidas e xingamentos ou até mesmo partindo para a agressão física.
            Em janeiro de 2005 eram realizadas as eleições anuais da FJV, com a disputa entre as chapas “Retorno das Famílias”, liderada por Marcondes e “Unidos Por Um Só Ideal”, encabeçada por Léo do Méier, tendo como vitoriosa a chapa “Retorno das Famílias” de Marcondes, com 662 votos contra 192 votos da chapa derrotada.
Em seguida é feita uma reunião com o presidente do clube, Eurico Miranda e os representantes da chapa recém-eleita. Indagados sobre sua posição diante da diretoria do clube, eles responderam que seria de total independência. Daí em diante começa uma fase de perseguição do dirigente contra a organizada. Estas informações contam na nota oficial da torcida em fevereiro. A nota ainda revela as ameaças do dirigente de distribuir 2.000 ingressos aos membros do grupo derrotado em janeiro.
A seqüência dos fatos demonstra que o resultado da eleição não garantiria tranqüilidade para a nova direção administrar a torcida. O presidente Marcondes acena para uma união, mas acusa: “infelizmente, grupos inconformados com a nova orientação e contando com poderosos padrinhos não aceitam o resultado e tentam dividir a torcida, atacando a nossa unidade. O Vasco e a FJV são maiores do que todos nós. Todos os bons Vascaínos, quer gostem ou não do Eurico, e todos os membros da Força, quer gostem ou não de mim, devem se unir em torno do Vasco e da Força Jovem”.
Pela oposição Gustavinho responde ao NetVasco fazendo várias acusações sobre as irregularidades no pleito. Entre elas acusa a confecção de mais de 500 carteiras de sócios no final de 2004 e a interferência de um partido político que ajudaria na chapa de Marcondes.
O próximo capítulo é registrado numa reportagem do Lancenet com a interferência da polícia no caso: “a nova Diretoria da Torcida Organizada Força Jovem do Presidente eleito Marcondes registrou, nesta segunda, queixa na 17ª delegacia do Rio, alegando que o Presidente do Vasco, Eurico Miranda, impediu que a Torcida retirasse seus pertences, que ficam guardados em uma sala localizada no Estádio de São Januário. Porém, a assessoria de imprensa do clube informou que o Presidente já havia autorizado a retirada do material, com prazo até o meio-dia do último sábado, mas a torcida não compareceu”.
Outro pepino para a torcida descascar era a situação de Romário. Muitos torcedores da FJV apoiavam o craque se ele se retratasse com a torcida. Este acordo foi costurado com a mediação de uma nova musa da torcida, Luciana Picorelli, também musa da Portela em 2005. Romário seria o padrinho dela ao fazer a sua coroação. O atacante sinaliza para a paz com a torcida: “Romário evita declarações públicas, mas, a amigos, tem dito estar feliz por ter resolvido o impasse com a facção que o perseguia em campo. A reaproximação foi sacramentada na comemoração do primeiro gol dele na goleada sobre o Friburguense por 4 a 1. O Baixinho apanhou um boné da facção com um amigo atrás do gol, pôs na cabeça e correu para comemorar em direção à Torcida Organizada, tirando-o em sinal de respeito”.[1]
Após o jogo entre Vasco 6 x 0 Moto Clube, pela Copa do Brasil, o que muitos temiam aconteceu: uma briga generalizada entre as duas correntes da FJV: “a torcida esta rachada, no dia 16 de março aconteceu o confronto. Quem pensou que a tranqüilidade reinaria em São Januário num jogo com pouco mais de 1.500 pagantes que o Vasco venceu por goleada, se enganou. No segundo tempo, torcedores de alas rivais dentro da Força Jovem se enfrentaram nas arquibancadas e a Polícia teve que fazer um cordão de isolamento entre os grupos. Na saída do Estádio, mais confusão. O clima na FJV anda tenso desde as eleições de Janeiro, vencidas por uma das chapas de Oposição (O Retorno das Famílias)[2]. 
Para se legitimar no universo das torcidas aliadas, o grupo de Marcondes tenta marcar uma reunião de apoio com dirigentes da torcida Mancha Verde (Palmeiras) em São Paulo, celebrando os 20 anos de união entre as duas torcidas. Nas palavras do novo presidente da FJV: “a oportunidade de estreitamento dos laços entre as duas instituições, que possuem uma história de grandes jornadas, pelos 4 cantos do país. Para Marcondes, que viu a aliança nascer, em 1985. “ A Força e a Mancha juntas é bom para todos e mantém fortes os ideais e objetivos dessa histórica união. Nossa aliança foi tão positiva, que fez aumentar a própria identificação entre torcedores de Vasco e Palmeiras. Hoje, geralmente, quem torce pelo Vasco, tem simpatia pelo Palmeiras em SP e vice e versa”[3]. Contudo, o encontro proposto pelo grupo da FJV acabou não ocorrendo
Em julho a crise entre o dirigente Eurico Miranda e a direção da FJV chega ao clímax com a derrota humilhante no Paraná para o Atlético por 7 a 2. Protestos da torcida em São Januário, pelos sites e por todos os canais da imprensa ecoaram a insatisfação dos vascaínos com o time e seus dirigentes. Acuado o dirigente partiu para o ataque em agosto e a resposta da torcia veio em nota oficial: “A verdadeira Força Jovem está nessa luta. Estamos tentando varrer de nossa instituição os traidores que envergonham a história da FJV e teimam em bajular o Eurico Miranda. Nessa luta, a participação da torcida vascaína é fundamental. Quanto ao nosso material (bandeiras, faixas, instrumentos etc.), que foi roubado pelos traidores em conluio com Eurico, informamos que, em breve teremos uma solução eficiente e irremediável para esse problema. Mais uma vez, reiteramos nosso apelo: identifique os traidores liderados por ele e repudie a atitude deles. Os verdadeiros guerreiros da FJV e o povão vascaíno vão varrer a banda podre da FJV”.
Entretanto, na “queda de braço” entre os dois lados, o grupo de Eurico retoma a torcida e Gustavinho assume o comando da organização. Entre as suas primeiras atitudes estão o fechamento da sede na Rua Bela e a volta da sede em São Januário. Em entrevista a um site vascaíno, Gustavinho acusa a antiga diretoria: “ a eleição foi fraudada, este site não é da FJV, ele é do Partido PCdoB, como a antiga sede, tudo pertence ao Partido”. Defende uma aliança com Eurico: “Uma relação de paz, ele é um grande aliado da FJV”. E promete: “Uma grande sala no Centro da Cidade do Rio, voltando aos bons tempos da Força, com caravanas aonde o Vasco estiver, uma nova faixa, 10 bandeiras e recadastramento da Torcida”.
