quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1963 PROTESTO, GREVES E ABAIXO-ASSINADOS

                                       “TORCIDA DO VASCO PODE ENTRAR DE GREVE”
                                                                 Manchete do Jornal


1963             Protesto, Greves e Abaixo-Assinados

Ao ver seus ídolos cada vez mais velhos e sem substitutos a altura dos jogadores vendidos, a torcida começava a se desesperar com o falta de uma política de contratações de grandes jogadores e de uma inoperância na formação de base eficiente. Enquanto Paulinho de Almeida (30 anos), Coronel (31), Sabará (32) e Pinga (38) envelheciam, os novos talentos não despontavam. Somente em 1963 o Vasco conseguiu montar uma dupla de zagueiros que daria confiança a sua torcida novamente: Brito e Fontana, formaram a partir deste ano uma das melhores zagas do país nos próximos anos. Mas a renovação era tímida, apenas Maranhão (que formou dupla de meio-campo com Gerson na seleção brasileira amadora) e Saulzinho (artilheiro do campeonato carioca em 1962), se destacavam e ganharam algum cartaz.
Enquanto os craques saíam e não chegavam os técnicos entravam e saíam em profusão. O Vasco durante os anos 1960 passou a ser conhecido como cemitério de treinadores[1]. Nem mesmo a contratação de Oto Glória (1963) daria jeito, sendo demitido em poucos meses. Logo ele que se destacaria nos anos seguintes como o técnico que levou a seleção portuguesa a sua melhor colocação numa Copa do Mundo, com o 3° lugar em 1966.
Muitos técnicos eram demitidos após a pressão dos torcedores. Oa protestos e vaias nos estádios e a organização de abaixo-assinados foram os principais instrumentos de pressão da torcida: “Dulce Rosalina, Chefe da Torcida Organizada do Vasco, oferece trégua ao Técnico Jorge Vieira, abrindo-lhe um crédito de confiança desde que pare de sonhar com o Sporting ou Corinthians e respeite seu contrato com o Clube da Colina. Se Jorge aceitar, Dulce trancará na gaveta o memorial que vinha correndo entre os torcedores para expulsar o Técnico e contratar Gentil Cardoso o que já contava com 800 assinaturas”[2].
O apoio a Gentil Cardoso veio através de um plebiscido entre os dois principais técnicos. Cabe lembrar que no início do ano o país passou por um plebiscito que mobilizou toda população para definir se o país seria parlamentarista ou presidencialista.
Neste ano o grande jogo da seleção brasileira foi contra os argentinos que não se enfrentaram na Copa do Chile em 1962. Brasil e Argentina disputavam a 9ª edição da Copa Roca. Depois de perder por 3 a 2 no Morumbi, a seleção nacional contou com todo o apoio da torcida carioca que lotou o Maracanã no maior público da história do clássico: mais de 130 mil pessoas. Enfrentando Pelé estava um goleiro que, pela primeira vez, atuava no Maracanã: o goleiro argentino Andrada, que foi o grande nome dos argentinos no jogo. Sua ótima atuação despertou o interesse dos dirigentes vascaínos em contratá-lo, o que foi concretizado somente em 1969. Mas Pelé estava impossível neste dia, marcou 3 gols na vitória do Brasil por 5 a 2. Os argentinos tiveram que ouvir por mais de 5 minutos os gritos de “olé” pelos torcedores cariocas que incorporaram de vez este cântico mexicano.
O ano de 1963 foi um momento privilegiado e a batalha para implantar as Reformas de Base esteve em pauta durante o governo de João Goulart (1961-64). Defendidas por amplos setores populares, através de comícios, passeatas e manifestos que defendiam as mudanças. Entretanto, as mobilizações das camadas populares acabaram gerando intensa oposição de setores conservadores, com um desfecho terrível. O acirramento de contradições provocava uma sucessão de crises políticas, culminando com o Golpe Militar em 1964.
O clima quente no país chegou ao clube com a punição a Dulce Rosalina numa atitude que antecipava as cassações poíticas implementadas pela ditadura militar no ano seguinte com o Golpe de 1964. “REAÇÃO DA TORCIDA. A divulgação da punição de Dulce Rosalina, provocou tremenda reação dos associados e torcedores que tem procurado os dirigentes do Clube para interpelá-los sobre a medida, declarando de forma veemente seu descontentamento. Ainda ontem, o Vice Jaime Soares Alves foi procurado por um associado que fez ver ao dirigente que o protesto ouvido em São Januário,quando da derrota para o São Cristóvão não partira apenas de Dulce , mais sim de todos os verdadeiros Vascaínos, Jaiminho ouviu o protesto e prometeu interferir para evitar a punição que será discutida na primeira reunião de Diretoria” [3].
Em outra reportagem nota-se que o clima era de grande agitação provocando muita apreensão com o desfecho do problema: “o pedido de demissão apresentado pelo Técnico Jorge Vieira foi feito no próprio vestiário e o Vice Presidente de futebol, Jaime Soares Alves, tão logo aceitou, convocou o zagueiro Paulinho, a quem caberá substituir provisoriamente, Jorge Vieira. A apresentação será feita amanhã no Vasco (...) Os ânimos estiveram exaltados em São Januário, ontem, tanto que a torcedora Dulce Rosalina, cercada de companheiros da Torcida Cruzmaltina, quis interpelar o zagueiro Joel, ao final do jogo e este, perdendo a cabeça, quase a agrediu. Houve a interferência de terceiros, mas Dulce Rosalina, visivelmente traumatizada com a atitude do jogador, começou a percorrer as redações dos jornais, pedindo a cabeça da própria Diretoria do Clube....Torcedores, tendo a frente Dulce Rosalina, farão um abaixo-assinado pedindo a demissão de toda a Diretoria José da Silva Rocha, enquanto alguns Conselheiros do Clube pensam em interpelar aos atuais dirigentes a respeito da má campanha do Time no Campeonato da Cidade[4].
