domingo, 23 de outubro de 2016

VASCO 2016: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1942 A LEGIÃO DA VITÓRIA

      “OLYMPIO PIO. VASCAÍNO CAPAZ DE TODO E QUALQUER SACRIFÍCIO PELO VASCO”
            Manchete do Jornal

1942                       A  Legião da Vitória

            As sementes da primeira torcida organizada (uniformizada) no Rio de Janeiro surgiram no início de 1942 quando um grupo de vascaínos, motivados com a eleição de Ciro Aranha no final de 1941, passou a se reunir e formar um conjunto permanente de apoio incondicional ao elenco vascaíno, surgia “A Legião da Vitória”. Uma iniciativa que acompanhava o movimento semelhante de aglutinação dos sócios dos clubes já efetuada em São Paulo destinada a atuar em diferentes modalidades esportivas criando hinos e canções de incentivo. “A “Legião da Vitória” será formada nos moldes das Organizadas congêneres dos Estados Unidos, com hinos e cânticos desportivos próprios. Os membros da “Legião da Vitória”, além de muitos requisitos, deverão demostrar elevada educação esportiva e respeito ao adversário, vencido ou vencedor. Em cada setor da Cidade haverá um Chefe responsável pelos seus elementos. O Comitê Central será composto de três membros escolhidos entre os Vascaínos mais entusiastas e delegado ao Clube. A “Legião da Vitória” não acarretará a mínima despesa ao Clube e se comprometerá a animar todos os defensores do grêmio da Cruz de Malta, mesmo nas situações mais críticas” [1].
            No dia seguinte, outra matéria no Jornal dos Sports dava mais detalhes da origem do gupo que remonta as caravanas organizadas pelos torcedores: “é uma ideia que desde já pode ser considerada vitoriosa, se levarmos em conta o sucesso alcançado pelas caravanas esportivas organizadas no último campeonato pelo rapazes alegres do Vasco da Gama. A Legião da Vitória terá o condão de reunir fraternalmente todos os Vascaínos, proporcionando-lhes ao mesmo tempo horas de intensa alegria. As partidas de futebol, regatas e outras disputas esportivas, terão muito mais importância, quando os legionários Vascaínos, com umas canções e afinados conjuntos musicais alegrarem as praças de esportes da cidade. Tudo isso será feito dentro de um ambiente de disciplina e respeito, afim de que o elemento feminino possa tomar parte nas caravanas da Legião”.
            Durante todo o ano e, especialmente em partidas de maior apelo e na Zona Sul da Cidade, a organização dos torcedores é definida, com suas tarefas  delimitadas e a caracterização da logística para levar os torcedores juntos aos estádios partindo do Centro, local da sede do clube: “CARAVANA MONSTRO PARA ESTIMULAR O VASCO: Organiza-se para domingo uma grande caravana de Vascaínos para assistir a tradicional peleja entre Vasco e Flamengo. Para isso, uma comissão, composta dos associados Olympio Pio, João de Lucca, Waldemar de Oliveira, João Maquiem e Américo Cabral, que faz um apelo a todo o quadro social do Vasco para que procurem com o Sr. Edgard Freitas, na secretaria do Clube, a Avenida Rio Branco, os cartões que darão direito a viagem em ônibus especial e entrada na arquibancada do campo do Flamengo, até 6ª feira próxima. O local da partida será da Rua Uruguaiana, esquina de Carioca, as 12.30 horas” [2].
            Enquanto o campeonato carioca prosseguia, a maior preocupação dos brasileiros se concentrava nas notícias vinda da Europa em função do conflito mundial e da expectativa do Brasil declarar guerra ao Eixo.
A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial aconteceu somente no final de agosto. Antes, entre os meses de junho e agosto, acontecem várias mobilizações nas cidades, em função dos seguidos torpedeamentos dos navios alemães sobre embarcações brasileiras. A primeira  grande concentração de pessoas ocorreu na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, em julho de 1942, em que milhares de estudantes atenderam ao apelo da União Nacional dos Estudantes (UNE) e foram para as ruas se manifestarem. Era o primeiro foco de tensão entre a UNE e o Governo Vargas, com a passeata no dia quatro de julho, que se tornou um marco no movimento estudantil (ARAÚJO, 2007), culminando na demissão do Chefe da Polícia, Filinto Muller, contrário à manifestação, que teve o apoio favorável do Ministro da Justiça, Vasco da Cunha. Na época, durante a passeata, muitos gritavam: “Vasco 1 a 0” (SANDER, 2004).