Nesse ínterim houve o jogo entre Vasco e Palmeiras em São Januário com a visita da Mancha Verde pela primeira vez desde que a nova diretoria havia assumido. Em nota oficial a torcida paulista faz uma avaliação dos problemas no jogo em São Paulo e uma possível quebra da amizade e do respeito entre as duas facções: “No primeiro turno houve uma confusão na saída do jogo, devido a problemas internos da Força que estava divida em dois grupos e que resolveram se estranhar em frente a Turiassu e deu no que deu. No jogo de ontem "alguns" integrantes da Força ainda aborrecidos com o fato do primeiro turno tentaram criar problema. Que foi logo resolvido pela diretoria da Força. Porém o combustível de uma união é o respeito. Não podemos deixar que 30 ou 50 pessoas acabem com a amizade de 20 anos. E pensando dessa forma o Jânio (Presidente da Mancha) e o Gustavo (Presidente da Força), conversaram e acertaram todos os problemas. A Mancha Verde não enxerga a Força Jovem como inimigo, porém sabemos que devido a esses problemas o respeito foi abalado. Agora cabe o tempo e a atitude das pessoas de fortalecer a amizade que sempre existiu”.
A maior tristeza entre os vascaínos não estava apenas na briga entre os membros da Força Jovem, em junho de 2005 morria um dos maiores torcedores-símbolos de nossa torcida: Ramalho, aos 74 anos. Ele já estava doente havia vários meses e o Vasco vinha custeando suas despesas hospitalares. De profissão simples (estivador), era conhecido pelos vascaínos nos primeiros anos do Maracanã e, em toda a década de 1960, pelo seu instrumento de sopro. Seu amor pelo Vasco também lhe levou a dar à sua filha o nome de Teresa Herrera, nome da Taça conquistada pelo clube em 1957. Ramalho residia numa casa próxima a São Januário que acabou comprada pelo Vasco e incorporada ao patrimônio do clube no fim da década de 90. Tempos depois, os vascaínos nostálgicos, vendo e ouvindo os torcedores da África do Sul com as vuvuzelas se lembrarem dele: "O som da mamona do 'Seu' Ramalho era tão marcante que outro dia, assistindo  a um jogo da África do Sul com o povo tocando aquelas cometas, eu me lembrei dele", diz o vascaíno Martinho da Vila. Ainda sem a presença marcante dos instrumentos de percussão, seu instrumento no estádio: "provocava euforia na torcida e puxava mais forte no Maracanã o 'Casaca/Casaca'." 
A morte de Ramalho acontece na mesma época em que a Geral do Maracanã era fechada. Embora o torcedor vascaíno fosse um assíduo freqüentador das arquibancadas nos anos 1950, sua figura representava bem o espírito do torcedor popular que ocupava com muita alegria a Geral. Era o fim de uma época em que personagens marcantes de uma cultura popular se faziam presentes nos espaços de lazer da cidade. Nos projetos modernizantes de construção das “Arenas” esportivas, estes torcedores não terão vez nos novos estádios, sendo afastados pelos preços exorbitantes.
Enquanto na Força Jovem o clima era pesado, em outras torcidas menores, prevalecia um espírito mais tranqüilo, conciliador e agregador. Àra os membros destas associações, reunir os vascaínos em dias dos jogos não era suficiente para unir o grupo, era preciso encontrar os amigos em atividades recreativas para estreitar os laços de amizade entre os componentes.  Em 2005, a torcida Pequenos Vascaínos, terceira mais antiga do clube, comemorava o seu 30° aniversário, com a realização da III Copa Casaca de Futebol de Botão.
Em todo o Brasil despontam pesquisas sobre o fenômeno das torcidas organizadas, geralmente com enfoque na violência dos tempos atuais. Ao realizar sua pesquisa para o doutorado em História pela PUC-RJ sobre a fundação das Torcidas Jovens no final dos anos 1960, o historiador Bernardo Hollanda, procurou realizar uma análise histórica mais abrangente tentando recuperar o passado mais remoto de organização dos torcedores cariocas, entrevistando diversos torcedores que participaram daquele período. No entanto, ele no ficou preso aos anos 1960, pesquisando sobre a Charanga nos anos 1940, ele quis também ouvir uma antiga liderança da torcida do Vasco no início dos anos 1940. Daí foi conhecer Aida de Almeida, uma das figuras marcantes na história da Torcida Organizada do Vasco (TOV). Em parte do seu depoimento realizado em junho de 2005, ela aborda a sua visão comparando a sua torcida nos anos 1940 e 50 e a Força Jovem: “não há mais educação. Fico horrorizada com os palavrões que até as crianças gritam. A Força Jovem do Vasco, bem como as outras, entoa músicas com dizeres horrorosos. Naquele tempo, não tinha cabimento uma coisa dessas, pois famílias inteiras iam ao estádio e existia respeito. Os rapazes que nos acompanhavam, por exemplo, ficavam atrás de nós para nos proteger. Atualmente, eu entro no ônibus e é uma pouca vergonha. Não têm mais aquela calma, as brincadeiras sadias... Antes, todo mundo entrava nos restaurantes, comia e pagava sua conta. Se as torcidas forem agora, acontece uma roubalheira... Deus me livre! Inclusive, quando posso, me afasto da Força Jovem”. Tia Aida reserva os maiores elogios para a o presidente Eurico Miranda: “o Euriquinho é muito bom. Que coração aquele homem tem! Sempre que vou ao clube sou recebida por ele com um carinho enorme. Ele me cumprimenta: - “Oi, Aida! Tudo bem? Cadê meu beijo?”. Eu lhe digo que é o filho que não tive e ele fica todo prosa”.
O tempo das torcidas pacíficas ficava no passado. As lembranças e memórias do futebol de “outrora” sempre foram permeadas por um forte saudosismo. Uma pesquisa sobre o futebol “de antigamente” certamente ajuda a entender cada época e compreender o complexo universo que envolve o futebol. Uma atividade que não está imune as influências da sociedade e do tempo.
 Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal Extra de  24 de Fevereiro de 2005.
[2] Fonte: NetVasco
[3] Fonte: site oficial da FJV.