O problema se prolongou por vários dias com os envolvidos procurando intervir de acordo com seus interesses: “TORCIDA VASCAÍNA QUER RENUNCIA DE TODA DIRETORIA: Tendo a frente Dona Dulce Rosalina, a Torcida Organizada do Vasco fez, durante a noite de ontem, uma passeata de protesto, contra toda a Diretoria Cruz Maltina, o Técnico Jorge Vieira e o lateral direito Joel, este por ter ofendido os torcedores.Os torcedores Vascaínos também estiveram na Redação de UH, tendo todos mostrados seu descontentamento pela derrota ante o São Cristóvão. Como providências imediatas, a Torcida Vascaína quer a renúncia de toda a Diretoria do Clube, a contratação de um Técnico competente e a punição para o zagueiro Joel, que insultou a Chefe da Torcida, Dona Dulce Rosalina, e alguns associados. Aliás, conforme testemunho de vários associados, que também estiveram na Redação de UH, os próprios companheiros de Joel, como Canário, Humberto, Vevé, Décio e Ramos foram contra o lateral, explicando-lhe que os associados é que lhe pagavam”[5].
A divisão no clube pendeu para o lado dos dirigentes que afastam a torcedora apsesar do empenho da liderança em manter sua posição:”TORCIDA DO VASCO PODE ENTRAR DE GREVE: DULCE. A Torcida do Vasco da Gama poderá entrar de greve se ficar confirmada a punição que o Dirigente Eurico Lisboa pediu para ser imposta a Dulce Rosalina que, segundo o Dirigente, atacou o Clube em declarações proferidas a um Jornal da Cidade[6].VASCO SUSPENDE CHEFE DA TORCIDA: O Vasco resolveu suspender por 6 meses, proibindo sua entrada em todas as dependências do Clube, da Dulce Rosalina, Chefe da Torcida do Clube, que foi enquadrada no artigo 25 de seus Estatutos, por ter dado entrevista sobre a questão do Técnico, considerada inoportuna e desrespeitosa aos Dirigentes Vascaínos[7]. Na eleição para a presidencia do clube para o biênio 1964-65, Dulce faz  a campanha de Manoel Joaquim Lopes da Tradição Vascaínamas o Foi eleito é José da Silva Rocha, conhecido como Rochinha.
A politização do futebol se intensificou com o lançamento “Os Subterrâneos do Futebol” (1963), de João Saldanha. Na TV, era criada a “mais famosa mesa-redonda da televisão brasileira”: A Grande Resenha Facit, em 1963. O debate inteligente reunia personagens polêmicos e temas provocantes, comandado por Luiz Mendes. Entre os debatedores, Nelson Rodrigues, João Saldanha, Armando Nogueira, entre outros, faziam daquele programa esportivo “um programa obrigatório aos domingos para o torcedor carioca e eterno modelo para gerações futuras” (RIBEIRO, 2007, p.191). O jornalista Vitorino Vieira era o representante do Vasco no programa.
Segundo a "Revista do Esporte", principal publicação esportiva do país na década de 1960, Dulce Rosalina era capaz de gastar tudo o que tinha, sair de casa às 9h da manhã, debaixo de sol ou de chuva, para ir o mais longe que fosse "pelo prazer de torcer por seu Clube do coração”.  As vezes, saía dos jogos só com o dinheiro das passagens dela e dos filhos. O que tivera a mais pagara o coletivo e a entrada da turma do bolso furado. “Não recebo nenhuma ajuda do Vasco. Fazemos tudo e coração, porque somos vascaínos”, afirmou ela à "Revista do Esporte" Nº 237, 21 de Setembro de 1963. Por aquela época, ela tinha na Torcida Organizada colabores como Ivan Monteiro, Osvaldo da Silva, José Luis Farias, Raimundo Gadelha, Fernando Xavier, Fernando Uchoa, José Bezerra, Cartola e a ala feminina formada por Aída, Conceição, Ermelinda, Idalina e Madame Bastos e Norma Uchoa, principalmente.  
 No meio da Torcida, Dulce agitava ao som da Bandinha do Almirante, chefiada por Laerte Crema, que tomava conta do reco-reco e liderava a bateria, tocada, por Paulo e Zacarias. Monteiro cuidava dos pratos, Francisco da Rosa das maracás e o incrível Domingos Ramalho fazia o seu barulho, com um talo de mamona, enquanto Eli e Tião puxavam os gritos de “casaca, casaca”. Antes daquilo rolar, Tião ajudava Dulce a fazer painéis e bandeirinhas. “O reco-reco foi presente da Torcida do mexicano Toluca trazido pelo Humberto (Torgado, goleiro)”, contava Dulce.
O goleiro Humberto tinha simpatia de Dulce até mesmo para torcer para o Bangu contra o Vasco. O motivo do apoio da torcida vascaína era a campanha que os jogadores banguenses deram para Humberto na eleição do Sindicato dos Jogadores, além de impedir o campeonato do Flamengo caso o clube de Moça Bonita vencesse..
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] “Formou-se a lenda de que o Vasco era um cemitério de técnicos. De 1960 a 1969, o Vasco trocou de técnico nada menos do que 22 vezes. Durante este período, o único que permaneceu no cargo por duas temporadas foi Zezé Moreira, quando o Vasco conquistou seus únicos títulos significativos da década”. Cf. www.netvasco/mprais
[2] Fonte: Jornal Diário Carioca 04 de Julho de 1963.
[3] Fonte: Jornal Diário Carioca 28 de Agosto de 1963.
[4] Fonte: Jornal A Noite 16 de Setembro de 1963.
[5] Fonte: Jornal Última Hora 16 e 18 de Setembro de 1963.
[6] Fonte: Jornal A Noite 26 de Setembro de 1963
[7] Fonte: Jornal Correio da Manhã 02 de Outubro de 1963.

