quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1973 O OVO DA SERPENTE ENTRE A FESTA E A GUERRA

                                             “Difícil é acreditar que tudo não seja Vasco” 
                                                               Rachel de Queiroz

1973   O Ovo da Serpente, entre a Festa e a Guerra
A rivalidade entre os dois clubes das maiores torcidas no Rio de Janeiro ganha mais emoção com a contratação do armador Zanata que troca o Flamengo pelo Vasco. A resposta rubro-negra é a compra do artilheiro do Atlético Mineiro, Dario. Um jogador que foi o alvo da polêmica em 1970 envolvendo a opinião do então técnico da seleção brasileira, João Saldanha e o Presidente da República, o General Médici.
O Chefe da Nação era um dos maiores entusiastas do futebol do atacante e sua contratação era uma forma do Flamengo aproximar o presidente de  seu clube do coração. Por outro lado, era importante para o governante melhorar sua imagem popular comparecendo aos jogos do Flamengo na tribuna de honra junto de seu tradicional radinho de pilha.
Os anos de 1972 e 1973 são decisivos para definir o comportamento das torcidas organizadas cariocas para toda a década seguinte. Vasco e Flamengo fizeram 15 partidas nestes anos. Entre elas estava a decisão da Taça Guanabara de 1973 que teve a maior cobertura da imprensa sobre os preparativos das torcidas para uma decisão.
Foi neste contexto de grande envolvimento emocional que a torcida vascaína esteve organizada e mobilizada para um jogo como nunca antes. Havia a necessidade da torcida provar que ela era superior a rival. Organizar uma festa memorável, fazer um carnaval fora de época no mês de maio, este era o intuito dos vascaínos que levaram para o Maracanã: “três mil toneladas de papel picado, 50 faixas, uma bandeira de 1250 metros quadrados que será levantada com 150 metros de corda, uma bateria com mais de 50 peças e uma banda de música, são as armas da Torcida Força Jovem, para ajudar o Vasco a conquistar a 9ª Taça Guanabara”. Todo este aparato envolveu dias de trabalho e dedicação dos torcedores. Muito além do envolvimento do torcedor  em um dia de jogo. Toda esta entrega, sacrifício e amor ao clube, forjam aos poucos uma nova identidade nos torcedores organizadas que começam a se perceberem como “os verdadeiros torcedores”, os “autênticos”, ao contrário do “torcedor comum” que só chega na hora da decisão. Aos poucos este sentimento foi se consolidando no seio das principais torcidas que começavam a cultivar um amor sem paralelo as próprias torcidas organizadas. Ser da Força Jovem, por exemplo, era mais do que exaltar seu amor pelo clube, mas provar para si mesmo que ele era capaz de realizar um trabalho voluntário, coletivo, de união entre pessoas voltadas para o mesmo ideal.
O trabalho de cortar papel picado por toda a semana, preparar faixas, arrecadar dinheiro com rifas para ter a bateria inteira, confeccionar um bandeirão, enfim um ritual de devotamento que consolida uma nova forma de perceber sua relação com o futebol, com o clube e a própria torcida marcada pela renúncia, pelo desinteresse, pelo altruísmo de construir algo maior que a si próprio.
Todo este sacrifício marcado também pelo signo da festa, da alegria, da comemoração sem limites, da confraternização, do espírito carnavalesco provoca pelas músicas, pelos cantos e por uma zombaria coletiva contra os adversários.
A festa e a guerra caminharam juntas com as torcidas, até que ponto uma leva a outra, ou onde uma começa a outra termina, são discussões permanentes entre todos aqueles que estudam o fenômeno dos torcedores.
Neste mesmo ano aparecem várias denuncias de torcedores organizados ou não nas cartas de leitores alertando para o aumento da incidência de casos de violência nas arquibancadas e fora dos estádios. A crítica do torcedor tem um endereço certo: a ausência do poder público em tomar medidas de revide e fazerem vistas grossas contra atos que se tornavam rotineiros, mas tratados como meras desavenças: “porque está virando rotina ao final de cada jogo em que participe o Flamengo, a agressão física e moral aos torcedores adversários. Gostaria que fossem tomadas providências, pois senão saberemos revidar esse vandalismo. Existe aquele ditado: quem com ferro fere, com ferro será ferido”.
Uma reclamação típica dos anos 1990 já é dita neste período quando os torcedores percebem que o ambiente tenso e agressivo impede e inibe a presença de crianças e mulheres: “tempo bom aquele amigo, em que podíamos ir ao Maracanã, com a família. Quem sabe um dia nossos filhos ou nossos netos, possam também desfrutar desse espírito de cordialidade que havia entre as torcidas”. A queixa revela que as brigas já vinham aumentando nos anos anteriores e as rixas se acentuavam no decorrer do tempo. E com lucidez, percebe que não será de um dia para o outro que o problema ia ser facilmente resolvido.
Alguns torcedores já antecipavam que os chefes não conseguiam controlar a violência das mesmas e que suas lideranças vinham se enfraquecendo diante de novos lideres com atitudes diametralmente opostas aos guias tradicionais. Eis a declaração do torcedor: “alguns componentes da Força Jovem vão ao estádio apenas para brigar ou fazer confusão... o fato é que o Eli Mendes é boa pessoa mas não tem pulso suficiente para comandar a Força Jovem do Vasco, que no início era uma torcida bacana, mas que agora virou bagunça”.
Os próprios torcedores organizados criaram iniciativas para debelar o comportamento agressivo fazendo encontros antes dos jogos com demonstrações públicas de que as brigas eram fotos isolados e iniciativas que não contavam com o apoio das lideranças. Se realizaram encontros chamados “ Conversação da Paz” entre membros da TOV e da Flamante e a Torcida Jovem do Flamengo.
Neste ano a Revista Placar e o Jornal dos Sports promovem uma campanha para decidir qual é o clube mais querido do Rio: Vasco ou Flamengo. O resultado revela a vitória da torcida vascaína, garantindo um total de 157.157 votos, contra 125.604 do Flamengo, 28.594 do Fluminense e 27.416 do Botafogo, numa prova incontestável do prestígio cruzmaltino. Os números, evidentemente, não expressavam a real divisão da popularidade dos clubes nas cidade. Mas registrava que a forte rivalidade entre os clubes permaneceria nos anos seguintes. As próximas grandes decisões do decênio provariam isso, incrementadas pela rivalidade com a ascensão de duas novas estrelas: Roberto e Zico, assumiriam a condição de eternos ídolos de seus clubes já no ano seguinte.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.