Vasco Maracanã 2005

Vasco São Januário 2005

domingo, 11 de junho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2004 MORRE DULCE ROSALINA

                                                            “Minha única tristeza é saber que um dia 
                                                          vou fechar os olhos e nunca mais ver o Vasco”.
                                                                                       Dulce Rosalina

2004                    Morre Dulce Rosalina

        No ano em que a TOV comemorava oficialmente os 60 anos de fundação, sua torcedora mais ilustre falecia no dia 24 de janeiro. A morte de Dulce Rosalina (1934-2004) consternou toda a população carioca que tinha na Tia Dulce um símbolo do espírito de nossa cidade boa e acolhedora.
            Os jornais e o site oficial do clube narram a sua trajetória de torcedora desde a infância acompanhando o clube de São Januário, “meu pai me contava a luta do clube contra o racismo” lembrava, até assumir o comando da TOV em 1956. Sendo a única mulher naquele tempo a liderar uma torcida. Além disso, Dulce se destacava pelo seu pioneirismo e abnegação pelo clube: “além de animar a torcida, inovar trazendo bateria, papel picado e serpentina, ela exercia uma forte influencia no sentido de fazer com que os torcedores na época se associassem ao Clube. Para ela o mais importante era ajudar o crescimento do Vasco”[1].
            Em 1976 Dulce fundava a Renovascão para apoiar a candidatura de Medrado Dias a presidência do clube e continuou na torcida para sempre, embora sua presença assídua nos estádios fosse dificultada por sua saúde.
Em abril o vereador Áureo Ameno transforma uma rua perto de São Januário no nome de Dulce Rosalina numa homenagem que contou com o apoio do clube que também abre sua sede para a comemoração dos 60 anos da TOV, com a presença do artilheiro do clube, Valdir.
Durante o campeonato carioca deste ano a grande dor de cabeça da torcida era o maior rival, o Flamengo. Depois de alguns resultados ruins contra o adversário da Gávea, integrantes da FJV se reúnem com o time e cobram mais empenho do time para superar o rubro-negro: “Após o treino desta sexta-feira, 12 integrantes da Força Jovem conversaram com Fábio, Rodrigo Souto, Wescley e Beto. Os torcedores falaram durante dez minutos e Marcelo Granzoto, Presidente da Torcida, mostrou um pouco do sentimento do torcedor vascaíno para a partida de domingo. – O torcedor comum do Vasco já não acredita mais quando o jogo é contra o Flamengo. A Torcida Organizada vai acreditar sempre, mas também vai cobrar”. A entrada dos torcedores em campo não contou com o apoio do técnico Geninho: “acho inoportuna a cobrança porque os jogadores podem assimilá-la de forma errada, partindo para uma forma desmedida de determinação”. Já o atacante Beto tentou minimizar a cobrança, assumindo o compromisso com os torcedores: “. Quando cheguei, conversei com eles de outra maneira, por conta de minha passagem pelo Flamengo. Agora, sinto que o carinho por mim está aumentando, porque tenho mostrado vontade em campo” [2].
Antes da final do campeonato carioca com o Flamengo, o Vasco disputou a semifinal com o Fluminense e saiu vencedor. Na segunda partida contra o tricolor, a Força Jovem lança um boletim distribuído aos torcedores nos estádio. No editorial escrito pelo ex-presidente da torcida Roberto Monteiro, ele convoca os torcedores: “chegamos as finais da Taça Rio superando as próprias limitações do nosso time e o momento financeiro difícil que o clube atravessa. Nossa torcida, como sempre, chegou junto e foi fator decisivo para chegarmos ao jogo contra o Fluminense. E mais uma vez, está em nossas mãos a missão de empurrar nosso time para a decisão do campeonato”. Neste período a FJV inaugurava a sua sede na rua Bela em São Cristóvão.
Depois de perder o campeonato carioca para o maior rival o Vasco é eliminado da Copa do Brasil em casa para o desconhecido XV de Novembro de Campo Bom (RS). Além da derrota, o pior foi uma briga entre integrantes da Força Jovem que brigavam entre si. Neste dia o ex-presidente da torcida Marcelo He-man é agredido. Em um blog sobre a história da torcida há uma explicação para o triste acontecimento: “após descontentamento com os rumos da torcida, (Marcelo) se afasta, mas não larga a militância, com seus belos e contundentes cartazes. Seu último jogo do Vasco que ele assistiu in loco (Vasco 0 x 3 XV de Novembro em 07/04/2004) é marcado com uma tragédia e a maior vergonha da história da Força Jovem, ele foi severamente espancado por dez capangas do seu antigo "amigo", pelo simples motivo de defender o ideal de independência da torcida!”[3].