Vasco Jornal Última Hora 1963

Vasco Jornal Última Hora 1963


domingo, 8 de janeiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1962 A BANDA DO ALMIRANTE

                                                                                “Olé. Olé, Olé”
                                                                   Grito das torcidas

1962                       A Banda do Almirante


Nem mesmo a temática nacionalista presente em todo o período de redemocratização (1946-1964) entusiasmava os diversos setores organizados da sociedade de encararem o futebol como um campo mobilizador da mesma. Durante este período, predominou uma visão distanciada de muitos segmentos diante da capacidade afetiva que o futebol alimentava.  O futebol, para muitos, ainda era um assunto “sem grande importância”. Caberia aos partidos e sindicatos representar o que de mais avançado proporcionaria as mudanças.
Num momento em que o futebol europeu passava por mudanças com o crescimento de profissionalismo de seus dirigentes, no Brasil, predominavam estruturas arcaicas, levando ao continuísmo nos clubes de uma estrutura amadora que, porém, contrastava com o significativo aumento das arrecadações dos clubes e o fortalecimento econômico das entidades representativas (HELAL, 1997; AGOSTINO, 2002).
Conquistando a simpatia de sócios e torcedores, muitos dirigentes se aproveitavam da publicidade constante para se promoverem e se beneficiarem. Alguns fizeram longas carreiras dentro dos clubes e outros lucravam com sua rede de relações: “os dirigentes dos clubes, muitos deles ex-interventores de Vargas ou ligados diretamente a máquina burocrática do Estado, em geral brancos e pertencentes a elite, tinham terreno aberto  para suas ambições políticas” (FRANCO JUNIOR, 2007, p.86).
A rigor, até hoje a história oficial dos clubes é marcada por uma sucessão de nomes de presidentes, sendo poucas as referências sobre as dissensões e disputadas internas na política dos clubes. São raros os livros que mencionam, minimamente, a face oculta das brigas internas, dos candidatos e movimentos derrotados, de nomes que não chegaram ao poder nos clubes. A história dos clubes no Rio de Janeiro, mais independente e crítica, ainda está por se fazer.
No terreno do futebol, a vitória do Bicampeonato Mundial no Chile, em 1962, dava ao Brasil a hegemonia no futebol mundial. Ainda nesta época é possível identificar algumas mudanças que se operavam no interior das relações entre esporte-sociedade. Na imprensa e no mercado editorial, o cultivo do espírito crítico penetrava de forma tímida: obras da literatura esportiva começavam a tratar o futebol por um novo ângulo.
O ambiente conturbado no Vasco contrastava com a alegria da torcida brasileira com a conquista do torneio no Chile. Para a torcida vascaína o mais importante era conseguir um campeonato carioca: “Faixas, vaias, foguetes e crise de nervos. Fora do campo, muita coisa aconteceu ontem em São Januário e a crise na Diretoria Vascaína parece que não está ultrapassada, pois alguns dirigentes marcaram suas renúncias para hoje. Entretanto, várias surpresas estavam sendo aguardadas por aqueles que compareceram a São Januário, a começar pelo 0 x 0 frente ao Madureira. FAIXAS PEDINDO VOLTA A saída de Manoel Joaquim Lopes provocou algumas discussões entre os Vascaínos associados e torcedores. Os que não puderam participar das reuniões, que chamaríamos de cúpula, resolveram apelar para as faixas. “Queremos Manoel Joaquim Lopes” estava no meio da arquibancada, enquanto o ex Vice Presidente de futebol estava no meio dos associados.”[1].
Dois meses depois a torcida dava uma trégua na luta dos dirigentes e se voltava para reorganizar sua parte musical com a doença de Ramalho: “Idealizada pelos torcedores Laerte e Gadelha, contando com o pronto apoio de Dulce Rosalina, Domingos Ramalho e Fernando, surgirá domingo, incentivando os craques Vascaínos a Banda do Almirante, com pistões, clarinetes, chucalhos, reco recos. Músicos profissionais e amadores vão colaborar no empreendimento, que terá o prestigio de comparecimento em massa dos Vascaínos das três armas. A idéia surgiu quando Ramalho foi operado e proibido de tocar seu talo de mamona, para não desaparecer o toque da vitória. Dulce Rosalina pede aos torcedores que levem confetes e serpentinas, mas que deixem os fogos. A vaia aos craques do Vasco foi abolida e a iniciativa despertou o interesse dos próprios jogadores a ponto de Russo querer assinar na lista para a compra de instrumentos[2].
O crescimento da torcida do Botafogo e a formação da “Geração Garrincha”, foi a marca principal da época. Se o time do Botafogo era uma verdadeira seleção, a atração de Garrincha por si só fazia com que muitos torcedores de outros clubes fossem assistir aos jogos do Botafogo somente para apreciar o grande ponta-direita. Talvez apenas um outro jogador nos anos 1960 conseguiu fazer torcedores de outros clubes torcerem por ele: Pelé. O atacante do Santos fez do Maracanã seu palco principal e não foi a toa que o estádio entraria para a sua história pessoal em diversas ocasiões. Como o gol de placa marcado contra o Fluminense em 1961 e o 7 a 1 sobre o Flamengo, no mesmo ano.
Pelé e o Santos fizeram muito sucesso no futebol brasileiro nos anos 1960. Entretanto, como o Santos não possuía uma grande torcida (ainda estava nascendo a “Geração Pelé”), o clube optou por fazer jogos importantes no Maracanã (para evitar a torcida contra dos paulistas: Palmeiras, Corinthians e São Paulo) foi então chamado de “o time mais carioca” (Nelson Rodrigues). Para o escritor somente no Maracanã é que o Santos, empurrado pela torcida carioca podia exibir todo o seu potencial. Nos jogos dos campeonatos mundiais do Santos contra Milan e Benfica, a presença dos torcedores de todos os clubes cariocas com suas bandeiras e gritos de apoio, foram decisivos.
Enquanto Pelé vivia uma carreira em ascensão, Garrincha após 1963 enfrentaria sérios problemas físicos e enfrentaria até mesmo protesto dos torcedores acusando-o em sua vida particular, como o caso Elza Soares, de estar prejudicando o seu rendimento em campo. Para alguns torcedores do Botafogo, liderados pelo chefe de torcida Tarzan, Garrincha não deveria se comportar como vinha se comportando. Ruy Castro relata os problemas que Garrincha enfrentava: “A torcida organizada do Botafogo, chefiada pelo musculoso Octacílio Batista do Nascimento, “Tarzan”, começara a marcá-lo na pinta” (Castro, 1995, p. 275) mais adiante, Tarzan declarava sobre o pedido de aumento do jogador: “Quem Garrincha acha que é para valer tanto? É nisso que dá o Botafogo não o ter punido antes” (Castro, 1996, p.338).
 Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.
  


[1] Fonte: Jornal O Globo 13 de Agosto de 1962.
[2] Fonte: Jornal A Noite 10 de Setembro de 1962.