            Em setembro de 1942, depois de declarar guerra ao Eixo, o país estava se mobilizando para o Conflito Mundial. Seguindo o clima de intenso nacionalismo, o Jornal dos Sports iniciou uma forte campanha pela realização de um jogo da seleção carioca contra a seleção de platinos que atuavam no futebol carioca para ajudar as famílias das vítimas dos ataques. A campanha contava com a adesão de intelectuais (como José Lins do Rego), presidentes de clubes (como, por exemplo, o presidente do Fluminense, Marcos de Mendonça), jogadores, jornalistas etc. Na mesma época, o Vasco anuncia todo apoio ao Movimento Nacional de Defesa da Pátria[3]. Pouco tempo depois,  em outubro, para demonstrar a força de mobilização do clube, os sócios do Vasco lideram uma campanha reunindo 70 listas subscritas com um total não inferior a um conto de réis, que seriam destinadas a compra de um avião a ser doado para o governo. Outras iniciativas mobilizam os outros clubes. O Flamengo promove um jantar dançante para arrecadar fundos e o América convida os associados para uma Grande Festa Cívica, com a presença do Ministro da Educação, Gustavo Capanema. Em São Paulo, o Palestra se transforma no Palmeiras.
O Flamengo ganharia o campeonato carioca de 1942, em outubro, ao empatar em 1 a 1 com o Fluminense, nas Laranjeiras. Este jogo ficou famoso como a data de fundação da primeira torcida organizada no Rio de Janeiro: a Charanga rubro-negra[4]. No entanto, os jornais consultados não fazem nenhum registro desse fato durante essa época. Cabe ressaltar que as figuras de Jaime de Carvalho e Manuel da Silva, já eram conhecidas pelos torcedores como chefes de torcida, embora outros clubes também tivessem seus próprios chefes de torcida[5], reconhecidos pelos seguidores de cada clube.
Não se trata de afirmar uma “nova verdade histórica”, mas de levantar algumas questões que possam abrir um leque de investigações. Como a partida com o Fluminense só era decisiva para o Flamengo, já que o tricolor estava fora da disputa, coube à torcida e aos sócios do clube prepararem a festa, pois bastava o empate para o Flamengo se tornar campeão. Assim, o fato de torcedores invadirem o gramado no final de uma competição, não era nenhuma novidade.  O que aconteceu é que, a partir daquele final de ano, os clubes e jornalistas cariocas começaram a incentivar os torcedores a seguirem o exemplo dos torcedores paulistas.
            Nossa hipótese principal é que a Charanga surgiu depois da Torcida Uniformizada do Vasco (TUV), que surgiria em fevereiro de 1943. Ambas foram criadas através de uma organização informal, unindo membros alheios a estatutos e códigos escritos. Provavelmente, a lembrança de uma data mítica, constituiu a fonte histórica para a reconstrução produzida por jornalistas esportivos interessados na compilação de datas e episódios marcantes. A premência de sair na frente das torcidas dos outros clubes, talvez, tenha ajudado na recordação do dia do primeiro título do clube nos anos 1940. A fundação da agremiação estaria representada em uma data que trazia alegria, festa, música e sorte, valores presentes nas arquibancadas, que acentuavam sua origem vitoriosa. Mais mítico que histórico. É a lembrança “doce vingança” do Fla-Flu da Lagoa de 1941, onde os papéis se inverteram (o Fluminense venceu o campeonato carioca em pleno estádio da Gávea). Em 1942, o Flamengo interrompeu um ciclo de conquistas tricolores, conquistando um título em pleno estádio das Laranjeiras.
             Nesta mesma época os torcedores do Flamengo, motivados pela conquista do campeonato carioca, ficaram mais animados ainda com a vitória sobre o campeão paulista, em São Paulo. Chamando o clube carioca de “O Campeão dos Campeões”, a imprensa divulga o trabalho dos chefes da torcida do Flamengo de  movimentarem-se para reunir a torcida e receber os ídolos na Central do Brasil. De lá sairiam 10 bondes especiais para a sede do clube onde torcedores, jogadores e dirigentes se confraternizariam. Nesta ocasião, Jaime de Carvalho se autoproclama “representante da torcida das arquibancadas e das gerais” (JS, 30-10-42).
 Em sua crônica diária, Mario Filho, é bem claro ao dizer que as torcidas em São Paulo tinham uma organização (copiadas dos universitários americanos) que faltava as cariocas, mesmo depois da propalada data de fundação da Charanga (11 de outubro). O que pode ser mais um indício de que não foi realmente nesta data, a época de sua fundação. “Vendo e ouvindo a torcida uniformizada que São Paulo nos mandou, sente-se naturalmente o desejo de ver um dia os fans cariocas também disciplinados dentro de uma organização, como já uma vez se conseguiu na competição de torcidas do Fla-Flu  (...)  o ponto de partida para uma oportuna campanha em prol de arregimentação das torcidas”[6].