Neste ano é lançado o documentário “Pelé Eterno”. No filme aparecem as imagens consagradas de Pelé, como aquela histórica, marcando o gol 1.000, no jogo com o Vasco. Mas as cenas mais impactantes para os vascaínos são aquelas de 1957, quando o jovem atacante vestiu a camisa do Vasco no combinado Vasco-Santos. Nas partidas brota um futuro craque marcando gols. Um deles, um golaço contra o Flamengo.
Começa o campeonato brasileiro e o time faz uma campanha inicial vitoriosa, ao contrário do Flamengo. No primeiro jogo entre as duas equipes há uma polêmica entre os dirigentes Marcio Braga (Flamengo) e Eurico Miranda. O rubro-negro quer a renda do jogo só para o seu clube. Eurico faz um apelo para a torcida vascaína boicotar o jogo: “a maioria das Torcidas Organizadas acatou o pedido do dirigente, como a TOV, Renovascão e a Pequenos Vascaínos. A Força Jovem compareceu, mas muitos de seus integrantes preferiram ir para a geral para não dar dinheiro ao rival. Os da Vasqueire foram ao Maracanã normalmente”[4].
Um mês antes deste jogo a FJV ocupa um treinamento do elenco e faz uma homenagem ao técnico Geninho selando um pacto de apoio ao jovem time montado treinador: “nesse sábado, às 18:00h, no Estádio de São Januário, a equipe cruzmaltina faz a sua 5ª partida pelo Campeonato Brasileiro enfrentando o Grêmio. Integrantes da Força Jovem, maior facção de torcida do Vasco, após o término do treinamento estiveram com o elenco e homenagearam o técnico Geninho com a entrega de um troféu”[5].
Em 2004 é lançado o livro “Os Perigos da Paixão – visitando jovens torcidas cariocas”, da antropóloga Rosana Teixeira, fruto de sua pesquisa de mestrado defendida em 1998. A pesquisa é premiada pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, sendo o primeiro livro lançado sobre o assunto na nossa cidade. Nele, a autora mostra os dilemas das torcidas que se tornavam cada vez mais profissionais, burocráticas e empresariais. Além das dissidências internas, o trabalho mostra o embate com dirigentes e imprensa que estigmatizavam cada vez mais as torcidas organizadas.
Outro trabalho acadêmico sobre torcidas organizadas é estudado pela jornalista Graziella Gastaldo, que desenvolve uma pesquisa pioneira com a utilização da internet como meio de comunicação e provocação entre as torcidas. Baseada neste universo, abria-se novas possibilidades de investigação: “percebemos o crescente número de sites, blogs, listas de discussão, comunidades, livros de visita criados por torcedores muitas vezes com o objetivo de exaltar seu time, manter a memória, a identidade e a tradição dos clubes e torcidas com as novas tecnologias de comunicação como um “lugar de memória” das torcidas organizadas”. Entre o trabalho de Rosana, concluído em 1998 e o estudo de Graziella em 2004, a diferença é de apenas 6 anos, mas tempo suficiente para entender as mudanças nas formas de sociabilidade e de se comunicar entre as torcidas (aumento da intolerância e de manifestações de ódio explícito), e uma nova forma de interação do pesquisador com os pesquisados. Muitas das informações que, antes eram guardadas em sigilo pelos torcedores, agora eram divulgados pelos próprios que ostentavam uma sucessão de vitórias sobre os rivais. Para exemplificar, apresentamos uma narrativa de confrontos entre vascaínos e rubro-negros: “RÁDIO CAPITAL- (FJV invadiu a rádio e atropelou os diretores da TJFraca, tadinho do Cap.Léo e companhia, pergunta ao Cap.Léo que cicatriz é aquela na cara dele, depois disso a TJFraca pensou 10 vezes em ironizar a FJV por rádio, foi no Tiro? ahahauhuahuahuahuauahauhauhuhauhauh.
*BARRA DO PIRAÍ-(FJV 2 ônibus , TJF-RRN-GAVIÕES 5 ônibus no total , e quem levou a melhor em minoria? TJF-RRN 26 feridos e FJV em minoria 6 feridos , foi no Tiro?
*COMBINADO DE RIO-SP VAS-FLA X PAL-COR-(Que correria foi aquela lá fora ,TJF e RRN correndo juntas da FJV? Nego pulando no canal da Av.Maracanã? Agente por acaso deu Tiro? auhuhuhauhauhauhauhauhauauauhahahah.
*BRASIL X PARAGUAI COPA AMÉRICA 89-(Coitadinha da TJFraca lá fora de novo , correu da porrada porque? correu geral porque? Não aguentou o bonde? Foi no Tiro isso? ahuahuauhauhauauhuauahauhauhahuah.
*BARIRI 88-(FJV invadindo o lado de vocês , que surra hein , André Rico dando direto na cara do Germano e o mongol rolando as escadas , Metralhas batendo e rindo da cara da diretoria da TJFraca , foi no Tiro? auhuahuahuahuahaauahuauauahuauauhauhauh.
*BARIRI 93-(FJV invadindo o lado de vocês de novo? 6a Família encurralando vocês? correu de novo , um tal de Neme do 5oPLT estirado? foi no Tiro?uahhhuhuahuahuhuahuhuauahuauahu.
*BARIRI 98-(FJV em minoria enfrentou vocês na divisória e vocês tacaram rojões e morteiros encima da gente , grandes merdas e na hora da porrada? Se encurralaram nos cantos do Ginásio , e na hora da divisória vocês muito maiores , peidaram , e tem mais , me diga quem foi aquele muleke de casaco do mickey que o Snoopy socorreu desmaiado? ahuhuauahauhuahuauahuah , por acaso foi no Tiro?
*LARGO DO BICÃO-(FJV varrendo o largo , a briga foi marcada , e cadê os diretores da TJFraca? Acabou sobrando para os componentes indefesos mesmo né? Muito tapa na cara esse dia , Foi no Tiro? ahuauhahaahuahuhuahauhauhauauhuauauuah.
*AMÉRICA 98-(Eles falam da tal enchadada , engraçado , e a cabeça do Saddam rachada? E a moto dele destruída? E o neguinho que ficou no chão ensangüentado? Porque vocês não contam isso? Isso não saiu no jornal , aliás o que é jornal O Povo? Putz ,Foi no Tiro isso? Ahhuhuahuhuaauhuuahuahuahuauauahuauauah”[6].
A extensa lista continua com inúmeros outros episódios em que “a violência passa a ser utilizada como uma importante “ferramenta” na construção da memória desses grupos”. Algo que seria bastante improvável de um torcedor relatar para um pesquisador até os anos 90, pois havia uma grande preocupação das lideranças em criar outra imagem da torcida para os pesquisadores.
Em agosto de 2004, o geógrafo Fernando Ferreira da Costa, defende sua dissertação de mestrado na UFF com enfoque no “estudo das múltiplas identidades herdadas e construídas pelo Club de Regatas Vasco da Gama, responsáveis pela formação de uma identidade própria, somado à análise do seu papel na história recente do país; para, por fim, chegarmos ao bairro Vasco da Gama propriamente dito”[7].
Em outubro era apresentada uma nova pesquisa realizada pelo jornal Lance![8] com apoio do IBOPE no Estado do Rio de Janeiro com os seguintes números: 1° Flamengo 48,3 %; 2° Vasco 18,7 %;3° Botafogo 9,2 %; 4° Fluminense 8,2 %; 5° São Paulo (SP) 0,5 %; Nenhum 13 %; Outros 2 %”.
O campeonato brasileiro prosseguia e o clube começava a enfrentar uma péssima fase chegando nas últimas rodadas entre os últimos colocados. Na penúltima partida contra o Atlético-PR, em São Januário, a torcida lota o estádio e empurra o time para a vitória e o pesadelo da 2ª divisão, é definitivamente afastado.
No gol do Vasco assume o lugar de Fábio, o ex-goleiro do Olaria, Cássio. Em uma grande entrevista ao jornal O Dia, o jogador revela que estava realizando um sonho de infância ao ser titular no clube de São Januário: “Já fiz parte da Força Jovem (Torcida Organizada) e sofri muito nas arquibancadas. Ainda guardo até hoje a minha caneca da sorte com o escudo do Vascão”[9], afirma Cássio.
            Sem ambiente no Fluminense, Romário depois de duas temporadas no tricolor carioca planeja a sua despedida do futebol. No dia 27 dezembro ele anuncia que queria fazer uma partida de despedida. O comentário pela imprensa era que ele havia negociado com o Vasco um possível retorno ao clube mas que teria sido vetado pela torcida. Também não se sabia qual seria a reação dos torcedores do Vasco em sua despedida em um jogo que ele vestiria a camisa do Vaso em um tempo e a do Flamengo no outro tempo: “Tem razão em temer. Faltou carisma a ele no Vasco” – disse o Presidente da Torcida Força Jovem, Marcelo Granzoto.
            Apesar de tudo isso no ano seguinte Romário voltaria ao Vasco....
 Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: site oficial do Vasco.
[2] Fonte: O Globo 20 de Março de 2004.
[3] fonte: historiasdafjv.blogspot.com
[4] Fonte: Jornal O Globo 11 de Julho de 2004.
[5] Fonte: Site Oficial do Vasco 08 de Maio de 2004
[6] GASTALDO, Graziella. As novas tecnologias de comunicação como um “lugar de memória” das torcidas organizadas. X Simpósio de Pesquisa em Comunicação da Região Sudeste – SIPEC, Rio de janeiro, 7 e 8 de dezembro de 2004.
[7] O BAIRRO VASCO DA GAMA: UM NOVO BAIRRO, UMA NOVA IDENTIDADE?
[8] Fonte: Lance 4 de outubro de 2004.
[9] Fonte: O Dia  10 de Outubro de 2004.