Vasco Jornal A Noite 1962

Vasco Jornal O Globo 1962


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1961 TORCEDORA Nº 1

                                                       “Felicidade, teu nome é Vasco”
                                                                  faixa da torcida

1961                             Torcedora N° 1

O sucesso da seleção brasileira se refletia em estádios cheios e em maiores investimentos dos meios de comunicação com o futebol. A partir de 1959 uma nova revista estava nas bancas: a “Revista do Esporte” fazia sua estréia em março daquele ano. Ela seria um sucesso nos anos seguintes e ocuparia a lacuna da Manchete Esportiva (1955-1959).
Nesta década o prestígio de Dulce Rosalina era tamanho, que numa eleição promovida pela própria Revista do Esporte (entre dezembro de 1959 e abril de 1960), ela derrotou Jayme de Carvalho do Flamengo e Eliza do Corinthians, ficando com o título de Torcedora nº 1 do Brasil.
Na mesma época a torcida do Vasco dava nova demonstração de sua força com a vitória na disputa promovida pelo jornal A Noite que lançou o desafio de trazer o Real Madrid ao Rio de Janeiro, pela primeira vez, para disputar um amistoso com o clube que desse mais votos no concurso lançado. O Vasco venceu com 30 mil votos, superando o segundo colocado, o Flamengo. A líder da torcida vascaína foi uma das maiores incentivadoras para promover a partida: “Dulce Rosalina, chefe da Torcida Organizada do Vasco, esteve ontem na redação de A Noite, onde declarou não temer nadinha o jogo com o Real, pois quando há perigo ela sente a derrota na alma e agora tem quase certeza (pode até jurar) que o Vasco vencerá o grande match”.
Este duelo está no livro “Jogos Memoráveis do Vasco”, resultado de uma minuciosa pesquisa para escolher as 30 mais importantes partidas do clube ao longo de toda a sua trajetória. O jogo levou uma verdadeira multidão ao Maracanã motivada com ingressos a preços populares em pedido feito pelos dirigentes vascaínos atendendo uma reivindicação de sua torcida: “até o amistoso com o Real Madrid, em 08 de Fevereiro de 1961, o maior público no Maracanã fora o de 16 de Julho, da final da Copa do Mundo: 199.854 presentes, dos quais 173.850 pagaram. Vieram, então, os merengues, 11 anos depois. Com a imprensa carioca badalando o encontro, os dois times iriam para o seu quarto duelo, um desempate, já que havia uma vitória para cada lado e uma igualdade. Era o "Jogo do Século", mesmo com o Vasco em quinto lugar no Campeonato Carioca. Para o torcedor, porém, o que importava era ver em ação o assombroso melhor time do planeta. Mais de 140 mil foram ao Estádio, dos quais 122.038 compraram ingresso, gerando o maior público de jogo de um clube sul-americano”[1].
A motivação da torcida vascaína implicava em trazer novidades. Até então o som das charangas, fogos e buzinas eram os sons característicos, além do talo de Ramalho, porém, lançou-se o recurso de uma maior aproximação com os sambistas trazendo vários instrumentos que davam uma sonoridade típica de uma agremiação carnavalesca para espanto de alguns jornalistas: “a torcida do Vasco da Gama apareceu no Maracanã, na noite do jogo com o Botafogo (18 de Março), organizada em Escola de Samba: surdos, taróis, pandeiros, tamborins, agogôs, caçarolas, reco-recos e coral. Enquanto não se definiu a derrota, aquela gente tocou samba, fazendo um barulho infernal que prejudicava a atenção do público e quero crer, o próprio trabalho do árbitro. Entende-se que na comemoração de um gol, por minutos, bate-se o bumbo nas arquibancadas, onde, por sinal, já nos enervam os foguetes mortais do Tarzan (Chefe da Torcida Organizada do Botafogo), as clarinetas do mamoeiro Ramalho, as buzinas dos flamenguistas e os sinos tricolores. Vá lá que no instante da grande emoção de um gol tudo isso aconteça, deve ser a alma do povo que se exprime por tais instrumentos. Mas sambar o jogo inteiro, tocando tambores infernais, taróis diabólicos, surdos demoníacos, isso é demais”[2].
A música brasileira estava em alta assim como a seleção brasileira que buscaria no ano seguinte a conquista do bicampeonato mundial. Com o sucesso da campanha para trazer o Real Madri, o jornal A Noite promove uma nova iniciativa envolvendo os torcedores, motivando vários torcedores-simbolos em uma nova disputa: “dizendo que sua maior vontade é ver o Brasil levantar o Campeonato Mundial de Santiago e estar presente com a sua mamona, no Chile, Domingos Ramalho, fervoroso torcedor do Vasco e que sacode o Maracanã e outros estádios com o som do talo que carrega, disse que já esta participando do concurso promovido por A Noite e Rádio Nacional e quer ser um dos 20 premiados, a fim de dirigir o grupo brasileiro, nos Andes, e ver de perto os jogos do nosso Scratch que, na vez passada na Suécia, não foi possível”[3].
No final do ano o jornalista Mario Filho, dono do Jornal dos Sports, também lança a sua campanha. Desta vez a disputa era saber “qual era o jogador mais querido no Rio de Janeiro”. Cada clube teve direito de indicar um jogador. Eis a lista: Bellini, pelo Vasco; Garrincha, pelo Botafogo; Castilho, pelo Fluminense e Babá, pelo Flamengo, foram os principais concorrentes. Durante sete semanas o jornal publicava um cupom diário para ser enviado pelos leitores correspondendo a 1 voto. Faltando poucas semanas para o resultado final e sabendo o resultado parcial favorável a Bellini (com mais de 20 mil votos de diferença), vários “figurões” do Botafogo se mobilizaram para comprar grandes quantidades de jornal e dar a vitória para Garrincha. O saldo final foi favorável ao atacante alvinegro com 300.247 votos contra 245.308 de Bellini (Castro, 1996, p.328).
Neste mesmo período ocorreria a disputa pela presidência do clube com dois candidatos disputando a preferência da ajuda dos torcedores mais conhecidos. De um lado ficava o ex-presidente da TOV, João de Lucca, apoiando a “Velha Guarda”, e Dulce e Ramalho com o candidato da chapa Tradição. A reportagem dá total apoio a De Lucca que ameaça: “Deixei a liderança a conselho médico, pois diversas vezes perdi o sentido em razão da agitação que as emoções de um jogo do Vasco me provocam, mas, se for preciso que volte para fazer retornar a torcida que nós criamos, com os mesmos objetivos, não teria dúvidas em sacrificar-me de novo, pois a causa vale, embora recorresse aos muitos valores novos que surgiram”. “Vi uma coisa que me deixou triste”, lembrou De Lucca, quando nossa Torcida se levantava até os adversários ficavam admirados, mas no outro dia aconteceu o contrário. Até Vascaínos deram vaia. Foi um jogo feminino, contra o Botafogo, quando nossos atletas precisavam de incentivo, Ramalho tocou seu instrumento (talo de mamona) e quando todos esperavam que desse o Casaca ou gritasse Vasco, fez propaganda da Tradição. Não é essa a finalidade da Torcida, e para que aquele acontecimento triste não se repita, faço um apelo a Dulce e ao Ramalho, não desvirtuem o sentido que criou nossa Torcida, e obedecendo ao lema “Com O Vasco Onde Estiver O Vasco”. Nunca pedi nada aos meus amigos para mim, mas para o Vasco eu peço, não deixem de comparecer ao Cineac, dia 14, para votar na Chapa da Velha Guarda, pois essas eleições são de grande importância para a vida do Vasco da Gama e podem significar a volta do Expresso da Vitória”[4]. Ao final da disputa venceu João da Silva Rocha da Chapa “Velha Guarda” com 3.104 votos contra 1.586 da Tradição. Esta foi a disputa que mobilizou mais sócios entre todos os clubes da cidade de todos os tempos. Um recorde de votantes!!!
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] Fonte: http://kikedabola.blogspot.com.br/2012/02/o-jogo-do-seculo-vasco-2-x-2-real.html
[2] Fonte: Fonte Jornal Diário Carioca 23 de Março de 1961.
[3] Fonte: Jornal A Noite 25 de Julho de 1961.
[4] Fonte: Jornal Diário Carioca 04 de Novembro de 1961