Vasco Canal 100 1973

Vasco Canal 100 1973



domingo, 12 de fevereiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1972 UM NOVO ÍDOLO

                                                                    “Tua imensa torcida é bem feliz”
                                                                        Hino do clube
1972                          Um Novo Ídolo
A contratação de Tostão (Cruzeiro) foi a maior cartada do Almirante para apagar de vez a desastrosa década de 1960 e retomar a tradição do clube possuir grandes atacantes (Russinho, Leônidas da Silva, Ademir, Vavá, Almir). Era o maior valor já pago por um clube brasileiro por um jogador (cerca de Cr$ 3 milhões), motivando a torcida comparecer em massa no aeroporto para receber o jogador vindo da cidade de Belo Horizonte e levá-lo em carreata do Centro até São Januario.
Tostão estava no auge de sua carreira durante a Copa do Mundo no México em 1970 e, depois da despedida de Pelé da seleção brasileira em 1971, era o herdeiro natural da camisa 10. Uma estrela do futebol mundial e um dos principais protagonistas da seleção nacional naquele período.
Aos 25 anos, o atleta chegou ao Vasco em abril de 1972 para disputar o campeonato carioca daquele ano que prometia grandes emoções ao reunir ídolos do porte de Jairzinho (Botafogo), Gérson (Fluminense), Paulo Cesar Caju (Flamengo) e Edu (América). Sua estreia aconteceu somente em maio quando o clube enfrentou o Flamengo. Pouco depois ele era convocado pelo técnico Zagalo para a seleção brasileira que iria disputar o torneio internacional em comemoração aos 150 anos da independência do Brasil.
Ao comemorar o título no Maracanã vencendo a final diante de Portugal por 1 a 0, a torcida vascaína passava a se orgulhar de ter o novo ídolo participado desta campanha vitoriosa e vislumbrava que aquela seria a primeira de muitas conquistas para os próximos anos.
Não foi o que aconteceu, pelo contrário, em fevereiro de 1973, depois de voltar dos EUA para realizar exames médicos, Tostão anunciava que poderia abandonar o futebol devido a possibilidade de agravar o problema de sua visão no olho esquerdo. Mal começava o ano e a torcida recebia a triste notícia e frustração de não realizar o sonho de um novo ídolo de ataque para os anos vindouros. Ao todo foram 44 partidas e 7 gols, poucas atuações brilhantes, apesar da categoria e do talento reconhecido.
Em seu livro de memórias, o craque não poupa jogadores e dirigentes do Vasco: “fiquei assustado com a péssima qualidade do time e da falta de profissionalismo dos jogadores. Não treinavam, saíam para os pagodes todas as noites, e a maior parte não estava nem aí para a derrota” (Tostão, 1997, p.79). Sobre a nossa torcida, nenhuma linha, apenas o registro de que ele queria vir para o Fluminense, seu clube de infância.
Enquanto o mineiro abandonava o gramado em definitivo, uma jovem promessa vinda das divisões de base ganhava mais espaço: Roberto (ainda sem o Dinamite) já vinha entrando nas partidas desde 1971 e chegou a jogar junto de Tostão algumas vezes em 1972.
Neste ano a imprensa começa a divulgar pequenos atritos nas arquibancadas. Porém, as provocações e as brigas entre as torcidas eram apresentadas pela imprensa em tom jocoso, que faziam parte do folclore do futebol, algo para não ser levado a sério e sem maiores preocupações. No jogo entre Vasco e Fluminense no Maracanã, a reportagem em questão narra a saga da torcida Fúria Vascaína  de Niterói que é ameaçada pela Torcida Young Flu. Liderados por um senhor de nome Ivanildo Santana os cruzmaltinos advertem: “É que nós recebemos um bilhete do chefe da Torcida Jovem Flu do Fluminense. O bilhete dizia que nós íamos começar a apanhar na barca. Engraçado, Né? Eles pensam que nós somos o que? Estamos ai, decididos e dispostos ao que der e vier”. A reportagem não diz se teve ou não o confronto entre os torcedores, prefere continuar acentuando as características do torcedor: “solteiro, sem nenhum compromisso, a não ser com o Vasco, Ivanildo, antes de começar o jogo, pode ser encontrado no Bar 320, das arquibancadas, tomando a sua cervejinha”.
Talvez a ausência de notícias das brigas seja em função da boa relação entre as novas lideranças que procuravam promover eventos conjuntos em que as jovens lideranças se congraçavam. Um bom exemplo foi o torneio de futebol de salão com o nome Paulo Cesar Pedruco em homenagem ao jovem lider tricolor, um dos fundadores da torcida Young Flu, falecido em 1972 por desastre automobilístico[1].
Poucos meses depois, durante uma partida entre o Vasco e o Internacional–RS no Rio de Janeiro, Dulce Rosalina e as lideranças da TOV não deixam que um grupo de torcedores do Vasco invada a área destinada a torcida gaúcha para tomar as bandeiras. Com o título: “TOV: BACANA A ATITUDE DE DULCE ROSALINA”, a matéria exalta o comportamento dos torcedores organizados e atribui a violência a outros torcedores cariocas que não viajam:” a turma das Torcidas Organizadas nunca hostiliza com agressão as torcidas visitantes porque sabe muito bem que não passaria de um ato de covardia”. A conclusão é que as torcidas organizadas cumpriam o papel de receber as torcidas de fora, se confraternizando com as mesmas elevando o espírito esportivo ao mais alto grau.
A popularização do uso das bandeiras pelos torcedores era algo recente no futebol brasileiro. Acompanhando as imagens produzidas pelo Canal 100, é possível constatar que não tínhamos este comportamento tão generalizado até meados dos anos 1960. Foi algo que surgiu e se alastrou rapidamente. Nelson Rodrigues chamava de “tempestade de bandeiras”, acentuando um caráter impactante do novo visual existente nos estádios. Em grandes partidas, praticamente todo o anel superior do Maracanã era tomado pelas bandeiras que não ficavam circunscritas aos torcedores organizados. Eram milhares de bandeiras de tamanho médio (entre um e dois metros de largura e comprimento). Este visual nos estádios será a marca característica de toda a década de 1970.
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] Fonte: Jornal O Globo 24 de Agosto de 1972.