Dulce Rosalina

Vasco Maracanã 2004

quarta-feira, 7 de junho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2003 A TORCIDA NA ERA DA INTERNET

               “Se não fosse humano seria um peixe, mais precisamente um bacalhau”.
                                                        Guilherme  Tâmega

2003               A Torcida na Era da Internet

            Nem só de futebol vive uma torcida apaixonada e a chance de incentivar o clube em outros esportes é uma tradição dos vascaínos que tem nos esportes marinhos um apreço especial. Afinal, o clube nasceu do remo. Em 2003 a torcida festejava o sexto título mundial de bodyboarding de Guilherme Tâmega, reconhecido torcedor do Vasco e frequentador das arquibancadas no local da Força Jovem. Cerca de 100 torcedores compareceram ao Aeroporto Internacional para prestigiar o atleta que retornava do Havaí.
Não era somente nas ondas internacionais que a torcida do Vasco ganhava brilho, agora era a vez da construção do primeiro site de torcida organizada mostrando que os tempos eram outros. “Quando todos os territórios já pareciam conquistados, a caravela Vascaína surpreende novamente. Em pleno aniversário da Torcida, entrou no ar o Site Oficial do G.R.T.O. Força Jovem do Vasco: o melhor, mais completo e atualizado Site de Torcida do Brasil. O endereço é simples – www.forcajovem.com.br -, conta com a credibilidade do “.com.br”, para favorecer ao integrante, já que a facção faz questão que cada Vascaíno navegue nesta onda”[1].
A inovação tecnológica traz novas possibilidades de fonte de arrecadação para a torcida que promete para breve a realização de vendas on-line de materiais da torcida. Certamente era uma nova fonte de renda. Algo impossível de se fazer poucos anos antes, o comércio virtual começa a se desenvolver e promete revolucionar o tipo de interação entre os torcedores com a chance de expansão para todo o país e o exterior. “Favorecerá principalmente aos apaixonados pela FJV que moram fora do país e a parceria com o programa Casaca na Rádio, no ar toda segunda-feira, às 20 horas, que o torcedor vai poder ouvir na home page da Torcida a qualquer momento e em qualquer dia da semana, que sempre conta com a participação de uma personalidade da facção. Outro ponto positivo é o espaço exclusivo à interatividade. Nele, há um chat (sala de bate-papo), fórum, onde vascaínos e componentes da torcida já trocam idéias sobre diversos assuntos, e enquetes sobre os temas mais polêmicos da atualidade”.
A internet passa ser fonte de consulta inclusive para as novas pesquisas sobre as torcidas. A jornalista Graziella Cataldo pesquisará para a sua dissertação de mestrado em Comunicação na UERJ no ano seguinte, utilizando as salas de bate-papo e o Orkut.
            Ainda para comemorar os seus 33 anos a FJV preparava a inauguração de sua sede e, comparativamente aos anos 1920, quando a torcida vascaína se mobilizou para construir São Januário, desta vez era a primeira organização a ter sede própria: “e mais, não é um simples imóvel, é uma sede digna da Maior Torcida do Brasil, com bastante espaço, ótima localização e próxima ao Estádio da Colina”[2]. 
Embora o início do ano a relação entre a torcida o time não tenha sido positiva pois já na segunda rodada do campeonato carioca, a torcida do Vasco demonstrava sua insatisfação com o elenco e o atacante Petkovic que foi o principal alvo de vários xingamentos depois do empate com o Botafogo. O time consegue dar a volta por cima e vence vários clássicos.
O time conseguia vencer a Taça Guanabara superando o Flamengo na final. Durante a semana seguinte aparecem as fotos na imprensa do presidente Lula na residência oficial vestindo uma camisa do Vasco com o número 13 nas costas.
            A euforia também tomava conta da torcida que comemorava a vitória no basquete sobre o Flamengo no Tijuca Tênis Clube com a presença massiva dos vascaínos no local da disputa. Uma nova seqüência de vitórias no futebol deu ao clube o título de campeão carioca com a torcida apelidando o ataque de “Quarteto Fantástico” (Petkovic, Marcelinho, Valdir e Léo Lima). Nos jogos finais contra o Fluminense, a torcida lamentava as medidas de segurança: “fica aqui um apelo aos responsáveis: fogos, papéis picados e fumaça colorida não são armas, e os números de incidentes causados pelos mesmos nos estádios são irrelevantes, por isso revejam seus conceitos e colaborem conosco para que a festa nas arquibancadas não fique só em lembranças do passado”. Em seu lugar a FJV promoveu uma festa levando 700 sinalizadores do estilo “pisca-pisca”.
            Quem voltava a São Januário depois de 20 anos de ausência era Ramalho, uma antiga liderança da torcida vascaína, famoso pelo som de seu “clarim”: “Domingos do Espírito Santo Ramalho, o homem que extraía toques de clarim de um talo de mamona para comandar durante quase 40 anos a Torcida do Vasco, não cabia em si de contentamento e emoção ao ver como está o clube de seu coração, ocupando até mesmo o espaço da casa em que morou durante anos, naquele quarteirão que foi incorporado ao patrimônio pela administração Calçada-Amadeu-Eurico Miranda (...). Natural da Bahia, o torcedor chegou ao Rio em pleno momento em que o Expresso da Vitória vencia todos os seus jogos: “Ramalho passou a tocar o talo de mamona em São Januário até que, num jogo Vasco x Botafogo, em 1947, vencido pelo Vasco por 2 a 0, Cyro Aranha o convidou para a Tribuna de Honra. Estava oficializado o clarim de mamona, que iria comandar a Torcida por muitos e muitos anos. Era mais um exemplo da democracia Vascaína, ao serem estabelecidos e estreitados os laços entre a diretoria, através de um dos maiores Presidentes do Clube, e o torcedor de arquibancada, representado pelo Ramalho”[3].