Vasco Revista do Esporte 1960

Vasco Jornal O Globo 1961


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1960 TÁ CHEGANDO A HORA

                                                                    “Vasco, o orgulho da Guanabara”
                                                                             faixa da torcida


1960                        Tá chegando a hora


Embora a “Era de Ouro” (1958-1970) no futebol brasileiro tenha sido marcada pela presença de muitos craques, os vencedores dos campeonatos cariocas em 1959 e 1960 eram formados por times sem grandes craques, sem as estrelas da seleção. Para alguns dirigentes a “era das grandes estrelas” estava chegando ao fim, o negócio era formar times com bons e baratos jogadores. O Botafogo não pensou assim e manteve praticamente quase todos os seus ídolos. Já o Vasco escolheu uma opção diferente: começava uma política de se desfazer aos poucos dos grandes ídolos. Para os dirigentes vascaínos, vender seria um grande negócio e o clube poderia continuar com sua trajetória de títulos. Primeiro venderam Almir (1960) para o Corinthians, depois foi a vez de Orlando Peçanha para o Boca Juniors (1960), em seguida seria Bellini (1961) para o São Paulo (sem esquecer de Vavá vendido logo depois da Copa de 1958 para o Atlético de Madri).
O mesmo destino teria o atacante vascaíno Delém. Grande destaque da seleção brasileira nos jogos contra os argentinos.  O jogador teve ótimas exibições contra os rivais na disputa pela 9ª Copa Roca. Ao todo ele marcou 4 gols em três jogos. O oportunismo do jogador acabou por despertar o interesse dos clubes platinos e logo seria negociado para o River Plate no ano seguinte.
Justamente os anos 1960 começaram com a surpreendente conquista do América do campeonato carioca de 1960, primeiro ano do Estado da Guanabara após a transferência da capital do país do Rio de Janeiro para Brasília. Era um título aguardado com muita ansiedade pela torcida rubra que não conquistava um campeonato desde 1935, ou seja, 25 anos atrás, quase na época do fim do amadorismo. Foi a vitória de um time que não contava nem com o apoio inicial dos próprios torcedores, descrentes com os insucessos nos anos 1950 com equipes consideradas favoritas.
Na final com o Fluminense, o palco foi o estádio do Maracanã que receberia naquele dia quase 100.000 pessoas, mesmo com a transmissão ao vivo pela TV. Dividindo as arquibancadas com o Fluminense, o América contou com a ajuda das outras torcidas cariocas. Vascaínos, flamenguistas e botafoguenses se uniram aos americanos e conseguiram ocupar a metade do estádio. Após a derrota, o tricolor Nelson Rodrigues explicava como o campo esportivo foi tomado pelos torcedores: “vejam vocês todos contra o Flu e o Flu sem ninguém. O América teve torcedor que não conhecia a cor da camisa americana. Um desses, ao começar o match, cutucou-me sôfrego, o olho rútilo: - Qual é o América? Qual é o América? Dei-lhe a informação. E ele pôs-se a torcer como um alucinado. É, ele pôs a torcer como um alucinado. No fim, o camarada lançou-se aos soluços, nos braços da pessoa mais próxima (...) Todo o potencial afetivo de uma cidade foi aplicado num único time (...) O América mereceu a ternura de toda uma cidade. Sujeitos que não conheciam o Maracanã, que não sabiam se a bola era redonda ou quadrada, torciam por ele. Foi, amigos, o América por nesse momento, o clube mais amado do Brasil” (VALLE, 2004, p.71).
De acordo com Fernando Valle, autor de alguns livros sobre a história do América, seu clube era o grêmio carioca que mais deixou de crescer sua torcida ao longo dos anos 1930, 1940 e 1950. Ao contrário dos outros clubes grandes que só aumentaram suas torcidas, o América foi ganhando o perfil de uma associação de classe média, da região de Grande Tijuca, um grêmio amado por todos (o segundo time do coração) mas alvo de constantes gozações. Os rivais diziam que o América “nadava, nadava e morria na praia”. Os adversários diziam que sua torcida cabia numa Kombi, formada por simpáticos torcedores como Lamartine Babo e Marques Rebelo, entre outros. Lamartine foi escolhido pelo clube como torcedor símbolo do América. No dia seguinte da conquista ele desfilou pelas principais ruas da cidade, em carro aberto, fantasiado de diabo (símbolo do clube), à frente de um extenso cordão de torcedores. (VALLE, 2004). O escritor Marques Rebelo, escreveria nesta época uma belíssima crônica sobre o título intitulada  “Poema de um coração rubro”, num trecho ele reafirma a importância da conquista como congraçamento das torcidas: “o delírio dos assistentes americanos, vascaínos, botafoguenses, rubro-negros, são-cristovenses, de todos enfim, pois era a efusão de uma cidade inteira que ali se representava (...) não sei como foram meus passos depois que a luta se encerrou, com cem mil bandeiras se agitando, bandeiras que não traziam as três inicias do América – eram bandeiras de todos os clubes cariocas, inclusive a do glorioso tricolor, vencido que se irmanava ao vencedor com ternura e respeito. (VALLE, op.cit, p.140)