Vasco O Globo 1972

Vasco Jornal do Brasil 1972

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1971 ENTRE A TOV E A FORÇA

                                                                                   “Fica, fica, fica”.
                                                           Despedida de Pelé da seleção no Maracanã.


1971                   JOVENS PROMISSORES
A promessa de uma grande temporada começava com o lançamento da Revista Grandes Clubes do Futebol Brasileiro. O número 1 é dedicado ao Vasco. Na capa uma foto principal traz uma panorâmica dos vascaínos empunhando as suas bandeiras na arquibancada do Maracanã lotado. Na revista aparecem inúmeras fotos dos torcedores comemorando o campeonato carioca de futebol e o título do remo no ano anterior. Ainda mereceu destaque uma página inteira de propaganda apresentando Chacrinha como o maior vascaíno da Rede Globo de televisão, além de uma grande foto e entrevista com a torcedora-símbolo Dulce Rosalina. Esta ainda lamenta não poder continuar frequentando os estádios com a assiduidade dos anos 1960 e lamenta: “não dá mais para acompanhar todos os jogos, mas sempre que posso estou lá torcendo pelo meu Vasco” (p.74).
A conquista do bicampeonato carioca era a grande esperança da torcida vascaína para o ano de 1971. No entanto, a péssima campanha do time ao longo de toda a competição, fez com que as atenções fossem voltadas para o time juvenil[1] que conseguia vitórias empolgantes nas preliminares.
Depois de conquistar o campeonato juvenil em 1969, surgia uma outra geração liderada pelo goleador Roberto. Enquanto a equipe principal acumulava derrotas e decepções, as jovens promessas de São Januário conseguiam de maneira brilhante levar mais um título para o salão de troféus.
A situação do time principal era tão preocupante que a Revista Placar   (lançada no ano anterior) faz uma grande reportagem de duas páginas com a manchete: “Rezem pelo Vasco. Promessas mentirosas, campanha, ridícula, beirando a lanterna”. No texto, a explicação de um desempenho sofrível de apenas 8 vitórias em 25 partidas “na sua mais lamentável campanha dos últimos tempos”. O maior alvo da reportagem são as promessas dos dirigentes que ouviam sempre o nome de prováveis reforços para o time: “semana que vem a torcida vai ter uma grande surpresa. Toda sexta-feira a mesma mentira. Natal, Aladim, Afonsinho, o time inteiro do Cruzeiro, o time inteiro do Olaria (...) nada. Tudo mentira”.
Verdade ou mentira, o fato foi que o Vasco conseguiu “metade do time do Olaria” para disputar o primeiro campeonato brasileiro com 28 clubes de diversos estados do país. Foi do clube da Zona da Leopoldina (o Olaria foi a grande surpresa do campeonato carioca ao chegar em 3° lugar) que vieram os maiores reforços para São Januário. Passaram a vestir a camisa vascaína os zagueiros Haroldo, Miguel e Alfinete. E o grande destaque do time o meia Afonsinho, famoso por sua imensa barba e por ter conseguido o passe livre numa luta jurídica com o Botafogo.
Depois do campeonato carioca, em julho de 1971, Pelé se despedia da seleção brasileira em jogo no Maracanã[2]. O apelo em todo estádio de milhares de torcedores ecoa com o grito de “Fica, fica”. Era a última partida do rei no estádio como jogador da seleção. Pelé ainda jogaria mais três anos como jogador do Santos.
No mês de julho uma matéria na imprensa carioca revela o interesse do presidente do Vasco, Agathyrno Gomes, ao sugerir a saída de Dulce Rosalina da chefia da TOV, sendo substituída por Eli Mendes que havia saído da TOV para liderar a Força Jovem. O motivo da desavença era a interferência da torcedora querendo a mudança de treinador.
A entrada de Ely Mendes na Força Jovem deu um outro impulso a torcida que passou a contar com a experiência de Ely e de outros amigos[3] que trocaram a TOV pela Força Jovem. A boa relação do novo líder com os dirigentes vascaínos e sua capacidade de aglutinar pessoas para um trabalho coletivo, foi logo reconhecido. Em pouco tempo a Força Jovem dá um salto qualitativo em sua organização e torna-se a torcida organizada mais importante do clube. Entretanto, a liderança de Dulce Rosalina junto a imprensa ainda era maior, bem como a identificação do grande público.
Empolgada com os reforços do Olaria a torcida cruzmaltina começou a acreditar no título brasileiro quando o Vasco derrotou o campeão carioca de 1971 na terceira rodada. Não era uma vitória qualquer, era também o fim de uma escrita que já durava 3 anos diante do Fluminense[4].
No segundo semestre começaria o primeiro campeonato brasileiro e o fenômeno das caravanas dos torcedores começa a ser acompanhado com mais interesse pela imprensa que registra a movimentação dos torcedores pelos diversos estados, especialmente aquelas realizadas no eixo Rio-São Paulo.
Na medida que o campeonato brasileiro incorporava novos clubes de vários estados do país, chegando até 94 clubes em 1979, diferentes lugares se integravam no horizonte dos torcedores. Com a proliferação das caravanas a partir da criação do campeonato nacional em 1971, as torcidas ganhariam um componente identitário mais aventureiro e juvenil.
As caravanas dos anos 1960 juntavam geralmente dois ônibus para alguns jogos de maior interesse. Agora, as torcidas mais estruturadas passaram a contar com a organização dos clubes para o contato com empresas de transporte, usar a sede para vender as passagens e principalmente financiar as viagens. A título de exemplo, uma viagem para São Paulo em 1971 de ida e volta custava Cr$ 20,00, quando o preço normal custava 25% a mais.
O grande destaque do ano em relação as caravanas[5] aconteceu em setembro quando a torcida do Vasco conseguiu reunir milhares de torcedores que partiram em 83 ônibus rumo a São Paulo para enfrentar o Corinthians, no Parque Antártica. Este jogo ficou marcado pelo confronto dos torcedores dentro e fora do estádio. Para os padrões da época foi uma briga de grandes proporções mas nada comparado com os conflitos depois dos anos 1990. Apesar disso foi a maior briga entre torcidas de diferentes estados já registrada, gerando por definitivo uma rivalidade entre as duas torcidas, antes mesmo da aliança que seriam realizadas entre as torcidas de Vasco e Palmeiras e a de Flamengo e Corinthians.
Em outubro era realizado outro grande clássico: era o primeiro jogo entre Vasco e Flamengo pelo campeonato brasileiro. Os jornais davam destaque ao duelo entre o zagueiro Moisés e a jovem promessa do Flamengo: Zico, com apenas 18 anos. Aquela seria a segunda vez de Zico com o Vasco que fizera sua estréia justamente contra o Vasco, em julho.
            As palmas unânimes dos quase 100 mil torcedores das duas equipes vieram para o goleiro argentino Andrada, grande destaque daquele jogo e de toda a competição. Andrada receberia o Bola de Prata da Revista Placar como o melhor goleiro da competição. Mais do que nunca, os vascaínos tinham certeza de poder confiar no maior ídolo da camisa 1 do Vasco depois de Barbosa.
            Não era apenas Zico que fazia a sua estréia no profissional naquele ano. No final da temporada, a pedido dos torcedores das arquibancadas o técnico do Vasco Admildo Chirol, dava as primeiras chances ao jovem atacante Roberto. E foi no dia 25 de novembro[6], no Maracanã, que veio o primeiro gol no time titular no jogo diante do Internacional, na vitória por 2 a 1. Começava a surgir o “Dinamite”[7]nas páginas do Jornal dos Sports.
            Era o Jornal dos Sports que dava a maior cobertura para os torcedores expressarem suas idéias. Não foram poucas as vezes que os vascaínos escreviam para a seção de carta de leitores. Buscando incentivar esta participação, o  “Cor-de-Rosa”, inovava com uma página voltada para resenhas de jornalistas esportivos apaixonados por seus clubes. Coube a Sérgio Cabral, escrever o que pensavam os vascaínos. Entre as inúmeras crônicas deste fim de ano, intitulada o clube mais popular, Cabral destaca uma pesquisa de 1969[8] em que o Vasco perdia para todos os clubes na preferência na classe A: “ na classe A nós escolhemos os torcedores. Perdemos em quantidade e ganhamos em qualidade. Quem é o melhor poeta brasileiro? Carlos Dummond de Andrade. É vascaíno. O maior comunicador? Chacrinha. É vascaíno. Os maiores nomes da chamada música jovem? Roberto e Erasmo Carlos. São vascaínos. E Paulinho da Viola? E Edu Lobo? E Zé Keti? E Nelson cavaquinho? E Doris Monteiro? E Danusa Leão? E Araci de Almeida. São todos vascaínos. Há muitos outros para citar mas acabou o espaço”.
            Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros

[1] No ano de 1971 foi editado o livro de Levy Magalhães de Melo sobre os 30 anos da História do Departamento de Infanto-Juvenil do Vasco da Gama (1941-1971, Bodas de Pérola).
[2] Na preliminar jogou o time juvenil do Vasco ( campeão em 1971) contra a seleção carioca.
[3] Francisco Carlos Português relembra em 2010: “juntos vieram o Aroldo, a Márcia, Beth, Paulinho, Marcel, Carlinhos Bicudo, Rogério Alves, Fernando Salves, Suely, entre outros”.
[4] Foram 13 jogos. A maior escrita da história desse clássico. De acordo com o livro de Sergio Frias, “Eurico Miranda. Todos contra ele” (2012, p.102).
[5] Outra caravana importante foi para Belo Horizonte quando saíram 25 ônibus. Fonte: Jornal Correio da Manhã, 04 de Setembro de 1971.

[6] Conhecido pelos frequentadores de São Januário, o atacante já tinha virado notícia na semana anterior quando a torcida Força Jovem pediu a sua escalação contra o Bahia, conforme noticiou o Correio da Manhã, no dia 13 de novembro.
[7] Os jornalistas vascaínos do Jornal dos Sports, Sérgio Cabral e Aparício Pires conversavam sobre um apelido para aquele jovem e surgia o “Roberto Dinamite”, criado por Aparício Pires.
[8] No fim de 1971, a Revista Placar publica uma nova pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, revelando o percentual das torcidas: Flamengo 35%, Vasco 18%, Fluminense 16% e Botafogo 14%.


Vasco Jornal Tribuna da Imprensa 1971

Vasco 1971


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

TORCIDA DO VASCO 1917: A PRIMEIRA TORCIDA ORGANIZADA DO VASCO

O Clube de Regatas Vasco da Gama foi fundado em 1898 para a pratica do Remo, esporte muito popular na época.
Em 1915 foi criado o Departamento de Futebol.
Em 1916, o Vasco começa disputar o Campeonato Carioca da Terceira Divisão da Liga Metropolitana de Sports Athléticos (LMSA).
Em 1917 a Liga Metropolitana de Sports Athléticos (LMSA) foi reformada, passando a se chamar Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e o Vasco passa a disputar a 2ª Divisão do Campeonato Carioca.
O futebol nessa época já tinha seus adeptos, a Torcida do Vasco com meia dúzia de gatos pingados, já começava acompanhar o time.
Como fato inédito, na época, quem chefiava essa Torcida Organizada era Dona Josefa Pereira (primeira Chefe de Torcida do Vasco), irmã do saudoso Vascaíno Manuel Pereira, proprietário de uma casa de Tecidos como relata Álvaro do Nascimento Rodrigues, o Zé de São Januário, em sua coluna Uma Pedrinha na Chuteira do Jornal dos Sports em 21 de Agosto de 1968.
Ela chefiava a Torcida de Terra e Mar.
A Torcida do Remo era colossal e a do futebol minguada.
Como brigava a Dona Josefa Pereira.
Naquele tempo não havia o Estádio Mário Filho (Maracanã) com dois mil policiais que garantiam a ordem. As brigas eram no Campo do Esperança, no Marco VI em Bangu, no Campo do Jardim Zoológico ou do Palmeiras, na Quinta da Boa Vista.
São considerados paladinos da Torcida Vascaína, a maioria já falecidos, os seguintes Vascaínos, D. Josefa Pereira e seu irmão Manuel Pereira, Joaquim Carneiro Dias, Baltar Junior, Dr Castro Menezes, Carlos Medalhas, Albertino Moreira Dias, Ouriço, Francisco Costa, Sinhá, Fava, Zapelli, Dom Quixote.
Mas tarde a Torcida Vascaína foi organizada pelo saudoso Polar e a seguir por João de Lucca, Margarida Portugal, Dulce Rosalina...
Tenho que agradecer ao historiador Vascaíno Jorge Medeiros pela descoberta dessa preciosidade.
Fonte: Jornal dos Sports, Coluna Uma Pedrinha na Chuteira de 21 de Agosto de 1968, 19 de Fevereiro de 1978 e 19 de Julho de 1978.