            O tempo de Ramalho e do Maracanã com milhares de torcedores reunidos e torcendo em paz e com poucos incidentes mais graves, era outro. O que estava valendo em 2003 era a preocupação do novo Governo do Brasil em criar medidas legais para conter a violência nos estádios. Em ação conjunta dos Ministérios da Justiça e do Esporte, forma-se um grupo técnico em março e que redige a Carta de Brasília, um conjunto de recomendações para a formulação e implementação de uma Política Nacional de Prevenção da Violência e Segurança nos Estádios. Pouco depois é criado o Estatuto do Torcedor. Lei nº 10.671/03 sendo sancionado pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em 15 de maio. O Estatuto recebe muitas críticas dos torcedores pois não há nenhum artigo no Estatuto, por exemplo, que proteja os torcedores do processo de elitização do futebol brasileiro. No entanto, a maior crítica é contra o artigo 39 b que criminaliza facilmente as torcidas organizadas: “de inovação das mais draconianas por atribuir à torcida organizada responsabilidade por ato perpetrado por um de seus componentes, qualquer que seja a circunstância, desde que no trajeto que leva ao estádio. E pior: ao estender essa responsabilidade aos seus membros”[4].
            No Rio de Janeiro tem início o Ciclo de Palestras e Debate do Maracanã – 53 Anos, realizado no  dia 10 de Julho de 2003, no Auditório da Suderj. O seminário abordou principalmente o Estatuto do Torcedor e as Torcidas Organizadas. O Secretário de Esportes e Presidente da Suderj, Francisco Manuel de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, fez questão de enfatizar aos presentes que a Força Jovem é a Torcida mais Organizada do Estado. Já o Promotor de Justiça, Alexandre Vasconcelos, além de citar a organização, elogiou o desempenho da mesma junto ao estatuto do torcedor e ao juizado especial criminal, sendo vista por todos como um exemplo a ser seguido. Depois dos merecidos elogios e do reconhecimento público, Marcello Granzotto pediu a palavra, levantando questões importantes e defendendo bravamente as Torcidas. Ao final de seu discurso demonstrou gratidão aos anfitriões. “Agradeço ao apoio dado pelas autoridades e o voto de confiança, até para não extinguir as Torcidas[5]”,
            Enquanto a FJV mantinha um diálogo com as autoridades esportivas ela declarava guerra com a possibilidade da contratação do ex-jogador do Flamengo, Beto. Em entrevista Marcelo Granzotto, Presidente da Força Jovem declarava: “tenho certeza de que esta contratação não vai vingar. Fomos consultados pela Diretoria e vetamos. Não é por ele ter jogado no Flamengo, mas por ter desrespeitado o Vasco enquanto esteve por lá” – explicou.
O desfecho do impasse termina com a contratação do jogador e a exibição de uma foto com uma camisa escrito FJV – Dignidade, Respeito ao Vasco. Além disso o atleta teve o apoio de Edmundo que intercede pedindo a torcida que cede com ressalvas, mas impõe: “o jogador passou na sede da Torcida Força Jovem para conversar com os diretores sobre as declarações que deu na época em que atuava pelo Flamengo. No entanto, nem o pedido de desculpas e a conversa franca com os representantes da Força Jovem parecem ter mudado a mágoa que os torcedores têm com o jogador”[6].
Com o título “A Farra de São Januário”, a Revista Placar denunciava uma prática comum entre dirigentes e torcidas organizadas que eram as cortesias. No entanto, o teor principal da reportagem é o enriquecimento dos torcedores que vendiam os ingressos distribuídos. “Nos jogos do Vasco, difícil é achar quem pagou ingresso (...) e se o Vasco perde dinheiro com as cortesias, as torcidas aproveitam para fazer um extra”. Para a revista tratava-se de um conluio habitual no futebol brasileiro em que o maior prejudicado era o próprio clube que perdia dinheiro com a venda de ingressos e estimulava uma relação promíscua entre os dirigentes e torcedores. A revista foi implacável no empenho em denunciar estas práticas lesivas bem como de exigir novas medidas para controlar os abusos dos dirigentes.
Outro assunto que dominou as manchetes dos jornais era a polêmica eleição de Eurico Miranda em novembro. Numa acirrada disputa com Roberto Dinamite, Eurico consegue a sua reeleição ao vencer por 1.474 votos contra 1.363 votos. O pleito foi bastante tumultuado com a oposição acusando a situação de fraudar a lista de sócios. No dia da eleição, o ex-atleta de vôlei Fernandão (MUV) foi agredido por integrantes de uma torcida organizada que apoiava Eurico.
Da mesma forma que a imprensa marcava em cima das torcidas organizadas, estas não perdiam a chance de ameaçar os jogadores que não cumprissem com as promessas. O maior alvo da intolerância dos torcedores do Vasco no fim de 2003 foi novamente o jogador Beto que disse, antes de se transferir para São Januário, de que preferia vestir a camisa do Madureira do que a do Vasco de Eurico Miranda.
Mesmo após o pacto de união selado pelos dois lados, a FJV emitiu uma nota no final do ano repudiando o jogador acusando-o de distribuir duas camisas do Flamengo no local de treinamento do Vasco, após a derrota para o rival naquela semana: “Lideranças da Torcida encaminharão um pedido junto à Diretoria do Clube para o desligamento imediato do meia Beto, em virtude do episódio no Vasco-Barra, no qual o jogador apareceu portando duas camisas do Flamengo”[7].
Pior que a atitude de Beto era ver nossos ex-craques brilhando nos outros clubes. Romário era o destaque no Fluminense e Felipe era o grande maestro no Flamengo. No primeiro campeonato brasileiro com pontos corridos, o Vasco faz uma campanha bem modesta para uma equipe que nos anos anteriores disputou títulos internacionais (chegou em 17° lugar na competição que reuniu 24 clubes, com índice de aproveitamento de 39%). Era o começo de um grande jejum que a torcida parecia pressentir.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: www.forcajovem.com.br
[2] Fonte: www.casaca.com.br
[3] Fonte: Site Oficial do Vasco (texto: Ubiratan Solino) 2003.
[4] GOMES, L. F. et al. Estatuto do Torcedor comentado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011.
[5] Fonte: http://www.casaca.com.br
[6] Fonte: Lancenet
[7] Fonte: Jornal O Dia 16 de Outubro de 2003.

