“Um, dois,
três, Botafogo é freguês”.
Coro tradicional
1975 Na Cadência do Samba
O sonho de toda torcida organizada é crescer e se
tornar eterna como é o próprio clube, mas nem sempre isso é possível, pelo
contrário, ao longo dos anos, o que mais aconteceu nas arquibancadas do
Maracanã e de São Januário nos anos 1970, foi o nascimento e morte de inúmeras
torcidas.
A crise na Força Jovem no final de 1974 teve como
reflexo imediato a saída de muitos integrantes e várias lideranças. Muitos
abandonaram definitivamente as organizadas mas outros fundaram novas torcidas,
como a Exorci-Vasco, fundado por Valfrido, um dos principais líderes da Força
Jovem, responsável pela bateria. Logo em janeiro de 1975 ele anunciava nos
jornais: “você, que gosta de curtir uma boa, tomando sua cerveja nos intervalos
de jogos e vibrando sob a bateria incrementada daqueles que sabem das coisas,
venha fazer parte da Exorci-Vasco, a nova Torcida, que terá o comando de
Valfrido, que vai sacudir o Mário Filho em dias de jogos do Vascão, segurando a
ferradura do estádio e levando a alegria a todos”.
Outra torcida que surgiu neste período e que se tornou
tradicional foi a Pequenos Vascaínos fundada em 20 de Agosto de 1975. “A
Torcida foi criada pelo meu pai, Jorge Macedo, no quintal da minha casa, na Rua
Carlina, nº 93 Olaria e um amigo, sr. Cláudio e seus filhos adolescentes, Jorge
e Lúcio, disse Valéria Macedo, filha do Fundador Jorge Macedo. Desde esta
época, adota como lema: “VAMOS TORCER SEM VIOLÊNCIA”. Em 1979 assumia o comando
Zeca, que ficou por muitos anos liderando.
A temática da violência já dominava a preocupação das
principais lideranças apesar da imprensa não acompanhar o problema com mais
atenção. Em maio uma iniciativa da torcida Flachop promovia um torneio de
futebol de salão no clube Milionários em Pilares. Entre os participantes
estavam a Força Jovem do Vasco, a Young Flu do Fluminense, a Flachopp do
Flamengo e a Torcida Jovem do Botafogo.
Os conflitos maiores entre as torcidas continuavam nos
jogos entre os clubes fora do Rio de Janeiro. Na sua estreia na Libertadores,
os vascaínos sofrem na partida contra o Cruzeiro no Mineirão. Um torcedor
denuncia na coluna de cartas do Jornal
dos Sports a tensão da partida:
“depois de ter assistido ao jogo entre Vasco e Cruzeiro, tive o desprazer de
ver aquilo que um torcedor brasileiro não deve fazer nunca. No final da partida
houve de tudo, meus caros. O comportamento dos torcedores foi lamentável (...)
Infelizmente o que se passou foi uma lástima, pois eu mesmo tive que vir de
carona, pois meu ônibus foi completamente danificado. Isso para não falar dos
torcedores que ficaram em situação pior”. Já pelo campeonato brasileiro em 1975
uma outra carta relatava a forma amistosa com que os vascaínos eram recebidos
no Paraná e registrava a paz selada entre vascaínos e cruzeirenses no mesmo
ano. O que demonstrava a capacidade das torcidas organizadas ainda negociarem
acordos de pacificação e reconhecer que o problema maior da violência em meados
doa anos 1970 estava entre os torcedores não-organizados de cada estado que
faziam do bairrismo, o seu sentimento principal: “a Torcida Força Jovem do
Vasco tem o prazer de agradecer ao simpático povo curitibano e em particular à
Torcida do Coritiba MUC (Movimento Unido Coritibano), pela maneira simpática e
carinhosa como recebeu os integrantes da caravana da ‘Forja’, uma verdadeira
lição de desportividade e hospitalidade. Daqui, só podemos dizer aos colegas de
Curitiba que não vamos esquecer o carinho de vocês e apenas aguardaremos a
oportunidade para retribuirmos. O mesmo aconteceu em BH, na quarta-feira,
quando a Torcida Jovem do Cruzeiro apagou toda aquela mancha deixada por uma
minoria irresponsável, na última vez em que estivemos em Belo Horizonte”.
O crescimento e o fortalecimento das Escolas de Samba
do Rio de Janeiro nos anos 1970 foi acompanhado do aumento da participação dos
torcedores organizados junto as agremiações carnavalescas. A medida que as
principais torcidas utilizavam instrumentos de percussão para animar as
partidas foi natural que os torcedores se integrassem nas escolas e vice-versa.
Reconhecido como um clube adorado por muitos
sambistas, o Vasco da Gama podia se orgulhar de ser o preferido no mundo do
samba, de que seus ilustres sambistas faziam questão de manifestar seu amor
pelo Almirante. Dentre eles, podemos destacar Jamelão, Aldir Blanc, Guinga,
Nelson Sargento, Martinho da Vila e Paulinho da Viola que liderados pelo
jornalista Sérgio Cabral, sempre pontuavam a relação entre o seu clube de
origem popular e o ritmo musical consagrado pelos cariocas.
Nesta época ocorreu a popularização dos sambas enredos
que logo viravam hits nas arquibancadas, o melhor exemplo era a música
“Domingo” da União da Ilha do Governador de 1976. Já nos festejos de 1970 a torcida
contava com o apoio da bateria da Mangueira, escola que meia Alcir freqüentava. Foi assim com a Vila
Isabel em 1975, com a Portela, o Salgueiro, enfim, foi se consolidando esta
aproximação entre torcedores e sambistas.
O próprio clube de São Januário soube explorar este
filão com o concorrido Baile do Almirante, sucesso nos carnavais da década de 1970 e 80. Traçando um
paralelo entre o Vasco e o Flamengo, o jornalista Sérgio Cabral compara a
diferença entre um carnaval de caráter popular e outro com traços elitistas:
“pega o carnaval do Vasco em São Januário, aquele imenso salão com 12,15 mil
pessoas gente de Vaz Lobo, Penha, Madureira. O Flamengo era o baile ‘Vermelho e
Preto’, era uma coisa assim, chique”.
Na década de 1970 o mercado editorial registra uma
ampliação de livros cuja temática eram os relatos das memórias dos
protagonistas da História, se tornando o grande filão de venda de livros da
época que viveu uma expansão de vendas em função da crescente ampliação da
classe média e do aumento do nível de escolaridade da população brasileira.
Em 1975 era lançado o livro de José da Silva Rocha,
ex-presidente do clube e uma memória viva dos primeiros anos. Rochinha, como
era conhecido foi um ex-atleta de vários esportes do Vasco nos anos 1910 e
1920. Trabalhou muitos anos na imprensa esportiva e resolve fazer esta grande
obra de caráter histórico e memorialístico. O livro é o primeiro volume que vai
de 1898 até 1923. Porém, os outros volumes não foram escritos.
Fonte: Livro “100 anos da
Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.
Vasco Jornal do Vasco 1975 |
Vasco 1975 |
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