Para o torcedor que freqüentava os estádios, a grande novidade na década de 1960 foi a popularização dos pequenos rádios de pilha que se tornaram fiéis acompanhantes dos torcedores. Nas emissoras cariocas a disputa por anunciantes e audiência provocava uma corrida por novidades: “comentaristas de arbitragens, pontos atrás das metas, reporteres-volantes (...) tudo aquilo que compõe hoje (...) o rádio esportivo começou ali” (Máximo, 1996, p.52). A disputa acirrada era entre os principais narradores: Oduvaldo Cozzi pela Mayrink Veiga, Valdir Amaral pela Radio Globo e Jorge Curi pela Nacional que apresentava João Saldanha estreando nos microfones.
Durante os anos 1960 as torcidas jamais deixaram de cantar ainda mais quando a vitória estivesse próxima ou, melhor ainda, quando o título fosse uma questão de tempo. A música mais ouvida nesta época era “Está Chegando a Hora”[1]. O relógio se aproximando dos minutos finais e a torcida vencedora gozando a adversária: “Ai, ai, ai ... tá chegando a hora!” Para o cronista Armando Nogueira, é neste momento que o torcedor se vinga de uma semana de aborrecimentos e poucas realizações. E pela catarse das massas que o futebol vai dar sentido profundo de superação do dia a dia: “dentro dele (Maracanã), o carioca do povo canta, no domingo, as vitórias que lá fora a vida talvez lhe negue a semana inteira” (1973, p.168).
Ao criar fortes vínculos afetivos, tanto a música quanto o futebol, souberam expressar e dramatizar aspectos básicos da cultura nacional e da vida dos torcedores: “música popular e futebol tem muitos aspectos comuns, que aproximam os dois como elementos da cultura brasileira. Em ambos predomina a espontaneidade, a criatividade e a improvisação e em ambos a arte subordina a técnica. São instituições fortemente identificadas entre si” (MURAD, 1996, p.172).
Com a popularização do futebol, do rádio e do disco é que essa relação se consolidou. A partir daí, Noel Rosa, Ary Barroso, Ciro Monteiro, entre outros, se aproximavam cada vez mais do universo esportivo. Lamartine Babo, por exemplo, além de ser um grande compositor popular, criador de inúmeras marchinhas de sucesso, soube como ninguém realizar isto através dos novos hinos dos clubes criados por ele, recheado de expressões populares, dos sentimentos dos torcedores das arquibancadas. Logo, logo, junto com as marchinhas de carnaval, as torcidas entoaram seus novos hinos nos estádios, principalmente no Maracanã.
Ao inventar um instrumento de sopro (talo de mamona) o som produzido pelo vascaíno Ramalho entrou no gosto dos torcedores e estes já sabiam quando  o torcedor-músico estava nas arquibancadas. Para Mario Filho (1994, p.126), Ramalho conseguiu manter sua individualidade, num lugar (Maracanã) que “apagava” as pessoas com o som da massa: “o Maracanã teve isso de ruim acabou com a figura humana (...) para gritar ele tem que unir a própria voz a dos outros, senão ninguém escuta (...) o Maracanã aniquilou o torcedor como individuo, que o pluralizou, tornando-o em multidão”.
Juntos, torcedores organizados ou não, faziam dos jogos uma festa popular que encantava jogadores e o grande público. “O futebol levou a música para as arquibancadas, compondo a interação entre torcedores e destes com os jogadores, através de um sistema de comunicação muito  singular, formado por cânticos e ritmos”(MURAD, op.cit., p.173). Da mesma forma o antropólogo Luiz Henrique Toledo (1996, p.155) apreende a marca registrada das canções nas arquibancadas: “a música, enquanto elemento de expressão e comunicação, é parte fundamental da maneira pela qual o torcedor apreende e vivencia o futebol”.
Acompanhando o Botafogo em nas constantes viagens pelo exterior, o comentarista esportivo João Saldanha comparou a torcida mexicana com a carioca "é muito alegre um jogo no México. É o país em que a torcida mais se parece com a do Rio de Janeiro. Barulhenta, participa de todos os lances da partida" (in PEDROSA, 1967, p.174). E ainda cita a presença de músicos que animam os jogos ou os jogadores com instrumentos típicos daquele país. Contudo, o que mais marcou foi a invenção do grito de “olé”. Garrincha, nesta excursão do Botafogo, daria uma exibição que provocaria uma reação de profundo entusiasmo na torcida mexicana criando espontaneamente o grito de olé. Naquele dia que surgiu a gíria do “olé", tão utilizada posteriormente no Brasil.
Enquanto nesse tempo Garrincha encantava os torcedores de todo o mundo, um outro clube carioca dava vexames internacionais por onde passava. Em sua excursão pela Europa, o Flamengo era fragorosamente derrotado pela seleção da Bulgária por 6 a 0. Mais a vergonha maior estava a caminho. Jogando contra o “poderoso” clube da Escócia, Motherwell, uma nova goleada: 9 a 2. Uma pena que os búlgaros e escoceses não conhecessem o “olé” dos mexicanos.
            No ano seguinte a torcida carioca pode entoar o “olé” no jogo entre Santos e Flamengo. Jogando no Maracanã pelo Torneio Rio-São Paulo, Pelé comanda um massacre ao derrotar os rubro-negros pelo placar de 7 a 1. Adotado pelos cariocas, o time do Santos sempre recebia a contribuição dos torcedores cariocas em seus jogos. Sem dúvida, milhares de vascaínos puderam encarnar nos rivais gritando o “olé” e cantar ao final da partida “lá, lá , laiá, esta chegando a hora”...
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Uma marchinha de Rubens Campos e Henricão de 1942., Cf (HOLLANDA, 2004).