Torcida do Vasco Jornal dos Sports 1968

Torcida do Vasco Jornal dos Sports 1978

Torcida do Vasco Jornal dos Sports 1978

domingo, 5 de fevereiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1970 A FORÇA DOS LEÕES

                 “somente um interesse apaixonado pode levar o sujeito a existir plenamente”
                                                                               Kieerkgaard
1970                       A Força dos Leões
A crise política no clube que culminou com a saída do Presidente Reynaldo Reis no fim de 1969, sendo substituído por Agathyrno da Silva Gomes, demonstrava como a ausência de títulos em todos os anos 1960 (o último carioca foi em 1958) afetou por completo o ambiente da agremiação esportiva. Dentro e fora do campo a tensão permanente gerou inúmeras desconfianças em relação ao início de ano de 1970.
A maior novidade do mercado editorial em 1970 era o lançamento da Revista Placar, pela editora Abril. Embora estivéssemos na Época de Ouro do Futebol Brasileiro não havia nenhuma revista especializada em esportes neste ano. A última revista que fez relativo sucesso era Revista do Esporte (1959-1970) que saía pela última vez ainda em 1970, mas já dava sinais de esgotamento desde 1968.
Apesar de adotar uma linha editorial ao privilegiar o futebol paulista, Placar se tornou referência para os torcedores de todo o pais, graças ao talento da equipe de repórteres que a revista reuniu ao longo dos anos. Apesar da ditadura e da censura imperando na imprensa, havia espaço no periódico para a crítica sobre os poderosos no futebol.
Mas o grande sonho dos torcedores a partir de 1970 era se tornar milionário com a criação da loteria esportiva. Semanalmente os apostadores jogavam e acompanhavam os 13 palpites dos jogos dos campeonatos regionais. Em 1971, o campeonato nacional daria novo incentivo para os apostadores conhecerem o futebol nacional com mais interesse.
Enquanto a seleção brasileira treinada por João Saldanha se estruturava para o campeonato mundial no México, o Vasco iniciava os preparativos para a Taça Guanabara e para o campeonato regional com um novo técnico (Tim) ciente do desafio de encontrar um clube em ebulição e uma torcida carente de títulos.
O clube da Colina procurava reforços e um deles poderia vir da Europa. Antes de ser demitido e substituído por Zagalo, o técnico João Saldanha escreve uma coluna no jornal O Globo declarando o seu apoio na tentativa do presidente do Vasco trazer o maior craque da história de Portugal para o seu clube. O passe de Eusébio estava avaliado em 160 milhões. Dinheiro que o clube carioca tentava arrecadar através de uma “vaquinha”. O próprio Saldanha promete ajudar, mas revela, de forma infeliz como ele vê a torcida cruzmaltina: “agora vocês vão dizer; o que é que você tem com isso? Você não é Vasco, não é português (...) O Vasco tem de levar novamente a colônia portuguesa para dentro do Maracanã. Ela já está fora há algum tempo e, para o Vasco da Gama eu creio que isso é perigossíssimo” (Saldanha, 2006, p. 110). O resultado é que nem o atacante veio para o Vasco, nem Saldanha continuou na seleção.
Desde 1923 quando os cruzmaltinos passaram a disputar o campeonato carioca da primeira divisão aquele era o período de maior jejum de conquistas, como revela a manchete da reportagem: “Torcida perde a paciência após 11 anos sem títulos” (23-02-70). A matéria é sobre a recém-criada torcida organizada Força Jovem do Vasco, que através de uma carta pública pede ao novo presidente uma reunião com o técnico e com um jogador. Uma situação no mínimo paradoxal para os padrões daqueles Anos de Chumbo com a pressão de uma torcida para o presidente já que era o auge de repressão do regime militar (1964-1985) onde qualquer manifestação de protesto era terminantemente proibida após a decretação do AI-5, em  dezembro de 1968. No entanto, no futebol este Ato não teve o efeito devastador que atingiu a sociedade pois desde os fins dos anos 1960 (particularmente a partir de 1967) que as torcidas organizadas cariocas resolveram mudar sua atitude de apoio incondicional ao clube e passaram a se comportar de forma mais crítica e incorporando palavras, atitudes e gestos dos movimentos sociais de contestação ao regime militar. Os protestos nas arquibancadas tinham como alvo não somente os dirigentes, como técnicos e jogadores do clube do coração.
Enquanto a Torcida Organizada do Vasco (TOV) chefiada por Eli Mendes na ausência de Dulce Rosalina (torcedora-símbolo e liderança desde 1956), que se recuperava de um acidente no ônibus da torcida durante uma caravana para São Paulo em 1968, outros torcedores se movimentavam para organizar suas própria torcidas e/ou apoiarem atos de protestos contra os fracassos sucessivos nos últimos anos.
As novas torcidas organizadas do Vasco surgiram ainda em 1968. Se em Paris o mês de maio viu as ruas pegarem fogo nos inúmeros protestos dos estudantes contra o governo francês, em São Januário, o rastilho de pólvora chegava em 14 de maio com a criação da Torcida Dissidente, intitulada Leões Vascaínos, criada no embalo das manifestações de rua na cidade do Rio de Janeiro, no período anterior ao AI-5. Para Zuenir Ventura, autor do livro 1968, o ano que não acabou, é difícil encontrar uma explicação para tantas revoltas ao mesmo tempo: “movida por até hoje uma misteriosa sintonia de inquietação e anseios, a juventude de todo o mundo parecia iniciar uma revolução planetária” (2013, p.75).
O português Abílio Machado era o principal líder da torcida Leões Vascaínos que, junto de vários outros torcedores (principalmente da região da Tijuca) e de vários associados do clube, romperam com a ideia de uma torcida por clube. Este movimento já vinha ocorrendo na mesma intensidade nos outros clubes com o surgimento de Torcidas Jovens.
Abílio foi um dos principais articuladores do movimento que provocou a saída do presidente Reynando Reis em 1969. Pouco tempo depois, em fevereiro de 1970, um outro grupo de vascaínos da região do Grande Méier se reúne para fundar sua própria torcida. As primeiras reuniões aconteceram ainda em 1969 e tiveram como base inicial uma casa na rua Cônego Tobias, onde residia um médico conhecido da região e frequentador assíduo do Maracanã.
A Força Jovem e os Leões Vascaínos se colocavam nas arquibancadas atrás do gol, no Maracanã, bem distante da TOV que ficava sempre no início do lado direito das cadeiras especiais e tribuna de honra. Juntas e separadas as duas torcidas tinham momentos em que se uniam e se separavam. Em seção de cartas dos leitores é possível perceber que se travava um duelo amigável de quem teria a hegemonia dos jovens torcedores vascaínos, insatisfeitos com o clube o a torcida oficial.
Seja nas arquibancadas onde o duelo era de quem incentivava ou protestava mais ou nos jornais, ambas se acusavam de não serem totalmente independentes e de ainda viverem de favores dos dirigentes do clube.
Iniciado o campeonato carioca de 1970, o clube tem uma campanha modesta mas depois dá uma arrancada no final e surpreende vencendo seus adversários (mesmo sem ter um time de grandes estrelas, como o goleiro argentino Andrada e o experiente atacante Silva, ambos considerados os craques daquele elenco).
Na semana da conquista, o poeta Carlos Drummond escreve uma carta para seu neto que vivia na Argentina, demonstrando entusiasmo com a campanha do seu time do coração: “este ano estou com uma bruta esperança de ver o meu Vasco campeão carioca. Desde 1958 que nao temos este gostinho” (Drummond, 2002, p.228). O título vem por antecipação, em setembro, após derrotar o Botafogo na penúltima rodada. A festa da torcida vascaína vinha três meses depois da seleção brasileira conquistar de forma brilhante o tricampeonato no México (1958-62-70) com um futebol exuberante que encantou o mundo.
Comemorado intensamente pelo povo brasileiro que saía as ruas a cada vitória, era impossível dos militares não tirarem proveito de tamanha euforia. Foi o que se viu com a chegada dos jogadores ao país e milhares de pessoas acompanhavam os ídolos desfilando em carros abertos.
Transformar 90 milhões de cidadãos em torcedores foi a receita dos propagandistas do governo que souberam tirar proveito do futebol para promoverem suas campanhas como “Ninguém Segura Este País” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
E foi nas ruas que a torcida vascaína mais comemorou o título com direito a passeata do Maracanã até São Januário após o jogo e, pelo Centro, da rua do Acre até a Rio Branco durante a semana e, finalizando, com uma carreata da sede na Lagoa até o Maracanã, no domingo seguinte.
Torcida e torcedores ganham as ruas e o destaque nos jornais. No dia seguinte a conquista é apresentada uma grande reportagem com Dulce Rosalina, já quase que inteiramente recuperada do acidente, ela é a figura principal ocupando uma página entre textos e fotos (aparece ainda com o braço engessado). Aos 38 anos, ela está na TOV liderando os torcedores e toda a tensão do jogo com o Botafogo é descrita. A medida que o clube faz 2 a 0 todos começam a ensaiar o grito de “Campeão”, mas ela resiste, pede para não cantar a vitória antes do tempo. Até o apito final o drama persiste. Eis que a partida termina e todos se confraternizam e choram como crianças.
Com o prestigio recuperado a torcida tem as manchetes dos jornais para varias iniciativas. Dirigentes, torcedores e jogadores esquecem as desavenças. Eli Mendes promete dois mil balões de gás vermelho para o jogo das faixas, os dirigentes (Adriano Lamosa) oferecem barris de chope em São Januário, enfim uma festa completa para tornar aquela conquista como inesquecível. Para apagar da memória os tenebrosos anos 1960.
No dia do último jogo (com o Fluminense) que seria a entrega das faixas, uma outra grande reportagem destaca um outro torcedor-simbolo do Vasco, Cartola. Um humilde senhor que se vestia sempre com roupas de gala para os jogos e tinha nos seus dentes símbolos do Vasco. O próprio torcedor já havia sido homenageado no livro de João Antero de Carvalho em 1968.
Terminava o ano e o clube era eliminado da Taça de Prata, mas a união com o clube e jogadores estava refeita. Mesmo com o fim do tradicional (1 clube = 1 torcida), o ambiente entre os torcedores vascaínos era de confraternização. O azar dos anos 1960 tinha ficado para trás, o pessimismo dos anos anteriores tinha passado. O signo do “milagre econômico” tinha entrado em São Januário, os tempos de protesto tinham ficado para trás. Talvez...
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.