            Não havia ainda uma mobilização organizada e constante dos torcedores não-associados para influir na vida do clube e do time nos estádios. Continuavam a ganhar destaque ainda os sócios mais influentes e as figuras públicas dos clubes. No América, surgia a Turma do Veneno. Um grupo de sócios formado em 1941 que discutia a política no clube: “gente temida e perigosa, ninguém discute que lhes coubesse a responsabilidade por muitos das agitações que andavam perturbando a vida do clube” (CUNHA e VALLE, 1972, p.214). Neste mesmo período, começou a se formar um outro grupo de torcedores influentes com a “criação na década de 1940 da agremiação de torcedores do Flamengo, Dragões Negros, com sede na tradicional Confeitaria Colombo” (HOLLANDA, 2004 p. 23).
            Mesmo com a conquista do título de campeão para o Flamengo, o grande destaque na imprensa carioca era atuação da torcida vascaína que prometia uma maior organização no ano seguinte e promovia uma grande festa no tradicional Cassino da Urca: “a festa constituirá um verdadeiro acontecimento, uma vez que naquela popular casa de diversões serão executadas em primeira audição as marchas “Vasco da Gama” e “Meu Pavilhão”, premiadas em sensacional concurso organizado por Jornal dos Sports e Rádio Clube do Brasil[7]. Para este jantar de confraternização foram esgotadas todas as localidades, o que constituirá uma apoteose a harmonia dos Vascaínos, mais unidos do que nunca em torno do seu pavilhão. A festa de amanhã no Cassino da Urca será o início da organização da Torcida Uniformizada do Vasco (Legião da Vitória), a maior novidade carioca para o campeonato de 1943”[8].
            Pouco depois desta festa a torcida vascaína já se mobilizava para o embate entre as seleções carioca e paulista. Ao todo foram quatro jogos que incendiaram o comportamento das torcidas em ambas as cidades. Foram dois jogos em São Paulo e duas partida no Rio de Janeiro, no estádio de São Januário.
            Para promover o jogo, os vascaínos acenam com a união com os rubro-negros e lançam uma campanha de civilidade diante dos rivais de São Paulo  para que os ânimos acirrados não se excarcerassem: “as manifestações de simpatia e apoio ao selecionado carioca promovida pelos torcedores e sócios do Vasco e do Flamengo constituirá um espetáculo inédito no esporte da cidade. Pela primeira vez na história do futebol metropolitano, as duas maiores legiões de torcedores do Brasil se reunirão num só bloco para saudação aos representantes do futebol citado.
CONCENTRAÇÃO VASCAÍNA
A direção geral da concentração Vascaína ficará a cargo dos “marechais de campo”, Olympio Pio, João de Lucca, Zé de São Januário, Antônio Vieira Jacinto, Oswaldo Moreira de Sá, Manoel Mattos e todos os chefes de setores.
CONCENTRAÇÃO RUBRO NEGRA
A concentração rubro negra, será feita nas tribunas populares, sob a direção do “comandante em chefe” Oswaldo Meneses, que terá como ajudante de ordens o legionário Fausto Ferreira.
INSTRUÇÕES AOS ADEPTOS DO VASCO E FLAMENGO
As instruções dadas aos torcedores, pelos seus respectivos líderes, não comportam manifestações de desagrado aos representantes da Federação Paulista. Pelo contrário, estes devem ser recebidos com aplausos. Dentro das normas esportivas de uma cidade que se orgulha de ser hospitaleira.
COMO SERÃO RECEBIDOS OS JOGADORES CARIOCAS
Os líderes da Torcida Vascaína e rubro negra, pedem para que sejam observadas as instruções abaixo: Na arquibancada social serão colocados dez clarins da Torcida Organizada do Vasco. Nas arquibancadas públicas outros dez clarins da Torcida Organizada do Flamengo”[9].
            Alguma observações se fazem necessárias: a ausência do nome de Jaime de Carvalho. A utilização dos mesmos recursos sonoros entre vascaínos e rubro-negros (os clarins) distribuídos em igualdade para não haver a disputa de qual torcida foi mais vibrante. Estes dois grupos, apesar de se declararem unidos, se posicionam em locais opostos: os vascaínos nas sociais e os flamenguistas nas arquibancadas.
            O resultado final foi a surpreendente vitória de São Paulo pelo placar de 4 a 3, depois de estar perdendo por 3 a 1. Ao término da partida a torcida carioca dá uma  demonstração de esportividade e aplaude o time  vencedor (Sander, 2004).
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.