Vasco Jornal Diário Carioca 1960

Vasco Jornal O Globo 1960

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

FORÇA JOVEM E TOV 1982: FOGUEIRINHAS NO MARACANÃ

Como as Torcidas Organizadas levavam muito papel era comum no fim dos jogos torcedores juntarem esses papeis e colocar fogo em plena arquibancada.
“A ASTORJ se pronunciou pela coluna, muitas vezes, no intuito de garantir a segurança dos torcedores no estádio. Prova disso são os constantes pedidos para que as torcidas não utilizassem fogos de artifício nas partidas, tampouco fizessem “fogueirinhas”.
Era comum que a entrada dos times no gramado fosse recepcionada por rolos de papel higiênico, fazendo um espetáculo visualmente bonito. Contudo, após os jogos, torcedores que permaneciam na arquibancada queimavam os restos desse papel e, em alguns momentos, acabavam provocando queimaduras.”
Fonte: Jornal dos Sports 04 de Setembro de 1982 e TEIXEIRA, Leonardo Antônio de Carvalho. “Congregar, Congraçar e Unir: a atuação da Associação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (1981-1989)”. 2014. 116 f. Dissertação (Mestrado em História Social) - Faculdade de Formação de Professores de São Gonçalo, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2014.

APELO DE ELI MENDES
Eli, da Força Jovem do Vasco pede aos Vascaínos que forem hoje ao Maracanã para evitar as fogueirinhas de depois dos jogos, pois isso, além de ser perigoso em si, costuma provocar brigas entre torcedores.
Fonte: Jornal dos Sports 15 de Junho de 1982

Força Jovem 1982

TOV Maracanã 1982

Força Jovem Jornal dos Sports 1982

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1959 SUPER-SUPER VASCO


                                                                “Felicidade, seu nome é Vasco”
                                                                            faixa da torcida

1959                    Super-Super Vasco

Para o último jogo das finais do campeonato carioca de 1958 disputada em janeiro de 1959 entre Vasco e Flamengo, o esquema de segurança era gigantesco. Segundo a revista Manchete Esportiva foram mobilizados 60 guardas municipais, 300 PMs  e 2 choques da PE (com 32 cada) mas não foram registrados muitos confrontos entre os torcedores, o maior problema, apontado pela  revista, era o grande número de cambistas, acobertados pelos policiais. Apesar da transmissão ao vivo pela TV para a própria cidade, sem aviso prévio, o público da final foi um dos maiores da história do clássico que, segundo Roberto Assaf, foi na década de 1950 que surgiu a expressão “Clássico dos Milhões”, para as partidas entre Flamengo e Vasco.
A comemoração do título após o jogo e durante a semana ganhou grande repercussão na imprensa que deu ênfase as carreatas promovidas pelos vascaínos que tomaram a cidade de alegria:
“DO MARACANÃ A SÃO JANUÁRIO, A TORCIDA FESTEJOU O TÍTULO
Verdadeiro Carnaval no trajeto da vitória, Valdemar fez o percurso a pé e uniformizado, Tráfego interrompido nas imediações do Estádio do Vasco, Coronel de cabeça raspada .....
Mais de duas horas depois de terminado o encontro, foi que os cruzmaltinos conseguiram deixar o Estádio do Maracanã. A saída do maior do mundo, grande multidão de torcedores se acotovelava, aguardando o momento de ovacionar, de perto os heróis da grande jornada. Escolas de Samba, casacas, enfim, um verdadeiro carnaval, com serpentinas e confete, era o que se via nas imediações do Maracanã.
TORCEDORES INVADEM A CAMIONETA
O delírio chegou ao auge, quando a camioneta que conduzia os campeões começou a movimentar-se, procurando abrir caminho entre os torcedores. Ai, então, o espetáculo foi indescritível. Torcedores mais entusiasmados dependuravam-se no veículo, procurando tocar nos seus ídolos. Alguns deles, mesmo, chegaram, não sabemos como, a alcançar o teto da camioneta.
O TRAJETO DA VITÓRIA
Em todo o percurso do Maracanã a São Januário, ouvia-se os gritos de Vasco! Vasco!. Torcedores apareciam as portas dos bares, garrafas em punho, para saudar a passagem dos campeões. Outros se acotovelavam no meio fio das calçadas e a aproximação da camioneta cruzmaltina, atiravam-se a sua frente. Foguetes espoucavam no ar e ao som dos tamborins, homens, mulheres e crianças cantavam no ritmo quente do samba, a grande vitória cruzmaltina. O tráfego ficou totalmente interrompido na Rua São Luís Gonzaga, pois os guardas eram poucos para conter o entusiasmo dos torcedores. Também dos ônibus e lotações vinham os casacas. Um grande cortejo de carros e caminhões era improvisado, rumo a São Januário.
CARNAVAL EM SÃO JANUÁRIO
Tudo o que se pode observar durante o trajeto dos campeões foi pouco em relação ao que se viu nas imediações do Estádio do Vasco. Assim, as Ruas General Almério Moura, Ricardo Machado, Dom Carlos e Bonfim foram tomadas pela massa de torcedores. Nenhum carro conseguia romper a barreira humana e o carnaval se prolongou madrugada adentro. Somente as 4 horas da manhã os jogadores chegaram ao Estádio, debaixo de uma ovação tremenda.
OS PORTÕES NÃO FORAM ABERTOS
Os torcedores aguardavam, impacientes a abertura dos portões do Estádio, a fim de que pudessem comemorar, em pleno gramado, a sensacional vitória. Entretanto, como os portões permaneceram fechados, tiveram mesmo de se contentar com o carnaval de rua, o que não chegou a arrefecer o grande entusiasmo dos cruzmaltinos” [1].
.         Depois da conquista, dirigentes e torcedores organizam uma nova festa promovendo uma carreata que chegou ao centro da cidade no mesmo clima carnavalesco do dia do campeonato. Desta vez o estádio de São Januário foi aberto para os torcedores comemorarem o título em sua casa:
“COM UM DESFILE DE MAIS DE 3 HORAS, OS VASCAÍNOS COMEMORAM O TÍTULO DE 1958
Rei Momo presente a Festa do Vasco - Depois do Cortejo, a batalha de confetes em São Januário – Carros, Jipes e Caminhões, percorram as Ruas da Cidade, debaixo de chuvas e de aplausos.
Com um brilhantismo incomum, a Torcida do Vasco da Gama festejou, sábado último, pelas ruas da Cidade, a conquista do Super-Supercampeonato de 1958. O cortejo, formado por vários carros alegóricos, caminhões, carros de passeio e jipes, deixou o Estádio de São Januário as 13 horas.
O TRAJETO
Seguindo pela Rua General Almério Moura, os veículos ganharam a Av. Brasil, seguindo pela Av. Rodrigues Alves, Praça Mauá, Rua Acre, Rua Uruguaiana, Largo da Carioca, Rua Almirante Barroso, Avenida Rio Branco, Cinelândia, Praça Paris, Lapa, Santa Luzia, México, Av. Nilo Peçanha, Av. Rio Branco. Presidente Vargas, retornando ao ponto de partida.
VERDADEIRO CARNAVAL
Durante todo o trajeto, o povo aplaudia a passagem dos Vascaínos com foguetes, confetes e serpentinas, em verdadeiro carnaval pelas ruas da Cidade. Rei Momo abria o cortejo da vitória, num bonito carro alegórico, seguido pelo carro que



[1] Fonte: Jornal O Globo 19 de Janeiro de 1959.