Vasco Revista O Cruzeiro 1970

Vasco Jornal O Globo 1970

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1969 SURGE O BACALHAU

                       “É ou não é/ piada de salão/ um time de urubu/ querer ser campeão”
                                                         canto da torcida

1969                           Surge o Bacalhau

A década de 1960 foi realmente inesquecível para o Botafogo. Não era à toa que todos apontavam para o crescimento de sua torcida entre os jovens naquele período. Depois da geração de Garrincha, Didi e Nilton Santos, o alvinegro apresentava uma nova brilhante geração liderada por Jairzinho, Gerson e Paulo Cesar. Bicampeão carioca em 1967-68, o clube também sustentava o bicampeonato no basquete (2° esporte preferido na época). Ou seja, não faltavam motivos para todos os outros clubes quererem derrotar o Botafogo.
Em janeiro, Vasco e Botafogo duelavam em três partidas emocionantes nas finais do campeonato de basquete. Com recorde de público nacional nos dois últimos jogos, a equipe vascaína perde a terceira e última partida. A tristeza dos vascaínos (maioria nos ginásios) e a gozação dos alvinegros vai alimentar um desejo de vingança dos vascaínos ao longo de 1969.
            O sucesso do Botafogo era somado com a escolha da CBD de João Saldanha para comandar a seleção brasileira que disputaria as Eliminatórias[1] da Copa do Mundo de 1970 no México. Saldanha era profundamente identificado com o Botafogo, seja como ex-técnico e ex-dirigente. Ao assumir o comando logo escalou as suas “feras”. Entre elas, o zagueiro vascaíno Brito.
            Eram tempos estranhos. Enquanto o Brasil tinha um técnico da seleção, fã do proibido PCB, o governo militar perseguia os comunistas. No jogo de abertura do Maracanã em 1969, o Vasco enfrentava justamente a seleção da URSS (líder do bloco comunista mundial). A derrota para os soviéticos já demonstrava que o ano de 1969 não seria fácil.
            Veio o campeonato carioca (considerado um dos mais emocionantes de todos os tempos) e o imenso público prestigiava a competição com grandes rendas. Justamente este era o tema do filme “ A Máscara da Traição”, filmado com cenas reais no Maracanã mostrando os times em campo e a batalha nas arquibancadas nos clássicos entre Flamengo e Botafogo e o Vasco enfrentando o Fluminense[2]. 
            Em maio, no Dia das Mães, o Vasco apresentava a sua torcida a maior contratação daquele ano. Era a estréia do goleiro argentino Andrada. E não foi  como esperávamos. Diante de quase 90 mil torcedores, o Vasco é derrotado pelo Flamengo por 3 a 0. Logo uma crise de relacionamento se instaura  entre a torcida do Vasco e o presidente Reinaldo Reis. Daí apareciam as novas fissuras entre as duas principais torcidas, a TOV (oficial) e a Leões Vascaínos                (chamada de torcida dissidente).
            As divergências entre as duas maiores lideranças Dulce (TOV) e Abílio   (Leões Vascaínos) não se restringiam somente em relação a oposição ao presidente do clube. Abílio cobrava de Dulce manifestações contra o dirigente e o afastamento de torcedores afeminados. Dulce não concorda com as posições de Abílio. O racha na torcida chega aos jornais. Um assunto perfeito para o cartunista Henfil, que mostra nos desenhos dois representantes da torcida do Vasco: um machão (Abílio) e um afeminado ( chamado de “fala fino”).
            A briga interna foi o motivo de muitas reportagens do Jornal dos Sports[3] em todo o  mês de maio: “o fogo da revolução lançado pela torcida do Vasco foi tão violento que atingiu os seus próprios integrantes. Ontem em São Januário, a guerra já era mais contra o técnico, os dirigentes e os jogadores. Era entre os próprios torcedores. Como a Dissidência agora virou moda também entre os torcedores, uma ala quer desligar-se da liderança de Dulce (TOV) para organizar seu próprio grupo. O líder do motim contra Dulce Rosalina é Abílio Valente, um nome muito sugestivo, segundo seus aliados. O novo grupo já deve estrear amanhã e promete levar para o Estádio Mário Filho o slogan: “Abílio Valente lidera Torcida Dissidente”, se Dulce não afastar os “fala-fino” que engrossam a Torcida Organizada[4].
            No final do mês é feito uma trégua entre Abílio e o presidente, mas as divergências com Dulce persistiam: “Abílio Valente, o Chefe rebelde da Torcida Dissidente, foi visitar ontem o Presidente Reinaldo Reis para hipotecar o seu apoio ao clube, e ouviu do Presidente palavras de incentivo e ao mesmo tempo de paz, pedindo inclusive sua união com Dulce Rosalina, Abílio aceitou, mas impôs uma condição: “Só se a Dulce sumir com as bonecas, seu Presidente. Sou um gajo de respeito não quero, na rua, ser confundido”[5].
            A intensa rivalidade entre os torcedores dos principais clubes cariocas e os xingamentos mútuos acabaram por virarem símbolos dos próprios clubes. Daí apareceram nas charges de Henfil, o Bacalhau e o Urubu.
Como o rubro-negro era o time mais popular entre negros e pobres, os torcedores dos clubes rivais chamavam os rubro-negros pejorativamente de urubus. Ninguém sabe exatamente como surgiu o urubu para designar os torcedores do Flamengo. O certo é que, até este ano, dava briga chamar alguém, por este nome
Até então o urubu não era um símbolo incorporado pelos flamenguistas, provocando confusão e revoltas. Porém, num jogo entre Flamengo e Botafogo em 1969 os torcedores do Flamengo soltam um urubu vivo em campo. Como resultado daquele jogo acabou sendo favorável ao Flamengo (2 a 1), a partir daquele momento mudava-se o símbolo: para os rubro-negros o urubu passaria a significar a popularidade do Flamengo. Quando o cartunista Henfil trocou o símbolo do Flamengo do marinheiro Popeye para o urubu a torcida do Flamengo começou a mudar de postura, pois já havia incorporado seu novo mascote.