[1] Fonte: Jornal dos Sports 11 de Fevereiro de 1942
[2] Fonte: Jornal Gazeta de Notícias 24 de Junho de 1942
[3] Fonte: JORNAL DOS SPORTS. Rio de Janeiro, 04 de outubro de 1942,  pp.01 e 06.
[4] Para uma melhor compreensão desta torcida, ver o artigo (HOLLANDA e SILVA, 2006). Nos livros e revistas dedicados ao clube ressaltam sempre a sua primeira torcida uniformizada (LEVER, 1983; COUTINHO, 1990,1995; CASTRO, 2001). Mais do que isso, ela foi apontada durante anos como a primeira torcida organizada do Brasil. A falta de pesquisas e a reafirmação desses dados, passaram como inquestionáveis durante anos (ASSAF e MARTINS, 1997,1999; SANDER, 2004).
[5] Neste mesmo período (JS, 4-10-42) há a notícia de mobilização da torcida do Vasco para enfrentar seu adversário, contando com o apoio de seus adeptos: “os chefes da torcida vascaína movimentando-se em todos os setores, dando o sinal: não falte amanhã”.
[6] Cf. JORNAL DOS SPORTS. Rio de Janeiro, 01 de novembro de 1942, p.02.
[7] No final do ano de 1942, a indústria fonográfica já percebia o crescimento deste filão ao lançar um disco em que os jogadores do Flamengo cantavam duas músicas: “Coisas do Destino” e “Vou Botar no Fogo”. O Vasco também gravaria nos estúdios da Colúmbia “as marchas da torcida organizada do Grêmio da Cruz de  Malta”. O disco tinha duas marchas:   “Vasco da Gama” e “Meu Pavilhão”.
[8] Fonte: Jornal dos Sports 26 de Novembro de 1942.
[9] Fonte: Jornal dos Sports 13 de Dezembro de 1942.

Vasco Jornal dos Sports 1942

Vasco Jornal dos Sports 1942


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