Vasco Revista Careta 1959

Vasco Jornal Estado de São Paulo 1959

domingo, 18 de dezembro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1958 BELLINI LEVANTA A TAÇA

                                                                                “A Taça do Mundo é nossa”
                                                                                             Marchinha de 1958


1958                    Bellini levanta a Taça

O campeonato carioca de 1958 estava marcado para começar depois da Copa do Mundo na Suécia. Por isso a maior preocupação dos torcedores vascaínos no primeiro semestre era acompanhar a convocação da seleção. A alegria em São Januário foi imensa com a convocação de três jogadores no dia 31 de março: Bellini, Orlando e Vavá.
Nesta época as atenções ainda estavam voltadas para as rádios que transmitiam as partidas para o Brasil (a TV brasileira ainda mostrava as partidas da Europa). Com a torcida se reunindo em locais públicos, vibrando e se emocionando com a seleção. O torcedor número um do Brasil foi o Presidente da Republica JK, que fazia questão de torcer junto de convidados, ao lado de um imenso rádio. Neste mundial, o futebol finalmente consegue dar ao povo brasileiro a maior alegria com uma conquista internacional de forma incontestável. Todo o país vibrava com a narração dos locutores de rádio, o poeta vascaíno Ferreira Gullar, se espantava com sua atitude tão apaixonada: “sem saber como nem porque, vi-me de repente de ouvido grudado ao rádio, submetido a uma tortura diabólica “. E narra porque estranhava sua atitude “confesso que há muitos anos o futebol deixara de me interessar. A derrota de 1950 no Maracanã (...) tornou-me um descrente do nosso futebol. Em 1954, ouvi por acaso alguns jogos, e a Hungria confirmou meu pessimismo (...) é por isso que não consigo acreditar que somos mesmo campeões do mundo”. Constatado o resultado, o poeta se incorpora aos vencedores e adere a folia em ”um domingo de felicidade nacional e a euforia com que todos acordaram esta semana para recomeçar a vida. A cidade hoje vai parar para abraçar os seus heróis.”
Em plena Copa do Mundo a TOV organiza um baile no Clube Municipal com orquestra de Raul de Barros, reunindo astros do rádio e da televisão, refletindo como a competição fazia todos quererem se encontrar para comentar os jogos e garantir a confraternização por todo o mês.
            Se aqui no Brasil a torcida comemorou como nunca, fazendo verdadeiros carnavais após as partidas, nos estádios suecos, a torcida brasileira, foi comandada por Cristiano Lacorte, torcedor do Botafogo, paraplégico, que tornou-se uma figura tão popular que no mesmo ano acabou se elegendo vereador pela  cidade do Rio de Janeiro.
Na volta para o Brasil, os jogadores tiveram direito de passeio no carro do Corpo de Bombeiros após desembarque da delegação no Brasil. Com as ruas cheias, os jogadores comemoravam com os populares até o Palácio do Catete onde seriam recebidos pelo presidente JK. Era a recuperação do sentimento de auto-estima do brasileiro.
Foi o reconhecimento internacional e a conquista do campeonato de 1958 que ajudaram a fazer dos jogadores, ídolos nacionais de primeira grandeza. Este é um dado importante no processo de popularização do futebol. A partir daí, o Maracanã ficaria pequeno para receber os campeões do mundo. Como todos os jogadores atuavam no Brasil, as competições regionais eram a grande atração do segundo semestre daquele ano, com partidas que lotavam o “maior do mundo”.
Duas semanas depois da conquista na Suécia começava o campeonato carioca com transmissão direta da TV, pela primeira vez, apesar da oposição dos dirigentes. Seria uma competição de encher os olhos, pois Vasco, Botafogo e Flamengo forneceram vários jogadores para a seleção e agora o público carioca teria seus ídolos de volta como os melhores do mundo. Não é pó acaso que o campeonato de 1958 é apontado como um dos melhores de todos os tempos. Terminando com a disputa dos três times em equilíbrio de forças na final duas etapas decisivas, chamada de Super-super[1]. Era a primeira no Maracanã, que Vasco e Flamengo, detentores das maiores torcidas disputavam uma final.
A torcida vascaína ainda vivia uma indefinição (pelo menos para a imprensa) de qual o seu líder e onde ficariam os sócios: “a Torcida Social do Vasco, um novo grupo que surge em São Januário, nos moldes das grandes Torcidas norte-americanas, destinado a incentivar o quadro de futebol ao longo do certame da Cidade (...) constituída exclusivamente de associados do Clube e que se singularizará por um detalhe, o grupo ficará sempre na parte Social sendo que no Maracanã ficará localizada atrás do gol, nas cadeiras cativas, local destinado aos associados dos Clubes que mandam o jogo no maior Estádio do Mundo. Os torcedores usarão um boné, mas não levaria charanga, devendo conduzir no painel com dizeres alusivos, estréia amanhã a noite, em São Januário, sendo aguardada com vivo interesse, já que representaria incentivo a mais ao esquadrão cruzmaltino, que tão bem iniciou o campeonato de 1958” [2].
No primeiro Vasco e Flamengo a imprensa promoveu a tradicional disputa entre as duas torcidas. Cada clube apresentava os seus líderes. No Vasco junto com o conhecido Ramalho, aparece uma “nova liderança” de cartola. Um símbolo da torcida do Fluminense. O torcedor português, conhecido como Cartola (João Martins) pretende ser chamado, a partir daquele momento, de Casaca, traje que usava junto da cartola.
Em outra reportagem Cartola ou Casaca explica mais alguns detalhes das mudanças que ocorriam na torcida vascaína, destacando um personagem pouco conhecido e que era o responsável pela bateria da torcida: “Agora estamos com um grande plano de unificar a Torcida. A da parte Social vai acabar, fazendo a fusão com a da arquibancada. Estamos pensando até numa Sede. A Sede do torcedor Vascaíno. Álvaro Ramos, nosso patrono, os dirigentes da Diretoria atual e da passada prestigiam a iniciativa e temos certeza que conseguiremos apresentar novidades. Agora quando ele chegar ao Maracanã o Eli, Chefe do batuque, vai comandar os casacas para o Casaca”[3].
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] SUPERCAMPEONATO 20.12.1958 Vasco 2 x 0 Flamengo  - 03.01.1959 Vasco 0 x 1 Botafogo  SUPER-SUPERCAMPEONATO 10.01.1959 Vasco 2 x 1 Botafogo - 17.01.1959 Vasco 1 x 1 Flamengo. Fonte: Site oficial do Vasco
[2] Fonte: Jornal Diário da Noite 24 de Julho de 1958.
[3] Fonte: Jornal Diário da Noite 19 de Setembro de 1958. Ely é descrito por Casaca como “ um criolo alto e forte que comanda o samba. Há oito anos acompanha a Torcida do Vasco e é um dos administradores.”

 
Vasco Jornal Diário da Noite 1958

Vasco Jornal Extra 2013