Henfil criou o urubu e o bacalhau como mascotes mas estes já existiam nas ofensas entre os torcedores. Na confecção do desenho, Henfil pode ter buscado inspiração na figura de Abílio, líder da torcida dissidente Leões Vascaínos. “Na configuração dos times de massa, Henfil costumava atribuir ao Bacalhau uma característica mais intelectual nas ações da República de Ramos. É ele, e não o Urubu, quem costuma idealizar planos de reação, redigindo e lendo os discursos de protesto que justificavam as ações. Henfil procurou frisar a ignorância do Urubu para ressaltar seu pertencimento ao clube mais identificado com as massas” (Pessoa, 2013).
Na noite de 7 junho as torcidas de Vasco e Flamengo se uniram contra a torcida do Botafogo. Uma estranha aliança já que os dois clubes sempre foram os maiores rivais entre si. Entretanto, a conjuntura favorável ao Botafogo acabou por  promover esta aliança no estádio. Não só através dos incentivos ao time do Vasco contra o Botafogo, mas a violência: “foi uma noite, assim, da maior selvageria, sobretudo na platéia. A torcida do Flamengo uniu-se a do Vasco e juntas queimavam as bandeiras do Botafogo, além de enxortar a sua Torcida. E o Maracanã em peso clamava: “Cadê o Tri”, “Cadê o Tri”. Terminando na base de Celito Lindo, ou melhor , “Está Chegando a Hora, meu bem...”[6].
Pouco depois o Vasco enfrenta o Flamengo e a aliança da torcida do vascaína foi com os tricolores. Numa rodada dupla no Maracanã, Fluminense e Bonsucesso fizeram a preliminar para o “Clássico das Multidões”, juntando mais 130 mil pagantes. Com os resultados (vitória do Fluminense e empate do Vasco), o clube das Laranjeiras praticamente garantia o título carioca daquele ano.
Em julho, a importante revista semanal Realidade faz uma grande reportagem de cinco páginas sobre o Vasco, com a manchete “O Vasco é a Massa”, exaltando a participação da torcida na construção do seu estádio e a fidelidade mesmo na adversidade: “há dez anos não levanta o título, mas é sempre um dos campeões de renda no Rio. A torcida fascinada por sua mística jamais o abandona”. Dividida em várias partes, escritas pelo jornalista Marcos de Castro, as matérias  enfatizavam, pela primeira vez numa revista nacional, a importância do Vasco na luta por inserir negros, operários e pobres no futebol. São destacados ainda os famosos vascaínos (Roberto Carlos, Edu Lobo, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond, entre outros) e os tradicionais torcedores de arquibancada ( Dulce, Ramalho e Cartola).
No segundo semestre com a Taça de Prata o Vasco vinha fazendo uma péssica campanha[7]. O apoio de DulceRosalina ao presidente do clube dura até outubro quando a força do movimento oposiconista realiza grandes protestos. A imprensa registrava o clima de revolta: “FORA REINALDO A medida que o tempo passava, os torcedores chegavam ao estádio. A facção denominada Leões Vascaínos levou uma faixa com os seguintes dizeres:“Ciro, Valdir, Paulinho, os Leões te saúdam.”Os gritos “Fora Reinaldo”, “Fora Reinaldo”, se ouviam nos quatros cantos de são Januário. Cerca de 300 torcedores invadiram ontem o Estádio de São Januário, demostrando sua insatisfação diante dos acontecimentos que se sucederam ao término do jogo de domingo, entre Vasco e Botafogo e tiveram como conseqüência mais grave a renuncia de todo o Departamento de Futebol, e do Técnico Paulinho. As Torcidas chefiadas por Dulce Rosalina (TOV) e Abílio Valente (Leões Vascaínos) esqueceram por instantes as suas divergências e formaram uma espécie de frente ampla de apoio a Ciro Aranha e Paulinho e de repudio a continuidade do Sr Reinaldo Reis na Presidencia do Clube. Os torcedores presentes, todos associados do Vasco, ficaram de pé na pista de atletismo, protestando contra o Presidente e exigindo a permanência de Ciro Aranha na Vice Presidencia de Futebol. Abílio Valente, Chefe da facção Leões Vascaínos, liderou um manifesto com uma lista de Conselheiros”[8].
Pela primeira vez em sua historia um presidente de Vasco era deposto em função de diversas acusações. O presidente Reinaldo Reis saía do cargo após inúmeras manifestações de conselheiros e torcedores. Este não seria o primeiro presidente de clube a enfrentar problemas nos conturbados “anos rebeldes”. Ainda em 1968 o presidente do Flamengo enfrentou uma série de manifestações dos torcedores, assim como em 1969 o presidente do Corinthians seria derrubado e as torcidas do Fluminense participariam ativamente na escolha do presidente (Hollanda, 2010).
O ano estava terminando e o Vasco com nove derrotas consecutivas enfrentava o Santos no Maracanã. Aquela seria uma partida histórica para os vascaínos e todos os brasileiros que torceram juntos para Pelé marcar o seu milésimo gol. Ele veio de pênalti. Todos mais de 65 mil torcedores no estádio ( inclusive a nossa torcida) vibrou com aquela marca. Depois do gol, Pelé dá uma volta ao redor do gramado vestindo uma camisa do Vasco com o número 1000 às costas e é aplaudido por todos os 50 mil torcedores.
O fim do ano estava chegando e a esperança dos vascaínos seria que tudo mudaria com uma nova década. A expectativa por novos tempos vinha com a conquista do campeonato carioca de juvenis em 1969. Depois de 15 anos, nosso clube voltava a ser campeão desta categoria. Na última partida, os vascaínos encheram o pequeno estádio do Olaria para comemorar um título em um ano de poucas alegrias.