Vasco Guilherme Tâmega 2003

Vasco Maracanã 2003


domingo, 4 de junho de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 2002 EXPULSO DA TRIBUNA

                                                                    “Eurico acha que é dono do mundo”
                                                                                   Roberto  Dinamite

2002                        Expulso da Tribuna

         Era uma partida de pouca importância na abertura do torneio Rio-São Paulo entre Vasco e Ponte Preta. Havia poucos torcedores no estádio de São Januário. Certamente seria mais um jogo que passaria despercebido por todos. Entretanto, um atrito entre o presidente do clube e o maior ídolo do Vasco veio à tona naquele dia que marcará a década. De um lado estava o todo poderoso deputado federal Eurico Miranda, do outro, uma legião de vascaínos tomando as dores do seu ex-craque, com apoio de grande imprensa que transforma Roberto Dinamite em mais uma vítima do poder autoritário do dirigente vascaíno.
            Convidado pelo presidente de honra do Vasco, Antônio Soares Calçada, o ex-jogador levou o filho Rodrigo, de 9 anos, para sentar-se na tribuna de honra do estádio de São Januário. No intervalo do jogo, pai e filho tiveram de deixar a tribuna. Tinham sido expulsos a mando do presidente do Vasco.
O motivo da discórdia entre os dois teria sido a declaração de Roberto contrário a intenção de Eurico aposentar a camisa 11 em homenagem a Romário, segundo declarou Eurico naquela semana. Curiosamente, Roberto havia votado em Eurico na última eleição para presidente do Vasco em 2000. A partir daí começa uma campanha pela imprensa e associados do Vasco em ter Dinamite como presidente em oposição a administração de Eurico.
Outra briga que agitou São Januário no início de 2002 foi a disputa de Rainha da Força Jovem. Depois de três anos ostentando o posto mais cobiçado entre as vascaínas, Viviane Araújo, também Rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, é destituída do cargo e em seu lugar assume Renata Santos, 19 anos e Rainha de bateria da Acadêmicos de Santa Cruz. “Do jogador Felipe, a Rainha recebeu a coroa e do Goleiro Helton, recebeu a faixa com a inscrição “Rainha da Força Jovem” destacada com muita purpurina. “Sou Vasco desde 15 anos, quando comecei a me interessar por futebol, e assumo o compromisso de ir a todos os jogos do Vasco”, garante Renata[1].
Neste ano é lançado o primeiro livro de um ambicioso trabalho de pesquisa que o Vasco incentivou com apoio da FAPERJ e do professor de História da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira da Silva. Trata-se de “São Januário - Arquitetura e História” (Kit com livro e três CDs), de Clara Malhano e Hamílton Malhano. Este primeiro volume da série Memória Social dos Esportes é um kit que inclui, além do livro com a análise detalhada da arquitetura do Estádio de São Januário e sua história, três CDs com imagens das fichas originais de quase todos os atletas que defenderam o Vasco entre 1937 e 2002.
Nesta época Francisco Carlos atuava como o responsável do Centro de Memória do Vasco da Gama. Para ele, a obra era um marco nas pesquisas históricas sobre o esporte nacional: “nunca um estádio brasileiro mereceu um trabalho de pesquisa histórica, arquitetônica e iconográfica, como o trabalho que ora apresentamos” (p. 13). Segundo o diretor da FAPERJ, Luis Fernandes, professor de Relações Internacionais da PUC-RJ, a construção ultrapassava as fronteiras esportivas e assumia dimensões de uma nova identidade nacional que a sociedade exigia: “ergue-se muito mais do que um estádio de futebol (...) um palco na ‘periferia’ da então Capital Federal em que o público, tão mestiço e misturado como o time a que ia assistir, podia, enfim se identificar” (p. 10).
Antes da Copa do Mundo de 2002, são lançados vários livros sobre futebol. Para os vascaínos, o melhor presente era ganhar a obra que reunia as crônicas e poesias de Carlos Drummond de Andrade, no livro intitulado “Quando é Dia de Futebol”. O poeta, que completaria 100 anos em 2002, recebe uma série de homenagens ao longo do ano. No prefácio escrito por Pelé, há o registro da paixão torcedora do poeta: “uma preferência sua me emociona em particular: seu amor pelo Vasco da Gama, cuja camisa vesti com muita honra no início de minha carreira”. Quem confirma sua paixão pelo nosso clube é o seu neto que relembra que o poeta mineiro passou a torcer pelo Vasco quando veio morar no Rio de Janeiro nos anos 1930 e a razão da escolha tinha motivos políticos: “por ter sido o primeiro clube carioca a contratar jogadores negros”. Embora não fosse um torcedor fervoroso, nem freqüentasse os estádios, o poeta tinha uma visão muito apurada sobre o futebol como paixão humana capaz de mobilizar muitos sentimentos divergentes. “Aparentemente, a opinião dos torcedores de um clube é maciça. Pois sim. Cada torcedor tem a sua ótica, a sua concepção, a sua verdade. Amam todos o mesmo clube, mas de maneiras distintas, e divergem, profundamente, na apreciação dos fatos, das técnicas do jogo, sobretudo das pessoas”(p.127).
Em abril de 2002 as relações do atacante Romário com a torcida vascaína são cada vez mais tensas, mostrando a todos que sua permanência no clube era insustentável. A Força Jovem do Vasco emite uma nota oficial e anuncia a produção de 50 mil panfletos para serem distribuídos nos estádios fazendo uma série de acusações contra o jogador. O principal motivo de insatisfação dos torcedores era a reação de Romário diante das críticas e suas declarações no passado: “em suas passagens pelo Flamengo fez questão de afirmar sua preferência por esse clube, além de provocar os torcedores vascaínos com declarações que ironizavam a própria instituição VASCO DA GAMA (...) A FORÇA JOVEM não fez qualquer ameaça ao jogador Romário. Apesar de xingada de "frouxa" e de outros adjetivos (...) a nossa facção está unida em torno do entendimento de que Romário não tem identificação com o nosso clube e com sua torcida e, dessa forma, não merece continuar vestindo a sagrada camisa (...)não cansamos de incentivá-lo e inclusive foi a FJV que lançou o grito de "Romário Chapa Quente", que virou marca registrada nas arquibancadas, com o coro sempre puxado pela FJV”[2].