[1] em 1969, o Brasil conquistou vitórias avassaladoras, como no último jogo contra o Paraguai que proporcionou o maior público pagante da história do Maracanã, contando com a presença de mais de 189.000 pessoas
[2] Vasco x Fluminense foi disputado no dia 21 de abril para um público de mais de 100 mil pessoas.
[3] Outros jornais  ja noticiavam também, como o Diário de Notícias, em 30 de março: “efetivou-se, como já se esperava, a cisão na Torcida Vascaína, ainda em conseqüência da derrota do último domingo, ante o Flamengo, ficando Abílio Valente com a parte dissidente (Leões Vascaínos) e Dulce Rosalina continua como Chefe da Torcida Organizada (TOV). O motivo: Abílio queria que Dulce ficasse com ele, contra o Presidente Reinaldo Reis e o Técnico Evaristo de Macedo”.
[4] Fonte: Jornal dos Sports 16 de maio de 1969.
[5] Fonte: Jornal dos Sports, 22 de maio de 1969.
[6] Fonte: Jornal Correio da Manhã 07 de Junho de 1969.
[7] Em carta para  seu neto, o poeta vascaíno Carlos Drummond de Andrade desabafa: “continuo sendo um vascaínos sofredor” ( Drummond, 2002, p.228).
[8]  Fonte: Jornal do Brasil 15 de Outubro de 1969.
 Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


Vasco Jornal do Brasil 1969

Vasco Revista Realidade 1969