Depois da Copa do Mundo de 2002, Romário sai do Vasco e vai para o Fluminense no ano de seu centenário. A torcida vascaína comemora na estréia do time no Brasileiro, dia 10, contra o Figueirense, em São Januário. Várias faixas (uma de 20 metros) e bolas foram levadas pela torcida.
Depois de Romário, o alvo dos xingamentos da torcida recaem sobre Eurico Miranda, principalmente nos dias que se aproximavam para a eleição de deputados federais, senadores, governador e presidente. Eurico concorria para a sua reeleição mas enfrentava forte oposição da imprensa que fazia inúmeras denúncias com base na CPI do Futebol  e contra os deputados que formavam a “Bancada da Bola”.
Para manter o apoio dos torcedores-eleitores, Eurico contrata o principal jogador do Flamengo e o maior carrasco do Vasco nos últimos dois anos. O sérvio Petkovic é anunciado como a principal contratação do clube do ano. A chegada do jogador ao time coincide com o período em que o jornalista Franklin Foer estava no Brasil para escrever seu livro sobre o futebol em um mundo globalizado. No Brasil a obra recebeu o título de “Como o futebol explica o mundo”. O jornalista reserva um capítulo especial para o Brasil com ênfase na figura dos “cartolas”. Na obra, o dirigente  Eurico Miranda é retratado como um político oportunista. O presidente “me convida para visitar São Januário na manhã seguinte aos 104° aniversário do clube (...) nessa manhã ele convocou sua coletiva na imprensa para anunciar a contratação  de (...) Petkovic é uma peça de uma jogada política, uma tentativa de última hora de reenergizar a torcida do clube. Miranda não faz muito esforço para ocultar suas motivações” ( 2004, p.121).
Os resultados positivos não vêm como o dirigente esperava e a torcida manifestava sua contrariedade com o time e o presidente. Depois de ser xingado pelos torcedores (a maioria da FJV), Eurico ainda acreditando na sua base eleitoral, resolver punir a torcida e anuncia o fim dos ingressos gratuitos (cerca de 2 mil) para a facção: “A Força Jovem não ganhará mais ingressos para assistir aos jogos durante o Brasileiro nem terá viagens financiadas pelo clube para partidas fora do Rio. Além disso, teve que retirar materiais que estavam guardados em uma Sala em São Januário”[3].
A diretoria da FJV anunciava que apoiaria os vascaínos Edmilson Valentim e Sérgio Cabral para Deputado Estadual e Bernardo Ariston para Deputado Federal. Resultado: com pouco mais de 25 mil votos, Eurico não consegue se reeleger. A “Bancada da Bola” é derrotada e os deputados que participam da CPI do Futebol são eleitos.
No jogo entre Vasco e Flamengo pelo campeonato brasileiro o ex-atacante do Flamengo e carrasco do Vasco, o sérvio Petkovic fazia uma bela exibição na partida que terminou com a vitória do Vasco por 3 a 1. No confronto entre as torcidas, a vascaína também saiu vencedora: “a guerra de nervos entre as torcidas começou quase uma hora antes da partida: arquibancada lotada por rubro negros, o contraste visual era avassalador. A festa parecia ser vermelho e preto. A voz dos vascaínos foi abafada por ampla maioria. Já com os times em campo os flamenguistas provocaram os adversários, cantado o famoso “Recordar é viver, Pet acabou com você!”, lembrando o estadual de 2001. A galera de São Januário, imediatamente, respondeu na mesma moeda e deixou o goleiro Júlio César abalado com uma rima desagradável sobre a sua mulher, Suzana Werner e Ronaldinho”[4].
Apesar do time não fazer grande campanha pelo campeonato nacional, a vitória sobre o rival reacende a velha rixa. O novo ídolo vascaíno saía de campo consagrado pela torcida que gritava: “Pet, Pet, Pet”, para os adversários os gritos eram de “ão, ão, ão, Segunda Divisão”. Uma alusão a péssima campanha do rival ameaçado naquele ano de rebaixamento.
Na campanha presidencial que elegeu Lula presidente pela primeira vez, a FJV fez campanha para o líder do PT, inclusive levando uma bandeira com o rosto de Lula. A imprensa registra o apoio explícito da torcida ao líder petista: “ontem à tarde, torcedores se reuniram para definir como será a homenagem de amanhã. Marcelo Granzotto, Presidente da principal Torcida Organizada Vascaína, adiantou que serão estendidas diversas faixas, uma delas com os seguintes dizeres: ‘A história de Lula, assim como a do Vasco, representa o povo brasileiro’[5].
Enquanto Lula chegava, Romário planejava sua volta ao Vasco para 2003. No entanto, a torcida preferia a volta de Edmundo: "Tenho certeza de que ele não volta e nem penso nessa hipótese. A torcida é totalmente contrária porque ele não respeita a camisa do Vasco. Espero que a diretoria pese os prós e os contras e tome a decisão certa, que é manter este jogador longe do Vasco"[6], comentava o líder da FJV. Com Romário fora dos planos da torcida, o sonho era  com o retorno do "Animal" Edmundo. Segundo Granzotto, o jogador, que costuma comemorar acintosamente gols marcados contra o Flamengo, encarna o espírito Vascaíno. "São poucos os jogadores que atuam com amor no futebol de hoje e o Edmundo é um deles. Ele vibra com o Vasco, joga com alegria", analisa.
            O sonho dos vascaínos de contar novamente com Edmundo em 2003 (ele estava no Japão) só será realizado no meio do ano seguinte. No entanto, as polêmicas em torno dele, Romário, Eurico e Roberto Dinamite estavam longe de terminarem e a divisão dos torcedores seria uma tendência marcante nestes próximos anos.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Fonte: Jornal O Dia 06 de Março de 2002.
[2] Fonte: WWW.netvasco.com.br
[3] Fonte: Lancenet 31 de Agosto de 2002
[4] Fonte: Jornal O Globo 17 de Outubro de 2002.
[5] Fonte: Jornal O Dia 30 de Outubro de 2002
[6] Fonte: Pelé.Net e Netvasco 11 de Dezembro de 2002

Vasco Jornal do Brasil 2002

Vasco Jornal O Dia 2002